sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Novos estudos dão nuances à questão do sexo prematuro

05/06 - 12:28 - The New York Times

Meninas que fazem sexo muito novas apresentam risco maior de desenvolver depressão, descobriu um estudo. Mas sua auto-estima sofre apenas se o sexo ocorrer fora de um relacionamento romântico.

Para garotos, fazer sexo muito cedo não aumenta os riscos de depressão ou causa diminuição na auto-estima.

"Suspeitei que poderiam existir efeitos negativos do sexo precoce para alguns grupos", disse Ann M. Meier, autora do estudo e professora assistente na Universidade de Minnesota. "E foi o que encontrei - mas apenas sob circunstâncias bastante específicas".

As descoberta, segundo os autores, podem ter relevância para a provisão educacional de abstinência encontrada no ato de reforma do bem-estar de 1996. Programas financiados pela legislação devem ensinar, entre outros elementos da abstinência, que a "atividade sexual fora do contexto do casamento pode causar efeitos prejudiciais físicos e psicológicos".

Este estudo, que aparece na edição de maio da Revista Americana de Sociologia, descobriu evidências mistas desta afirmação.

Usando dados de um estudo representativo nacional, Meier selecionou 8563 adolescentes entre a 7ª série e o último ano do ensino médio que ainda não haviam perdido a virgindade na época da entrevista inicial. Foram entrevistados novamente dois anos depois, respondendo perguntas sobre sua saúde mental e emocional, família, educação, relacionamentos sociais e românticos. Também responderam a questionários sobre depressão e auto-estima. Na época da segunda entrevista, 1256 dos adolescentes haviam tido sua primeira experiência sexual.

A média de idade para a primeira relação sexual variou entre as raças, entre 15,2 e 17,5 anos, com negros fazendo sexo mais cedo e asiáticos mais tarde. Baixo rendimento familiar também apontou sexo em idade precoce.

A primeira relação sexual foi associada à diminuição da auto-estima, mas apenas entre meninas com idade abaixo da média e fora de relacionamentos românticos. Meninas que fizeram sexo na idade média ou mais tarde não apresentavam aumento no risco de sintomas depressivos comparadas àquelas ainda virgens.

Houve um aumento significativo em sintomas depressivos entre meninas que estavam em relacionamentos curtos que terminaram, e fazer sexo neste tipo de relacionamento aumentou as taxas na escala de depressão comparadas com meninas em relacionamentos similares que terminaram sem sexo.

Meier sugeriu que não é tanto a idade cronológica que determina se o sexo foi psicologicamente prejudicial, mas sim o desvio da idade aceita pela sociedade como normal.

- Nicholas Bakalar

22/7/2010 15:59:29 Há 90 anos, nascia Florestan Fernandes

Há 90 anos, nascia o teórico que consagrou a sociologia crítica brasileira. Florestan Fernandes contribuiu para um novo olhar sobre o pensamento da realidade social do país, inaugurando uma forma inovadora de se pensar o passado e o presente. Debruçou-se sobre a obra de grandes nomes como Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire e Euclides da Cunha, permitindo uma interpretação diferenciada da formação do povo brasileiro, considerando sua origem diversa, composta por europeus, índios e africanos, e suas lutas no decorrer do processo histórico. Este é o tema de, por exemplo, A integração do negro na sociedade de classes vol. 1 e A integração do negro na sociedade de classes vol. 2, obras que representam uma virada crítica na autoimagem do país, desmitificando a ideia de “democracia racial”.

O sociólogo conseguiu ter uma das mais brilhantes carreiras da história da Universidade de São Paulo, onde ingressou em 1941, obtendo o mestrado em 1947, o doutorado em 1951 e a livre-docência em 1964. Em 2005, dez anos após sua morte, a biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP recebeu seu nome.

Parte importante da obra de Florestan é voltada para a possibilidade da transformação social – influência direta de sua origem humilde e seu sucesso como acadêmico. A revolução social é um de seus temas principais, como em A revolução burguesa no Brasil.

Florestan Fernandes foi duas vezes deputado federal e publicou mais de cinquenta obras, entre elas Circuito fechado, A função social da guerra na sociedade tupinambá, Pensamento e ação e Que tipo de República?, que continuam influenciando os estudos das ciências sociais.

Resenha do livro - Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso?

RESENHA


FURLANI, Lúcia Maria Teixeira. Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso? 8. ed. São Paulo: Cortez, 2004.


A desvalorização do papel do professor


A autora inicia seu trabalho com uma provocação já no título, ao se referir à desvalorização do papel do professor na universidade. Apresenta uma relação entre a crise política que acompanha o desenvolvimento do mundo moderno em um amplo processo denominado de "crise cultural". Essa crise Uma crise acontece numa redefinição idéias, valores, crenças estão sendo questionadas, pois o ideário que servia de referencial para a postura humana revela-se inconsistente frente aos problemas criados por uma nova realidade. Esse novo contexto econômico internacionalizado impõe novos paradigmas.


O livro foi construído com a pretensão de auxiliar a identificação de alguns dos valores que permeiam a relação professor-aluno, de forma a contribuir, em última análise, para a compreensão da prática docente, prática essa que está envolvida, de forma complexa, em múltiplas outras relações. As relações ocorrem entre pessoas, grupos e fenômenos dentro dos sistemas de ensino e entre estes sistemas e a sociedade (isto é, suas instâncias econômicas, culturais e políticas).


Os elementos teóricos apresentados pela autora pretendem introduzir em primeiro lugar, o inquietar, por em questão, provocar nos leitores a discussão sobre a formulação da questão relacionada ao poder do professor, perguntar pelo seu sentido. Como base usa a citação de Deleule (1975, p. 19) para tomar o caminho da indagação e da comunicação, colocando em primeiro lugar a necessidade da própria indagação.


Nada disso – Abandonar as evidências sobre autoridade


Nesse momento a autora convida novamente o leitor a abandonar algumas das evidências que cercam as relações de autoridade, fazendo referência à necessidade de entendermos as relações de poder. Para tanto, assinala seis pontos essenciais à discussão.


1. Relações de poder


Nesse primeiro ponto observa que grande parte dos cientistas sociais refere-se ao poder como a capacidade de um agente para produzir determinados efeitos, sendo decorrente de uma relação social entre indivíduos, grupos ou organizações, em que uma das partes exerce controle sobre a outra, de forma autoritária, democrática ou permissiva.


Observa que a relação de influência entre pessoas, grupos, organizações se verifica quando alguém adere a interesses, valores, crenças ou modos de comportamento de outrem. Essa relação de poder e a adesão podem se dar com o consentimento ou não de quem adere.


De acordo com Lebrun (1948:13), citado pela autora, o sistema de comportamento socialmente imposto abrange também "os costumes, leis, preconceitos, crenças, paixões coletivas e tudo o mais que contribui para determinar a ordem social".


O poder não é, portanto, algo estranho ao corpo social, nem algo que se opõe sempre ao indivíduo. Este é o nome atribuído ao conjunto de relações que funcionam na espessura do corpo social. Por isso, o poder não é uma função qualquer na sociedade.


2. Relações de Autoridade


Nesse item a autora retoma a análise da relação professor-aluno que é pautada por alguns aspectos como a concretização de poder institucionalizada em nossa cultura da autoridade que tem o professor, como agente responsável, diante do sistema social mais amplo, pelo desempenho do grupo-classe.


Observa-se que as relações de autoridade não são somente baseadas no aspecto institucional; ela considera também, como exercícios diferenciais de poder, as relações que se estabelecem como autoridade em decorrência da competência do professor, competências essas que compreende o domínio teórico e prático dos princípios e conhecimentos que regem a instituição escolar.


3. Sociologia e Pedagogia do Consenso


Nesse momento a autora expõe a relação entre a Pedagogia do Consenso fundamentada nos conceitos liberais da Sociologia do Consenso. Esta pedagogia torna-se incapaz de equacionar devidamente os temas relacionados ao conflito, as mudanças e a inovação educacional. O funcionalismo preocupa-se apenas com as conseqüências da ação social, esquecendo-se de suas causas. Dentro da perspectiva da Sociologia do Consenso e da Pedagogia resultante dela, a autoridade se estabelece para atingir os objetivos ligados à eficiência e à racionalidade instrumental, descuidando dos aspectos éticos relacionados com os participantes do sistema educacional.


4. Sociologia e Pedagogia do Conflito


Esse item estende a abordagem iniciada no discurso anterior, associando a Pedagogia do Conflito com em a Sociologia do Conflito, fundamentada nos conceitos filosóficos e políticos de Marx e Engels e, para a autora ainda se estende também no século XIX, explora as potencialidades da dialética, com conceitos como poder, contradição, totalidade, mudança e emancipação.


5. Qualidade de vida humana coletiva


A autora fundamenta a idéia de qualidade de vida humana em dois valores éticos: liberdade e eqüidade, ambos devem atuar de forma conjugada, devendo refletir, em um contexto cultural específico, uma experiência cujo critério-chave será o desenvolvimento da qualidade da vida humana, respeitando os espaços de opção individual e promoção coletiva.


6. A autoridade dentro da Psicologia da Educação


A autora relaciona a autoridade com a Psicologia da Educação, enfatizando que os professores, os alunos e demais membros da comunidade universitária não podem anular, o que ela chama de um sistema de normas, que é exógeno ao sistema, e que, portanto não criariam, mas, por outro lado, refugiar-se atrás disso para recusar qualquer tipo de transformação representa uma atitude conformista e de autoritarismo.


Por que privilegiar a autoridade baseada na competência?


A tônica desse item é a autoridade do professor baseada na sua capacidade e sua autoridade surge através da competência e do empenho profissional dele, podendo estabelecer uma mediação democrática, através da ênfase predominante pontuada pela convergência entre liberdade e igualdade, tendo como critério norteador a qualidade de vida humana coletiva.


A autora defende que a autoridade exercida pelo professor, ao invés de ser baseada na legalidade da posição do professor, decorre da sua legitimidade. A autoridade está ligada aos papéis inerentes ao exercício da docência e se expressa em situações na qual a competência do professor o credencia como aquele que melhor poderá executar determinadas funções.


Para ela a autoridade é delegada pelos alunos ao professor que conseguem demonstrar competência e venha a atender as necessidades mútuas do professor e dos alunos.


O pressuposto dessa autoridade é a participação responsável, pois esta tende a afastar o perigo das soluções dogmáticas e fechadas. Por isto, denominamos a autoridade que assim é estabelecida como exercício conjunto do poder.


1. Autoridade baseada na posição hierárquica


Ao analisar-se a autoridade fundamentada na posição hierárquica, poderemos compreender uma relação intersubjetiva através da resposta que se dá a essa questão. E a partir daí questionar quem está em posição superior e quem esta em posição inferior? A autora destaca que entre professor e alunos, há uma relação de poder institucionalizado que se efetiva através da organização escolar.


2. A desigualdade no exercício do poder


A desigualdade no exercício do poder pode ser observada pelas concepções que colocam o professor como agente informador (na transmissão do conhecimento), como agente controlador (no disciplinamento da situação pedagógica), como agente classificador (na avaliação da mesma) e com uma vivência de modelos autoritários.


3. A ocultação do exercício do poder


Para a autora a ocultação do exercício do poder do professor é a concepção que abrange a descrição do papel do professor através das categorias já incluídas na desigualdade de poder, isto é, as funções priorizadas são as de informador, controlador, classificador e vivência de modelos autoritários. Ela sustenta que a ocultação do exercício do poder advém da desigualdade que é patente, através dos papéis exercidos pelos professores e alunos, porém a força que está sendo empregada é mantida oculta.


Para ela os sentimentos de culpa, de insatisfação, que atingem alguns professores que adotam a concepção e a postura de ocultação do exercício do poder parecem ser decorrentes dos sérios equívocos que "versões críticas parcializantes" têm trazido à concepção da prática escolar.


4. Autoridade baseada na competência e empenho do professor


A autoridade e empenho baseada na competência permite ao professor exercer a autoridade que lhe é atribuída para o desempenho dos papéis que facilitam um clima de negociação normal – isto é, com conflitos – dentro do qual o poder do aluno pode ser exercido de forma que haja influências mútuas.


5. Recusa de modelos (negação da autoridade)


A autora destaca a recusa de modelos quando o professor nega a autoridade, ele abandona o exercício do poder de transmitir conhecimento, disciplinar e avaliar a situação pedagógica e vivenciar modelos em seu relacionamento com os alunos que respeitem a singularidade de cada um e que sejam frutos de uma reflexão.


Papéis que integram a competência do professor


A autora enumera os comportamentos, isto é, as ações consideradas necessárias para o bom desempenho docente, de acordo com a análise de documentos oficiais que normalizam o papel do professor de ensino superior.


1. Transmissão do conhecimento


Há na transmissão de conhecimentos, uma natureza subjetiva que tem a ver com o contexto da situação, isto é, com o professor que transmite, com os alunos para quem o professor se dirige e com os fatos que o cercam numa sociedade historicamente determinada.


1.1 O professor como informador


A autora deixa bem claro ao tratar o papel do professor como informador, nessa condição ele privilegia a objetividade do conhecimento e sua reprodução idêntica em todas as classes, em detrimento do contexto em que ele é transmitido, o professor assume a concepção de mero informador.


1.2 O professor como didata


Já no papel de professor didata, mesmo considerando que o conhecimento está "acabado", sua transmissão pode permitir que o aluno refaça com o professor as etapas da experimentação científica, discuta os pressupostos teóricos e suas limitações, possibilitando que o mestre e seus alunos avancem em várias perspectivas, estamos nos deparando com a concepção de didata.


2. Disciplinamento da situação pedagógica


A autora destaca o disciplinamento pedagógico baseado na ação do professor que ensina e facilita a ocorrência de desempenhos adequados dos alunos, mas admitindo que exista, no trabalho escolar, um grau de restrição a comportamentos julgados indesejáveis. Ela avalia que o trabalho escolar não pode se desenvolver a revelia da observância de normas de conduta, de certas ordens, pois objetiva a aprendizagem, não sendo, portanto, um processo espontâneo ou apenas lúdico.


2.1 O professor como controlador


Não a dúvidas, a autora deixa bem claro que, na condição de professor controlador ele espera um aluno submisso, que respeite a 'autoridade', privilegiando valores do disciplinamento: a aceitação, a obediência, o respeito e a dependência do aluno, assumindo a concepção de controlador da expressão dos alunos.


2.2 Estratégias do professor controlador


Outro ponto enfatizado pela autora são as estratégias utilizadas pelo professor controlador e são amplamente conhecidas: o manejo da nota, o controle da presença do aluno pelo professor aparece como meio eficaz para conseguir sanar conflitos: dar um ponto na nota, retirá-lo ou aplicar uma prova difícil, anular uma prova, abonar faltas.


2.3 O professor facilitador


A autora destaca o papel do professor facilitador e que busca desempenhos adequados dos alunos e lembra que a disciplina não diz respeito apenas ao aluno, que é ou não indisciplinado, mas está associada com o autodomínio de professores e alunos em sala de aula.


2.4 Estratégias do professor facilitador


As estratégias do professor facilitador segundo a autora destacam-se pelo autodomínio de professores e alunos, baseado na co-responsabilidade por um trabalho coletivo, faz com que a cobrança possa ser efetuada por qualquer uma das partes, dentro de um contrato de trabalho no qual o professor tem obrigações delimitadas para atingir objetivos já aceitos. Isto faz com que esses contratos possam ser mais eficientemente cumpridos.


2.5 Ausência de disciplinamento


A autora destaca a ausência de disciplinamento e a idéia de que a estratégia de passar a responsabilidade ao grupo de alunos, a seu ver, surge quando o professor não sabe que comportamentos deve estimular. Assim, o grupo fica com responsabilidade, por exemplo, pela inclusão ou não do nome do aluno no trabalho a ser apresentado pelo grupo. A ausência de participação discente não é alvo de discussão: se o grupo resolver incluir ou excluí-lo, o professor atribuirá nota, sem discutir ou questionar a participação do aluno. Ela cita este caso como um é um exemplo da ocorrência de ausência de disciplinamento por parte do professor, já que esta função é passada para o grupo.


2.6 Indisciplina de quem: do aluno, do professor, da escola?


Ela acredita que a utilização, no disciplinamento, de estratégias visando o controle, seja motivo de insatisfação, tanto para professores, como para o aluno, na grande maioria dos casos. Quando há o controle ou a ausência de disciplinamento, podemos estar nos deparando com a existência de falhas na competência do professor e do aluno para exercer o poder conjuntamente.


3. Avaliação da situação pedagógica


Para a autora a escola ou, no caso, a universidade, toda ela está montada tendo em vista um sistema de avaliação de "quem entra" e "quem sai": o vestibular os exames, as teses, são múltiplos os processos de avaliação individual.


Ela cita Luckesi (1986), para evidenciar a avaliação da situação pedagógica. Apontando que a avaliação é um julgamento de valor sobre manifestações relevantes da realidade, tendo em vista uma tomada de decisão. Se é um juízo de valor, significa uma afirmação qualitativa sobre dado objeto, a partir de critérios preestabelecidos.


3.1 O professor como classificador


A autora também destaca o papel do professor como classificador que é norteado pelo comportamento do professor referente à classificação do produto que o aluno apresenta situa-se em: julgar o produto que o aluno apresenta nas provas e trabalhos e detectar as suas dificuldades, sendo a avaliação apenas uma forma de o aluno mostrar o que aprendeu ou não.


3.2 O professor como diagnosticador


Para o professor diagnosticador, conforme destaca a autora, a utilização da avaliação como diagnóstico efetuado pelo professor implica o julgamento do produto apresentado pelo aluno, combinado com a observação deste aluno, o que encaminha o mestre para uma reavaliação do planejamento, dos recursos utilizados e para uma auto-avaliação. É uma reorientação de seu trabalho e dos alunos, permitindo que o rigor técnico e científico os auxilie na tomada de decisão necessária para superar as dificuldades apresentadas na aprendizagem.


3.3 Avaliar o quê e para quê?


A autora enfatiza que sendo a avaliação um julgamento de valor, dentro de critérios preestabelecidos, estabelecendo determinados objetivos de cada matéria e da escola, mas destaca que nem todo desvio à norma padrão estabelecida tem a mesma importância para ao que está sendo julgado.


A avaliação deve privilegiar aspectos mais relevantes das condutas, como aquisições e habilidades priorizadas devem ser ratificadas, permitido aos alunos praticar, revisar e avaliar esses aspectos.


Há um aspecto da classificação do produto que o aluno apresenta que é necessário lembrar. Ao enfatizar a classificação, o professor e a escola não refletem a respeito da inadequação entre conteúdos tradicionalmente incorporados ao currículo escolar e as necessidades ou características da 'clientela'.


4. Vivência de modelos no relacionamento com os alunos


A autora destaca a importância de modelos no relacionamento com os alunos e destaca que não se deve considerar apenas e somente a capacitação técnica do professor (escolaridade, domínio de um ramo do conhecimento, experiência) que se exercita nos papéis que ele desempenha; também suas características afetivas, culturais e de personalidade se problematizam como parte dos papéis que são desempenhados, possibilitando que modelos sejam vivenciados quando o professor transmite o conteúdo, disciplina e avalia a situação pedagógica.


4.1 Modelos autoritários


Nos modelos autoritários, segundo a autora, ao transmitir-se o conhecimento, ao disciplinar e ao avaliar a situação pedagógica, o professor detém todo o conhecimento necessário, por isso não é dada a palavra ao aluno, que é avaliado positivamente se concordar ou referendar o sentido único que é atribuído ao conhecimento e apresentar comportamentos que não contestem esse sentido.


4.1.1 Autoritário explícito


Nesse exercício explícito de autoritarismo, fica evidente, a desigualdade do exercício do poder, fica claro no relacionamento quem dá a ordens e quem as obedece. Os professores detêm o centro da decisão, independentemente do grau de maturidade do aluno e valorizam a posição hierárquica porque temem o questionamento da ordem institucional, a ausência de lugar para quem exerce uma autoridade distante de críticas, de revisão e de avaliação.


4.1.2 Autoritário oculto


A ocultação do exercício do poder supõe a impessoalidade, porque a hierarquia não é voltada para os princípios de um bom ensino e para a responsabilidade do professor pela aprendizagem, mas o é para um sistema de normas externas impessoais ou ocultas ("não é o que eu queria..."). As atitudes do professor baseiam-se no que 'deve ser'.


4.1.3 E o que é conflito?


Para tratar a questão do conflito, a autora utiliza a citação do modelo de relacionamento humano de Gordon, destacando que conflito significa batalhas ou colisões que ocorrem entre duas ou mais pessoas, quando seus comportamentos interferem com o do outro no encontro de suas necessidades e quando seus valores não se combinam.


4.2 Modelos permissivos


Os modelos permissivos caracterizam-se pela total liberdade de expressão, na qual tudo é deixado acontecer em uma forma espontânea, sem limites. A autora também destaca a aceitação dos múltiplos sentidos dados pelos alunos, sem serem estes disciplinados, possibilitando uma luta pelo poder, que será ganha pelo aluno que dispuser de habilidades aceitas e legitimadas pela sociedade.

A permissividade não tem compromisso com a aprendizagem nem com instituições, enfatiza a autora, porque o professor não assume os papéis e as atitudes decorrentes deles, ocasionando assim ausência de orientação e direção da aprendizagem do aluno em aspectos unicamente dependentes do docente.


4.3 Modelos democráticos


A autora ressalta que a vivência democrática é o meio-termo entre o modelo autoritário e o modelo permissivo, caracterizando-se pela existência de diálogo; o conhecimento é desenvolvido, elaborado e reelaborado através de uma interação na qual o aluno tem também o direito de falar (sua experiência, nível de preparo para a matéria e suas características socioculturais são o ponto de partida para a orientação da aprendizagem).


4.4 Modelos democráticos: ainda uma utopia?


Para a autora pode parecer utópico falar-se em vivenciar modelos democráticos na relação professor-aluno, pois a quando sociedade brasileira ainda discute o que é democracia, ocorrendo muitas indefinições, neste aspecto, considerando-se a atual fase política denominada Nova República.


4.4.1 Idealismo ingênuo


O idealismo ingênuo, de acordo com a autora, acontece quando a aprovação, o afeto, a confiança, o respeito, a liberdade para expressão de idéias e sentimentos, a empatia aparecem ao lado da punição, da sugestão, da diplomacia, do 'saber jogar' e da ameaça; essa alternância, essa inconsistência, mostra-se confusa para os professores e deve refletir-se nos testes constantes que os alunos podem efetuar, a fim de conhecer os limites a serem respeitados na relação.


4.4.2 Desenvolvimento do ensino superior brasileiro


A autora destaca o dilema enfrentado por muitos docentes, que apesar de desejarem desenvolver em seus alunos autonomia, a autodisciplina e a autoconfiança, compreendendo-os e confiando em suas capacidades, nem sempre se consideram seguros para trabalhar com os alunos dotados destes quesitos. Ainda de acordo com autora os professores relatam que esses estudantes reagem tanto à recompensa quanto à punição apresentadas no disciplinamento da situação pedagógica, aumentando a impotência que sentem e levando-os a vivenciar modelos autoritários tradicionais.


4.4.3 Potencializar para os novos papéis...


Ao citar Skinner (1972), a autora concorda quando ele afirma que a maioria dos professores não deseja usar controles aversivos e se sentem infelizes com a sua utilização. Tais práticas continuam sendo usadas possivelmente porque os educadores não aprenderam a desenvolver outras alternativas mais eficazes e enriquecedoras.


4.4.3 fazendo a teoria virar prática


Para a autora os modelos teóricos apresentados, tanto na vivência autoritária quanto na democrática e na permissiva, devem ser entendidas dentro de sua natureza – a tória – e da subjetividade que propiciou sua elaboração.


O sonho não acabou?


O momento atual de interpretação das relações entre a educação universitária e a sociedade aponta para alguns caminhos que visam o resgate da função específica da escola. Para a autora, no entanto, uma análise crítica e realista sobre a universidade e o desempenho do papel do professor e do aluno já se apresenta de forma mais viva, apontando algumas explicações e sugestões.


Questões para debate


A autora destaca o momento atual de interpretação das relações entre a educação universitária e a sociedade, apresentando caminhos para uma nova realidade na escola:


1. A necessidade de serem discutidos integradamente os objetivos da escola, de forma a ser suprida a ausência de políticas claras para o setor educacional, direcionando-o e compatibilizando-o com os ideais democráticos defendidos pela sociedade.


2. A necessidade de que professores e educadores conheçam o perfil de seus alunos: suas experiências, suas necessidades, suas condições de vida.


3. Dotar o professor universitário de uma estrutura pedagógica que facilite o desempenho de seus papéis e a mudança de habilidades e atitudes.


Nas suas considerações finais a autora coloca que a escola e o professor competentes serão aqueles que conseguirem garantir aos alunos o domínio das habilidades relevantes para sua qualificação, habilidades que deverão ser corretamente avaliadas. Essa escola é aquela que irá conseguir formar bons alunos, bons professores, uma elite, independentemente do nível sócio-econômico destes alunos.


CRÍTICAS


O livro procura recuperar o discurso sobre autoridade, para tanto a autora relaciona este conceito com os diversos papéis que compõem a competência profissional do professor universitário. Nesse momento faço a primeira crítica em relação à competência do professor, pois a autora não deixa claro qual é essa competência ou quais as competências é ou são necessárias para o exercício da docência e a autoridade do professor e seu poder em relação aos alunos.


Apresenta suas argumentações como "uma abordagem inédita, contribuindo para a compreensão da autoridade, através de uma fecundação recíproca da Psicologia da Educação e da sociologia". Apresenta alguns aspectos sobre autoridade e poder interessantes, abre a discussão a respeito da relação entre professor e alunos, mas não poderíamos afirmar que se trata de algo inédito.


Concordo com a autora quando se refere a rapidez das mudanças no plano do conhecimento e as modificações dos processos históricos de transformação da sociedade, mas faço ressalvas se estão retirando ou não muito dos parâmetros que as pessoas possuíam para pensar a educação, a história e a si mesmas.


Onde está o delicado limite entre o autoritarismo, a autoridade e o niilismo ou nada? Um belo questionamento proposto pela autora, mas não li de forma cabal a resposta a esse questionamento. A autora faz alguns ensaios sobre o autoritarismo, a autoridade, quando ao niilismo - entendendo como a descrença absoluta na escola e no professor – não vejo uma proposta bem fundamentada.


Deve-se observar que o livro apresenta uma discussão não tão aprofundada em função da proposta editorial que é a apresentação de várias questões da nossa época num conjunto de vários livros abordando a educação.


A autora discorre sobre diferentes formas de exercício da autoridade docente, mas a meu ver não responde a indagação proposta no título à autoridade do professor e a relação com meta, mito ou nada disso? Não li nenhum ensaio tratando sobre mito ou mesmo meta. Trabalhou essencialmente com a autoridade do professor.


A autora cai na simples denúncia do autoritarismo, busca apresentar propostas que o ultrapassem, mas lembra que não se trata de "uma solução ou de um modelo, mas uma aproximação provisória do real, repleta de valores e temporalidade; portanto, sujeita à superação pela experiência única de outros educadores e sua capacidade de reinventar novos trajetos e horizontes". Porém, não apresenta efetivamente componentes práticos a que se propõe, sua argumentação fica no campo dos sonhos.

Início do conteúdo FHC retrata um Gilberto Freyre 'cosmopolita'

Diante de uma plateia que lotou a tenda principal, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez ontem à noite a conferência inaugural da 8.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Seu tema foi o pensamento e a perenidade da obra de Gilberto Freyre (1900-1987), autor homenageado este ano pelo evento literário.

Saudado pelo historiador Luiz Felipe de Alencastro e segurando nas mãos um maço de folhas de papel, Fernando Henrique confessou para a plateia ter demorado "um mês para escrever isso aqui" e de ter relido boa parte da obra freyriana, além revisitar inúmeras fontes bibliográficas, até compor o texto da conferência. Que preferiu não ler, "porque senão vocês perdem a hora do jantar".

Falou de improviso durante mais de uma hora, seguindo ideias básicas do texto não lido (íntegra no estadão.com.br/cultura). Entre elas, explicou por que se difundiu a versão de que a escola paulista de sociologia, ligada à formação da Universidade de São Paulo (USP) e influenciada de perto por Florestan Fernandes, de quem FHC foi aluno e assistente, era avessa a uma suposta sociologia sem método, desenvolvida pelo célebre pernambucano.

FHC admitiu que o autor de Casa-Grande & Senzala, naqueles anos 30, parecia disseminar uma visão nostálgica de Brasil, que foi tido mais como ensaísta do que como cientista social, desenvolveu conceitos ambíguos e não raro deixava análises sem conclusão. "Mas hoje é possível entender a contemporaneidade de Gilberto Freyre. Era um sujeito cosmopolita, aberto para o mundo, porém pensava como antropólogo, valendo-se de uma formação literária sólida."

Foram inúmeros os exemplos da originalidade, ainda que cercada de polêmicas, da obra do sociólogo pernambucano. FHC insistiu num ponto: a expressão "democracia racial", tão questionada por estudiosos e sempre atribuída a Freyre, foi usada pela primeira vez por Roger Bastide, professor pioneiro da USP, ao traduzir para o francês Casa-Grande & Senzala.

Em vários momentos, o ex-presidente recorreu ao humor, preocupado em facilitar o entendimento de uma exposição de conteúdo acadêmico e pouco literário. Ao defender que Gilberto Freyre tinha se aproximado do movimento modernista brasileiro, mesmo sendo um regionalista confesso, FHC ironizou: "Gilberto tinha uma compreensão original do modernismo. Nós, paulistas, aqui nos salões da dona Veridiana, é que ficávamos embevecidos com Blaise Cendrars." Referiu-se ao escritor suíço de vida itinerante, que influenciou fortemente Oswald de Andrade.

Em outros momentos, FHC citou com admiração Sérgio Buarque de Holanda, cujo pensamento e análise em torno do "homem cordial" seriam o melhor contraponto a Gilberto Freyre. Por fim, exortou que a Flip homenageie o autor de Raízes do Brasil em uma de suas edições futuras.

Sem política. Tratado como sociólogo e professor durante toda a palestra, Fernando Henrique, também articulista do Estado, não falou em política. Em um único momento, ao comentar o estilo de Gilberto Freyre, sempre propenso a buscar conciliações, acrescentou que "hoje em dia, estão todos tão conciliadores", provocando risos da plateia. Mas ficou por aí. Ao término da exposição, foi aplaudido de pé por boa parte do público e, emocionado, ameaçou repetir tudo o que havia dito.

Hoje a Flip apresenta a primeira das três mesas de debate em torno da obra de Gilberto Freyre, contando com a participação do também pernambucano Edson Nery da Fonseca, de 89 anos, escritor, perito em biblioteconomia, um dos fundadores da Universidade de Brasília (UnB)e grande especialista na obra freyriana.

Contradições
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE 1995 A 2002, SOCIÓLOGO E PROFESSOR EMÉRITO DA USP
"Gilberto Freyre não é banal. Ele escreve bem, sabe contar, pega no embalo. Daí a sua perenidade."

"Ele se interessava pelas formas da sociabilidade brasileira: o que se passava na casa grande e no resto."

"Mas era ambíguo, capaz até de afirmações racistas, porque qualificava as pessoas o tempo todo. Gilberto Freyre sempre foi contraditório."


Expõem no México arte funerária dos antigos maias

México, 10 ago (Prensa Latina) Pela primeira vez mostrarão no México de forma completa os conjuntos funerários que acompanharam seis governantes maias, pertencentes ao chamado período clássico, entre os anos 200 e 900 d.C.

"Rostos da divindade. Os mosaicos maias de pedra verde" é o título escolhido para a exibição que abrirá no próximo 12 de agosto no Museu Nacional de Antropologia, nesta capital.

Incluirá 147 peças provenientes de templos pré-hispânicos localizados nas cidades Palenque, Calakmul, Dzibanché e Oxkintok.

Entre os elementos principais estará um corpus de 13 máscaras fúnebres de pedra verde e um peitoral zoomorfo de concha, explicou a curadora Sofía Martínez do Campo.

A responsável pelo Projeto Máscaras Funerárias destacou que a exibição será possível devido aos trabalhos de restauração realizados durante quase uma década.

Das 13 máscaras, detalhou, oito correspondem ao período Clássico (200-900 d.C.), no apogeu das dinastias maias, aí inclui-se a que portava K'inich Janaab' Pakal, que dirigiu a cidade de Palenque, em Chiapas, entre 615 e 683 d.C.

Martínez do Campo informou que cinco máscaras mostram rostos de divindades e foram dispostas nas oferendas como peitorais ou cintos cerimoniais.

Colares, anéis, braceletes, peitos, máscaras, peitorais e miniaturas cerimoniais conformavam os objetos mortuários, de tudo isso dá conta a exposição.

Depois das explorações nas tumbas, os objetos foram exibidos até agora em diversos museus, mas nunca antes em seu conjunto, como foram encontrados originalmente, destacou a especialista.

A importância de apresentar os objetos completos em seu conjunto, radica em que cada peça faz parte de um todo simbólico, quando se dissociam perdem esse caráter, esclareceu a restauradora.

Rostos da divindade incluirá outras máscaras cerimoniais de pedra verde descobertas em enterros secundários de Oxkintok, Dzibanché e A Rovirosa, informou.

Também um tapete funerário feito com cerca de oito mil caracóis e sementes, que há 1.600 anos fez parte do conjunto mortuário de uma personagem de alta importância na antiga cidade maia de Calakmul.

Depois de sua apresentação, durante agosto e setembro, no Museu Nacional de Antropologia, a mostra será levada à Itália, ao Museu Arqueológico de Nápoles.

Ali permanecerá de novembro até janeiro de 2011 e posteriormente será mostrada em Paris, França.

mv/mjm/es
Modificado el ( martes, 10 de agosto de 2010 )

Na Flip, sociólogo diz que Brasil é bilíngue

Na tarde deste domingo (8), último dia da 8ª Festa Literária Internacional de Paraty, o sociólogo e escritor paulistano José de Souza Martins afirmou que o Brasil é um País bilíngue. Ele, o escritor inglês Peter Burke e o antropólogo Hermano Vianna participaram da mesa Gilberto Freyre e o século XXI.

"Não se fala apenas português no Brasil. Somos um país bilíngue. Falamos nhengatu, um dialeto. O sotaque caipira e sertanejo é uma herança desse dialeto. Em São Paulo, muitos nomes de bairros têm origem nhengatu, como Mooca, Butantã, Carapicuíba. Se não falássemos nhengatu, não viríamos à Paraty, que é uma palavra nhengatu", disse o sociólogo.

Na opinião dele, a sociologia usada por Gilberto Freyre em seus livros tem um estilo que o difere da maioria dos sociólogos, que é o bom humor.

"A sociologia dele é bem humorada para explicar o seu ponto de vista. A sociologia normalmente é sisuda".

Outra declaração de José de Souza Marins que chamos atenção foi sobre as raças no Brasil. Ainda segundo ele, é importante a população afro-descendente conhecer a origem dos negros que foram trazidos ao País para serem escravizados.

"Não existem três raças no Brasil (branco, índio e negro), como os professores ensinam de forma errada as crianças. Isso não é verdade. Há brancos no norte e do sul da Europa no Brasil. Os grupos de escravos que foram trazidos ao Brasil eram de diferentes culturas e regiões da África. Havia negros alfabetizados e outros de culturas mais simples", contou.

O escritor britânico Peter Burke também participou da palestra. Casado como uma brasileira, Maria Lúcia Pallares, que também é escritora, ele falou em português. Peter escreveu em parceria com a esposa o livro Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre.

"O Gilberto definia a caipirinha como uma bebida tipicamente brasileira. E o futebol como futebol mulato", relembrou Peter, que reconheceu a dificuldade de traduzir para outro idioma a cultura e a diversidade de um outro país. "Ainda temos muito que aprender sobre o Gilberto".

Debate atualiza a questão racial da obra de Gilberto Freyre

Peter Burke e Hermano Vianna estavam na última discussão sobre o autor.
Sociólogo críticou movimento negro, que cria conceito de 'negro genérico'.
A mesa "Gilberto Freyre e o século 21", a última em homenagem ao autor de "Casa-grande & senzala" e talvez a mais interessante, reuniu neste domingo (8) os acadêmicos Peter Burke, Hermano Vianna e José de Souza Martin, com mediação de Benjamin Moser - o biógrafo de Clarice Lispector que escreveu recentemente um artigo pol mico sobre Freyre.

Burke, que é britânico e fala português, destacou a relevância da obra de Freyre no século 21 e a necessidade de adaptar seu pensamento às novas realidades do multiculturalismo, concentrando sua fala nos conceitos de "mestiçagem cultural" e "hibridismo cultural". "Esses conceitos são talvez mais relevantes hoje que no século 20", afirmou o historiador.

Freyre aplicou a ideia de mestiçagem cultural ao analisar diversos temas, como o nosso furebol "mulato", que incorpora elementos da capoeira e do samba, a nossa literatura, que mistura ficção e análise social nos romances de Jorge Amado, e até mesmo o nosso sexo.

"Ao escrever sobre sexo, Freyre usou um vocabulário muito rico, que reflete a interpenetração entre diferentes culturas", disse Burke, autor do livro "Repensando os trópicos". "Mas uma cultura não é um texto, não é uma lingaugem, apesar de as duas apresentarem analogias. Então é preciso tomar cuidado ao pensar numa tradução cultural pura e simples", completou.
José de Souza Martins e Benjamin Moser.José de Souza Martins e Benjamin Moser.
(Foto: Reprodução)

Burke em seguida comentou o conceito de "ideias fora do lugar", criado pelo crítico Roberto Schwarz. "Quando cheguei ao Brasil, nos anos 80, só se falava disso, como uma crítica ao 'macaqueamento' de modelos externos e a importação de modelos estrangeiros, mas tenho problemas com essa ideia. Nos anos 20 essa atitude levou Graciliano Ramos a afirmar que não se devia jogar futebol no Brasil, por ser um esporte europeu".

José de Souza Martins, classificado por Moser como o maior sociólogo brasileiro vivo, autor de livros como "Fronteira", sobre a escravidão na Amazônia, e "O cativeiro da terra", sobre o lento processo de libertação dos escravos no Brasil. Ele contou duas anedotas de viés antropológico, provocando gargalhadas na plateia antes de entrar no tema.

"É evidente que a sociologia de Freyre não tem lugar no século 21 nos mesmos termos em que teve na sua época, mas ainda tem seu espaço. Na questão racial, sobretudo, sua obra voltará a ter um destaque crescente", opinou Martins.

Sobre o conservadorismo do sociólogo, Martins brincou mais uma vez. "Desde 68, para os estudantes de ci ncias humanas, até Karl Marx é de direita".

Negro genérico
Martins fez uma crítica velada ao movimento negro no Brasil. "Hoje está se criando a ideia do negro genérico. Ora, não existe negro genérico: os negros que vieram como escravos para o Brasil vieram de diversas etnias, inclusive, no caso dos negros muçulmanos, até mais cultos que os portugueses. Essa diversidade foi muito importante: a Casa Grande selecionava a dedo o negro da senzala que trabalharia nela, casa grande, criando uma possibilidade de ascens o social entre os negros escravos. É preciso entender esses aspectos da história dos negros no Brasil".

Martins fez uma análise interessante da questão racial no Brasil. "No fundo a ideia de que o Brasil é composto de três raças é uma tolice, porque nenhuma das três raças existe, somos um país inteiramente mestiço. O Brasil é um país de brancos mestiços com branços, da mesma força que existe diversidade entre os negros e as populações indígenas. Quando lemos Gilberto Freyra, ficamos mais sensíveis a essa diversidade, que é também linguística".

Hermano Vianna, autor de "O mistério do samba", disse ter em Gilberto Freyre uma grande fonte de inspiração, particularmente os numeros artigos que ele publicou na imprensa pernambucana. "Acho interessante radicalizar as ideias de Gilberto Freyre. Obviamente, o Brasil não é uma democracia racial, e Gilberto Freyre não disse isso. O elogio da mestiçagem também é uma interpretação errada, que acoberta o racismo na sociedade brasileira. Temos que transformar esses conceitos em armas de combate ao racismo.

Freyre, a contradição constante

Peter Burke. Conceito de mestiçagem revisto Homenagens correm o risco de se tornar laudatórias. Mas a Flip se desviou do perigo ao escolher como homenageado deste ano o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). Intelectual contraditório, com posições políticas indefensáveis e arredio aos cânones acadêmicos, Freyre rendeu conversa para três mesas em torno da sua trajetória e obra, fora a conferência inaugural, onde foi dissecado pelo também sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Somadas as atividades em torno do autor de Casa-Grande & Senzala, a impressão que fica é a de que Freyre continua sendo uma equação que não fecha. Ele próprio recorria a categorias inusitadas na tentativa de se explicar: "Sou acatólico, pós-marxista e inacadêmico."

Um elenco de intelectuais e pesquisadores foi recrutado para debater Freyre ao longo da Flip. A conferência feita por Fernando Henrique confrontou o pernambucano com as correntes de pensamento do seu tempo. FHC explicou por que Freyre foi criticado pela escola paulista de sociologia. "Não há dúvida de que Florestan Fernandes e Roger Bastide promoveram uma reviravolta nos estudos de raça no Brasil. Começamos a fazer pesquisa, orientados por eles, e vimos que não batia com o que vinha de Freyre. Havia discriminação contra o negro e nada nos remetia à ideia de democracia racial", salientou o ex-presidente. FHC argumentou que o autor pensava como antropólogo, produzia como ensaísta e virava as costas ao cientificismo acadêmico. "Ao passo que nós, na sociologia da USP, dávamos aula até de avental branco", ironizou.

Em vários momentos os debatedores focalizaram o estilo solto e sedutor da escrita de Freyre. O historiador Ricardo Benzaquen falou de um certo inacabamento do texto, algo a ver com a oralidade e a tradição do ensaísmo. O domínio da linguagem era tanto, que Freyre chegou a usar palavras chulas em seus livros, lembrou o crítico literário Edson Nery da Fonseca: "E foi duramente criticado por Afonso Arinos." Embora possa ter idealizado a situação do negro, ousou demonstrar que, em certas partes do País, os escravos eram culturalmente superiores aos colonizadores, aspecto ressaltado não só por Nery da Fonseca, como pelo africanista Alberto da Costa e Silva.

Livros menos conhecidos foram revistos: Nordeste, Ingleses no Brasil e Ordem e Progresso. Costa e Silva falou dos microensaios de Nordeste - sobre canoas, casas, cavalos, o hábito do cafuné, entre outros temas -, valorização do mundo das coisas pequenas. Já a historiadora Maria Lúcia Palhares Burke trouxe à tona o "amor quase físico" de Freyre pela cultura inglesa, enquanto a socióloga Angela Alonso, ao analisar Ordem e Progresso, sobre a desagragação da sociedade patriarcal, ressaltou a visão de uma civilização tolerante, plástica, tropical.

O ciclo freyriano na Flip prova como o conceito de mestiçagem foi desdobrado por Freyre, "não só na literatura, mas na política e até no sexo", sublinha o historiador Peter Burke. Ao que o sociólogo José de Souza Martins agrega: "Sua sociologia não pode ser vista, hoje, do mesmo lugar de quando foi produzida."


FHC ensina Maquiavel: "Às vezes, o presidente deve mentir"

Cercado de intelectuais no Cultura Artística Itaim, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, 9 de agosto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recolhe elogio temporão pela conferência de abertura da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), na homenagem ao sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. "Só se fala no senhor. Todos gostaram!", afaga um conviva, durante o coquetel de lançamento da parceria Penguin-Companhia das Letras.

Com a presença de Lygia Fagundes Telles, João Moreira Salles, Lilia Moritz Schwarcz, Eduardo Gianetti da Fonseca e Matinas Suzuki Jr., as editoras lançaram "O príncipe", de Maquiavel, "Pelos olhos de Maisie", de Henry James, "Essencial Joaquim Nabuco" e "O Brasil Holandês" (organizado por Evaldo Cabral de Mello).

Autor do prefácio de Il principe, o "príncipe dos sociólogos" lustra a modéstia, segurando uma taça, perto de entrar no auditório para uma conferência sobre Nicolau Maquiavel (1469-1527): "Não sei o que vou falar. Já está tudo aqui". Rosto lavado, aprumado num terno cinza, FHC ouve o editor Luiz Schwarcz chamá-lo de "um clássico":

- ...O presidente que, em si, já é um clássico da sociologia brasileira...

Na hora do solilóquio, o líder do PSDB sobe as escadinhas do palco e comprime o ego:

- Não sou clássico coisa nenhuma!

Depois de Casa Grande & Senzala, ele marcha no agosto literário com a República de Florença & Machiavelli. Dispõe-se a não chatear a plateia.

- Outro dia, Gilberto Freyre deu mais trabalho que Maquiavel.

No início da aula sobre o clássico decifrador dos ardis da política, FHC se refugia na cautela dos sociólogos, mas faz sobrevoos sobre o Brasil num tom provocante, mesmo quando não deseja metaforizar uma república sul-americana bem distante - tempo e espaço - das tramas violentas de César Bórgia.

- É difícil dizer uma coisa que ninguém tenha dito sobre Maquiavel. Aliás, uma das características das obras clássicas é que todo mundo fala sobre elas, o que gera muito desacordo... Não é só com Maquiavel que acontece isso. Leio toda hora coisas a meu respeito que eu nunca pensei.

A princípio, recupera a história italiana, as circunstâncias da escrita de "O príncipe", que foi dedicado ao neto de Lourenço de Médici, o Magnífico.

- Ele (Anthony Grafton, autor da introdução) mostra que é uma obra que revela uma mudança de momento na história da Itália... A Itália levou o tempo inteiro se organizando e até hoje não conseguiu se organizar... - Pausa para os risos. - Não podemos falar, nós temos também nossos pecadilhos!

No prefácio do livro, FHC se aprofunda nas origens do maquiavelismo: "Como seus antecessores intelectuais, (Maquiavel) partiu do que é inerente ao ser humano. Não viu na natureza humana, entretanto, a vocação para o exercício do bem, senão que notou impulsos com motivações egoísticas. O interesse próprio, a ambição, a inveja, a vontade de domínio, motivam a ação dos homens...".

Dando apenas um gole d'água no parlatório, o conferencista complementa a originalidade do pensador italiano:

- Cada cidade da Itália tinha um sistema de governo diferente. Maquiavel viu tudo isso. O que ele talvez não tenha percebido é o fato de que as cidades italianas estavam desenvolvendo o capitalismo... Maquiavel não estava interessado em olhar a economia, mas estava interessado em como se exerce e mantém o poder. Aí ele inovou.

O ex-chanceler Machiavelli, acrescenta FHC, "rompe com os cânones de encarar a política". E prossegue: "Muita gente diz que ele entendeu o Estado, o que é um exagero. Mas a forma de governar, sim." Liberto dos fundamentos históricos, inicialmente jorrados nos alunos, o ex-presidente flutua em terreno mais amistoso: a inveja, a cobiça, o poder sem "maior transcendência do ponto de vista moral". Como esperado, ele salta alguns séculos e espelhos.

- Maquiavel mostra que quem exerce o poder quer mantê-lo - Leve interrupção. - Não é o caso meu, nem do Lula!

Por trás das palavras, inevitáveis paralelos entre Lula e FHC na exposição do ex-presidente sobre a virtù, o controle dos acontecimentos, e a fortuna.

- O homem de governo tem que se manter no poder. A sorte, a fortuna, que pode ser negativa, a má fortuna... Mas, se além da fortuna ele tem virtù, pode encarar a má fortuna... A pior situação na sociedade é a inexistência de poder.

A bondade.

- Ele não vai aconselhar o príncipe a ser mau, mas em circunstâncias excepcionais o dever do príncipe é não ser bom. O dever é manter-se no poder. Manda matar.

Os dois andares.

- Maquiavel sempre percebeu uma oposição entre quem manda e quem obedece, o príncipe e o povo... Mas esse povo não aparece com a virtù necessária para a mudança.

FHC cita Max Weber e Antonio Gramsci como pensadores que retomaram as ideias de Maquiavel, principalmente a respeito das diferenças entre a moral comum e a do príncipe. Tudo são memórias, e o ex-presidente se refere a "decisões agônicas":

- Às vezes, é necessário dissimular. Vou dar um exemplo pessoal. Um exemplo de todo presidente... O jornalista chega e pergunta: "Presidente, vai haver desvalorização do câmbio amanhã?". Você tem que dizer: "Não, o que é isso!". Aí, amanhã, você desvaloriza. Você tem que mentir, se não quebra o País.

A minutos do fim, sentencia:

- Maquiavel não foi maquiavélico. Não era de enganar, nem de se auto-enganar.

Na descida do palco, um sussurro para Luiz Schwarcz.

- Essa escadinha aqui é à prova de velhice.

Lygia Fagundes Telles o beija. A meio caminho, Eduardo Gianetti, coordenador do programa econômico de Marina Silva (PV) e autor de "Auto-engano", o cumprimenta:

- Parabéns pela palestra. Magnífica, como sempre!

FHC, o Magnífico, retribui:

- Generoso.

- Não, magnífica!

- Sempre que posso falo bem da Marina - avisa.

- Ah, presidente, ela é uma força oxigenadora da política, sem entrar em valorações morais... - ironiza Gianetti.

- Hoje não pode! Proibido por Maquiavel.

Dois engravatados reprovam a cena:

- Puxa-saquice...

"Ah, vocês!", diz FHC a três jornalistas. Agora é política, Serra e Lula sem a desculpa de Maquiavel. Ou nem tanto. Ataca o adversário petista:

- Maquiavel não justifica qualquer dissimulação.

Questionado sobre a ausência na campanha de José Serra (PSDB), FHC se desvia com elegância do que todos sabem se tratar de rejeição: "Não tenho energia". Terra Magazine pergunta como Lula está conduzindo as eleições em 2010.

- Não vou dizer como ele tem conduzido. Mas não fiz como ele faz. Ao se transformar em militante, está abusando, passa dos limites - critica. - O limite é a lei. A toda hora o presidente está sendo multado.

E o desafio de Lula, de que vai ensiná-lo a ser ex-presidente?

- Tô louco pra aprender. Ele disse que o ex-presidente não deve falar nada, só elogiar. Os ex-presidentes, a não ser o Itamar, só falam bem dele.

A jornalista Mona Dorf se aproxima com a filmadora.

- O senhor disse que a maior virtude do político é manter-se no poder...

FHC abre os caninos, num sorriso reprobatório de professor:

- Eu, não. Maquiavel! Não sou maquiavélico!

Outra vez sério, deixa o teatro com anotações sobre "O príncipe".

Docente da Unicamp é incluída em dicionário de cientistas sociais eminentes

A professora Maria da Glória Gohn, da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, teve sua autobiografia selecionada e incluída no Dictionary of Eminent Social Scientists: Autobiographies (DESSA) pela Fundação Mattei Dogan, da França. O Dessa é uma nova iniciativa da fundação, que já atribui uma série de prêmios em várias áreas do conhecimento, incluindo aquele que é indicado a cada quatro anos pela ISA –Associação Internacional de Sociologia (ISA). A docente da Unicamp explica que o Dessa foi criado recentemente visando à formação de um acervo on line de pesquisadores e referências temáticas para outros pesquisadores.
“Trata-se de uma forma moderna que utiliza os meios tecnológicos para divulgar informação e conhecimento. O Dicionário é organizado por áreas de conhecimento e há um comitê internacional de scholars em diversas disciplinas que faz as indicações e seleciona os nomes. Feito o convite, o pesquisador envia sua autobiografia para análise e inclusão no Dicionário, que estará permanentemente acessível e crescendo com novas listas e atualizações”.

Maria da Glória Gohn considera uma honra estar ao lado de grandes personagens das ciências sociais contemporânea, como François Dubet (Université de Bordeaux), Immanuel Wallerstein (Columbia University), Goran Therborn (Uppsala University), Sidney Tarrow (Cornell University), Neil Smelser (University of California), Piotr Sztompka (University of Krakow) e tantos outros. “A seleção para o Dessa representa uma dignidade acadêmica. É o reconhecimento internacional de uma trajetória de vida e trabalho”.

A professora também não esconde certo orgulho por ser a única brasileira incluída na lista que está no site http://www.fondation matteidogan.org/, na área de sociologia. “Certamente, isso é apenas por hora, já que se trata de uma lista inicial e o Brasil produz conhecimento de alto nível nas ciências sociais – para ficar somente no meu campo. Sinto-me feliz, também, por poder divulgar, neste fórum amplo e legitimado, uma temática à qual me dedico faz mais de 30 anos, que é o estudo dos movimentos sociais, com suas lutas pela cidadania, justiça e inclusão social, especialmente no Brasil”.

Comunicação Social
Unicamp

Faca de 3,4 milhões de anos

A mais antiga evidência do uso de ferramentas de pedra por hominídeos foi descoberta na Etiópia, na forma de dois ossos de ungulados (animais com casco). Também é a mais remota prova de consumo de carne por um ancestral do homem moderno. A descoberta leva o uso de pedras como ferramentas a cerca de 3,4 milhões de anos atrás, ou mais de 800 mil anos antes do mais antigo exemplo de que se tinha notícia até agora. O estudo, publicado na edição desta quinta-feira (12/8) da revista Nature, foi feito por Shannon McPherron, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, na Alemanha, e colegas de diversos países.
Os pesquisadores encontraram na região de Gona, no país africano, uma costela de um animal do tamanho de um boi e o fêmur de um pequeno antílope que tinha tamanho semelhante ao das atuais cabras. Os ossos estão marcados com cortes que sugerem o uso de ferramentas para a remoção da carne e do tutano dos ossos.

Segundo o estudo, os ossos podem ter sido manipulados por indivíduos da espécie extinta Australopithecus afarensis, à qual pertence a célebre Lucy, descoberta em 1974 também na Etiópia.

archeo-34-3As marcas encontradas, de acordo com os pesquisadores, não deixam dúvidas sobre o que significam. Os sinais deixados demonstram o uso de pedra como ferramenta para retirar a carne e quebrar ossos para a extração do tutano.

“Essa descoberta muda dramaticamente o período que conhecemos de um comportamento decisivo de nossos ancestrais. O uso de ferramentas alterou a maneira como eles interagiram com a natureza, permitindo que consumissem novos tipos de alimentos e que explorassem novos territórios”, disse Zeresenay Alemseged, do Departamento de Antropologia da Academia de Ciências da Califórnia, um dos autores principais do estudo.

“Esse uso também levou à própria fabricação de ferramentas, um passo crítico no nosso caminho evolucionário que eventualmente deu origem a todas as tecnologias atuais, do avião ao telefone celular”, disse.
Segundo Alemseged, ao estender o uso de utensílios para auxiliar na alimentação em quase 1 milhão de anos, a descoberta deverá levar a uma revisão dos conhecimento sobre a evolução humana.

Até então, a mais antiga evidência de tal uso que se tinha notícia eram ossos com marcas de corte de 2,6 milhões de anos, encontrados na região de Bouri, também na Etiópia.

Os ossos encontrados agora forem escavados a apenas 200 metros de onde Alemseged e equipe encontraram o fóssil denominado Selam, ou “filho de Lucy”, em 2000. Selam, um exemplar de fêmea jovem de Australopithecus afarensis que viveu há cerca de 3,3 bilhões de anos, representa até hoje o mais completo esqueleto de um ancestral humano já descoberto.

“Após uma década estudando os vestígios de Selam e buscando novas pistas sobre sua vida, agora podemos adicionar um detalhe novo e significativo na sua história. À luz dessa descoberta, é muito provável que Selam carregasse pedras e ajudasse membros de sua família a desossar animais”, disse Alemseged.

O cientista destaca que, embora o uso de pedra como ferramenta seja inquestionável, não é possível saber se as marcas foram feitas com pedras pontiagudas encontradas pelos Australopithecus afarensis ou se elas foram quebradas com essa finalidade.

O artigo Evidence for stone-tool-assisted consumption of animal tissues before 3.39 million years ago at Dikika, Ethiopia (doi:10.1038/nature09248), de Zeresenay Alemseged e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.

João Pedro Stedile: Quinze anos sem Florestan

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Rio - Há 15 anos, em 10 de agosto de 1995, morria Florestan Fernandes, uma referência no desenvolvimento metodológico e científico da Sociologia. Paulista, nascido em 1920, filho de migrantes portugueses, o sociólogo deixou mais de 50 obras, foi deputado federal constituinte, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, e professor rigoroso.

De origem humilde, fez de tudo na vida, trabalhando, ajudando na sobrevivência da família, até romper as barreiras elitistas da Universidade de São Paulo (USP) e tornar-se seu aluno, professor e mais tarde um mestre de referência.

Sempre manteve a coerência ideológica e compromisso com a classe trabalhadora. Punido pela ditadura, amargou o exílio. Voltou e seguiu a luta em defesa da classe.

É sem duvida o mais importante intelectual orgânico brasileiro do Século XX. Através dos clássicos, estudou com profundidade as classes sociais no Brasil. Defendeu com coragem a necessidade da verdadeira revolução social, para construir uma sociedade justa e igualitária.

O povo brasileiro, a classe trabalhadora, os movimentos sociais e os intelectuais orgânicos, os que desejam mudanças, ficamos de luto. Mas, seu legado nos anima a continuar a luta.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se orgulha de ser um dos seus seguidores e ter aprendido com suas teorias e exemplos. Temos uma escola que o homenageia, a Escola Nacional Florestan Fernandes.

Florestan defendeu a importância da educação, da formação da consciência de classe, do acesso aos conhecimentos, como necessidade da classe trabalhadora para se libertar da humilhação, discriminação, opressão e da exploração dos ricos. E segue vivo, por sua obra e exemplo de vida coerente.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Gambá de Pinhel, de Aveiro, é tema de palestra

O Instituto de Artes do Pará (IAP) dá prosseguimento ao projeto Saber da Fonte, que leva ao público pesquisas acadêmicas sobre o universo cultural da Amazônia. Depois de uma parada em julho, o projeto retorna com o professor e pesquisador Florêncio Almeida Vaz, Doutor em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia, que falará sobre o “Gambá de Pinhel”, do município de Aveiro. A palestra começa às 18h30, no auditório do IAP (Nazaré, ao lado da Basílica), com entrada franca.

O Gambá de Aveiro é celebrado todos os anos na Comunidade de Pinhel, às margens do Rio Tapajós, no Oeste do Pará. Remanescentes das etnias indígenas Maytapu e Cara-Preta, os habitantes de Pinhel sofreram influências africanas e europeias.

Segundo o pesquisador, a festa, de origem indígena, é uma homenagem a São Benedito, celebrada com ladainha em latim. “As festas do calendário católico, incluindo aquelas dedicadas aos santos, eram as únicas permitidas pelos missionários. Também eram as ocasiões onde os indígenas podiam dançar, comer e beber, mais ou menos do jeito tradicional, ainda que fossem obrigados a rezar em latim”, completa.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Criciumense lança livro polêmico sobre a fé

Criciúma - O autor do livro mais polêmico sobre a fé, Adair Fernandes Griloo, lançará seu novo livro Abstração: Trama e Urdição, sábado (6), a partir das 10h, na Fátima Bookstore.

Griloo justifica a polêmica da obra, que narra o conceito de “bem e mal”, com a forma pela qual os hebreus transmitiram o conhecimento tendencioso sobre a divindade, oriunda dos povos árabes do Oriente para o Ocidente e a revelação divina diretamente a Adão e Eva.

Em 265 páginas estão resumidos trinta anos de pesquisa sobre diversos temas como mitos, ciência, religião, cristianismo, ateísmo, entre outros. “Em tempos remotos a humanidade inventou a divindade para explicar os supostos mistérios naturais e emocionais. Hoje, não mais devemos nos esconder atrás de fantasmas, supostamente capazes de ditar ética e moral divinos sobre realidades absolutamente terrenas e humanas”, explica.

Griloo trata a fé como uma afronta à inteligência humana. “A fé não une, confronta as pessoas. Evoluímos como sistema intelectual, criando e desenvolvendo tecnologia de ponta, mas continuamos matando, mentindo, roubando, trapaceando como há milênios. Não há modelo humano adequado que podemos seguir. A divindade subtraiu essa possibilidade”.

Sobre o autor

Formado em Ciências Humanas, Adair Fernandes Griloo morou nos Estados Unidos e na Europa. Estudioso das áreas de antropologia e sociologia em 2006 lançou o livro “Cartas a Mr. Tresmil” em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
Este segundo escolheu lançar na sua cidade natal. “Mesmo vivendo por vários anos fora do Brasil tenho um afeto pela cidade em que nasci”.

Lógica favorável

Carlos Melo - O Estado de S.Paulo

Pingo é letra. Há um ano, avesso ao fla-flu da política brasileira, o bom entendedor já dizia que a candidatura do Planalto adquiria condições de competitividade favoráveis. A variável de mais difícil previsão era a economia, mas, ultrapassada a crise, o governo pôde colher o que plantara com acuidade. Agora, as pesquisas confirmam a lógica: Dilma Rousseff consolida candidatura e, no momento, oferece sólidas condições de vitória. A seu favor, somam-se resultados, otimismo, bandeiras populares, medos e promessas, fartos recursos, um time unificado, máquina, capilaridade territorial, social e tempo de TV, além de prestigiadíssimo padrinho.

Explicam o "fenômeno" fatores classificados como "responsáveis" e "culpados". Por "responsáveis", as circunstâncias forjadas na ação do governo, méritos do jogador e seu time que impulsionam e tendem a impulsionar a ministra. Por "culpados", a sucessão de desacertos, erros e desatinos no campo da oposição. Como tudo, em política não há "sorte", mas escolhas acertadas (ou não) na dinâmica dos fatos, na vertigem da roda da fortuna.

Forçoso admitir que o saldo das escolhas do presidente Lula parece ser suficiente para conservação e manutenção do poder conquistado em 2002. Ao compreender o movimento do mundo, o papel das finanças, a trajetória econômica que o País percorria e as poucas opções de que dispunha, preferiu não reinventar a roda: deu continuidade, reforçou fundamentos e adquiriu a imprescindível credibilidade.

Abaixou a poeira, garroteou seu partido, asfixiou a esquerda, contemporizou, cooptou, dividiu, distribuiu renda, formou mercados, incluiu multidões ao mesmo tempo em que viabilizava conglomerados, fusões e aquisições. Alterou a face social e a composição do poder econômico; constituiu um novo "bloco no poder"; apareceu para o mundo. Mesmo sem resolver outras questões básicas, implementou fuga para frente. Transgrediu, decepcionou a alguns? Provavelmente. Mas deu certo.

Na ambiguidade que, acima de tudo, o caracteriza, Lula contemplou "os debaixo" com políticas públicas e efeitos da estabilidade; apaziguou os "de cima", respeitando contratos, garantindo regras, mantendo Meirelles. Não contrariou, conciliou. No plano parlamentar, juntou joio e trigo; no administrativo, gregos e troianos; na economia, ortodoxos e heterodoxos. Sob qual outro presidente o Banco Central de Meirelles conviveria com a equipe de Guido Mantega?

Chega ao último ano de mandato com ousadia para fazer de uma gestora tecnicamente qualificada e politicamente disciplinada - sem raízes históricas no PT, experiência eleitoral e luz própria - a candidata cuja missão consiste em dar continuidade ao governo, administrando um projeto de poder com a lealdade dos militantes, sem a presunção das prima-donas e a aleivosia natural das estrelas do partido, com deferência ao líder, a quem se refere como "o presidente", às vezes "o mestre".

Em política, nada é fortuito. A façanha não se sustenta somente pelo carisma que hoje é atribuído ao ex-metalúrgico; bom lembrar que, no passado, o "cara" perdeu três eleições, duas no primeiro turno. Antes, o carisma presente é consequência dos resultados que entregou. No mais, é importante também admitir o bocado da oposição na consolidação do nome da ministra. Eis a categoria dos culpados.

Ranços, piadas e e-mails recheados de preconceito ocupam a atenção de parte da classe média tucana. De nada servem. A verdade é que, sistematicamente, a oposição e sua base recusaram-se a decifrar Lula, que, como a esfinge, os devora. Acostumou-se a subestimar Luiz Inácio, talvez, em virtude das vitórias de FHC, talvez por soberba. O fato é que não se acreditou que, presidente, pudesse se converter ao ideário de Pedro Malan, tão racional quanto inescapável. Dizia-se que manietado seria por Dirceu e companheiros. Sonharam com um governo reduzido ao inferno da inflação e aos protestos de rua. Iludidos com o mensalão, apresentaram, na reeleição, candidato incapaz sequer de defender o celular que, após as privatizações, o cidadão, alegre, traz no bolso. Em 2006, foram jantados e não admitiram.

Com o sucesso de José Serra em 2004, 2006 e 2008, ungiram-no candidato natural. Acreditando em predestinação, notórias divergências tucanas foram ignoradas. Mas incríveis são as dificuldades de Serra se fazer opção do PSDB: em 2002, a briga com Tasso; em 2006, a disputa com Alckmin; agora, queda de braço com Aécio. No desespero de correligionários e aliados, mesmo antes de virar candidato corre o risco da cristianização.

Especialista em wishful thinking, o PSDB exercita sua propensão a acreditar que as coisas serão do modo como deseja: ora afiança que "na campanha, Dilma será um desastre", ora que "o PT não a deixará governar"; ora que "um escândalo mudará a cena", ora que "Lula não transferirá votos", ora que Aécio aparecerá para salvar a lavoura. Ora, ora, ora... Foge-se do essencial: não é Dilma que enfrentarão, o adversário é Lula e toda sua fortaleza. O presidente não será rei posto, posto que está bem vivo. Dilma é seu lugar-tenente.

Melhor seria trabalhar, formular crítica substantiva, programática; de modo inteligível, qualificar "o futuro" e o que afinal se entende por "continuidade sem continuísmo", "lulismo sem Lula", "pós-Lula"; propor a reforma de um sistema deletério; definir a estratégia e o líder capaz de efetivá-la. Sem isso, o resto é silêncio entremeado por muxoxos.

Claro, nada está definido. A vida é volátil e as certezas traiçoeiras. O fato novo é hipótese sempre plausível. Também verdade é que a variável sob maior expectativa será o desempenho pessoal da candidata. Realmente, a ministra não é exemplo de carisma e simpatia televisiva. Mas, ainda que testado e experiente, o mesmo se pode dizer de José Serra. Nesse quesito, os times terão que suar bastante.

Cientista político, doutor pela PUC-SP, professor de Sociologia e Política do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). É autor de Collor: o Ator e suas Circunstâncias


Notas Introdutórias aos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844

Por Clodoaldo Almeida da Paixão

Os manuscritos econômico-filosóficos foram escritos quando Marx tinha apenas 26 anos de idade, embora já Doutor em Filosofia. Nele se encontra, por assim dizer, um esboço teórico da critica à Economia Política que só posteriormente, no Capital, considerada a sua obra de maior profundidade teórico-metodológica, se verificará “completamente” desenvolvida.

Um aspecto fundamental e que deve ser bastante acentuado nessa obra inconclusa de 1844 é a importância epistemológica operada pelo autor, qual seja, a de já nesse momento fundir no processo de análise dos problemas teóricos, Filosofia e Economia ou, como se queira, Economia Política e Filosofia. E, nesse sentido, embora bastante evidenciado a influência que recebera dos grandes expoentes de cada esfera do conhecimento, de um lado, da Economia Política, por Smith e Ricardo, e, do outro, pela Filosofia de Feuerbach e Hegel, diferencia-se desses de forma crítica e transcende-os teoricamente.

Assim é com relação à noção de alienação descoberta por Feuerbach, para quem coloca – no lugar do Espírito/Ideia hegeliano – o homem sensível, real. Embora contribua criticamente assinalando o caráter concreto da dimensão humana, percebe-o, no entanto, como coisa natural. Aqui reside, já, a crítica operada por Marx, ao destacar o caráter histórico da natureza-essência humana, observando que também o sensível é obra humana. Trata-se, portanto, para Marx, já nesse momento de sua trajetória intelectual, de perceber e explicar a sociedade historicamente e a partir das relações sociais estabelecidas concretamente.

Ao contrário de Hegel, para quem a alienação estaria no plano da consciência, ou seja, na Ideia que os homens fazem da realidade. Sendo assim, trata-se, na perspectiva de Hegel, de defini-lo no plano das ideias ou da consciência como se queira. A alienação, assim, seria um estado meramente da consciência. Para Marx, no entanto, essa é apenas uma das formas da alienação. Ou melhor, embora metodologicamente Hegel avance em relação a Feuerbach, no sentido que não considera-a como um processo natural, mas histórico, o mesmo (Hegel) só consegue alcançar um aspecto do problema.

Nesse sentido, a perspectiva teórico-metodológica operada por Marx consegue dar conta do problema na sua totalidade, uma vez que pensa-compreende a alienação como sendo ao mesmo tempo subjetiva e objetiva, ou, dito de outra forma, como sendo um produto simultaneamente da consciência e de uma situação objetiva, concreta. Para Marx, o que há de concreto não é, como pensa alguns ditos marxistas, uma inversão da realidade que apareceria – enquanto reflexo – de forma invertida na consciência do sujeito. O que ocorre de fato é uma correspondência no plano da consciência do indivíduo do que ocorre efetivamente na realidade objetiva, para distinguir da noção de realidade subjetiva ou abstrata.

A chave do problema para Marx, no entanto, está em demonstrar o que determina a alienação humana. Essa seria, portanto, a tarefa sine qua non, da Teoria. E é esse esforço teórico que foi empreendido pelo autor nos manuscritos econômico-filosóficos. Nesse sentido, o que faz com que no processo de produção-criação-transformação o produto do trabalho humano apareça como sendo produto não de si mesmo, mas do outro, é, para Marx, a propriedade. Sendo essa a descoberta fundamental para a compreensão e explicação desse fenômeno social, ou seja, a forma pela qual o homem se realiza ou afirma a sua superioridade ou liberdade – o trabalho – é a mesma pela qual se torna inferior ou escravo.

Isso é o que faz com que o criador não reconheça a criatura que ele mesmo criou como sendo a sua criação ou, o que dar no mesmo, isso é o que faz com que a criatura (produto do criador) se torne acima do criador e voltando-se contra esse.

A noção de trabalho, descoberta pela Economia Política foi fundamental, embora submetida a uma profunda crítica, pois embora entendida enquanto a essência da atividade humana, a mesma representava-a como natural. Desnaturalizar a compreensão e explicação da realidade, essa parece ser, a tarefa teórica imediata de Marx.

Como se chegou até a noção de valor e não se deu maiores passos? Embora trabalhando ainda nesse momento com a noção de “propriedade do trabalho ou trabalho como mercadoria”, percebe-o, desde cedo, que a alienação é determinada pela força de trabalho tornada propriedade de outro.

Aqui residiria, no entanto, a possibilidade de uma crítica teórica – no sentido marxista (superação do problema) – a explicação de Marx, sobretudo a partir do seguinte problema: é possível o trabalho humano (no capitalismo) sem que haja a alienação? A alienação estaria na apropriação da quantidade do trabalho ou produto do trabalho ou na objetivação do trabalho humano? Essa seria, ao nosso modo de ver, a grande contribuição que poderia ser dada, hoje, a Teoria da Alienação.

Há apenas 32 anos mais tarde (1876, mas publicado em 1896 - sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem) o maior parceiro acadêmico de Marx - Friedrich Engels, diria sem temor a erro que “o trabalho é a fonte de toda riqueza (...), com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que Isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem (..)”. Análise, aliás, bastante oportuna frente ao debate teórico-ideológico contemporâneo que propugna pelo fim da sociedade do trabalho.

*Clodoaldo Almeida da Paixão é professor-Assistente do DCHF/Uefs, Mestre em Sociologia (Ufpb) e Doutorando em Família na Sociedade Contemporânea (Ucsal).

Mercado de trabalho ainda é desfavorável para as mulheres

Elas trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens

A segunda década do século 21 começa para as mulheres como terminou o século passado. Elas trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, no mercado formal, as mulheres de todos os níveis de escolaridade ganham menos do que os homens com o mesmo grau de formação.

Entre os analfabetos, a renda média mensal em 31 de dezembro de 2008 era de R$ 614,80 para os homens, enquanto para as mulheres trabalhadoras ficava em R$ 506,95.

Esse fenômeno se verifica entre os trabalhadores com formação em nível superior. A média salarial para esse grau de instrução, à época, era de R$ 3.461,82. No caso dos homens, essa renda subiria para R$ 4.623,98. Se o assalariado fosse mulher, o salário seria de R$ 2.656,47.

Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existe no mercado de trabalho uma espécie de “segregação ocupacional” na qual as mulheres estão em posições de menor prestígio, formalização e proteção social.

A socióloga Eva Blay, ex-senadora (PSDB-SP) e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP), assinala que as mulheres estão subindo lentamente na hierarquia dos postos do mercado de trabalho. Ela aponta que as relações de trabalho ainda são marcadas pelo machismo. “O mercado resiste em contratar uma mulher por medo de que ela não consiga se impor aos demais trabalhadores homens.”

Segundo a acadêmica, ainda pesa contra as mulheres preconceitos como a falsa ideia de que elas faltam mais ao serviço do que os homens.

Além do trabalho fora de casa, as mulheres precisam se dedicar a atividades não remuneradas, como os afazeres domésticos. Segundo dados do IBGE referentes a 2007, as mulheres de 10 anos de idade ou mais se dedicavam 22,3 horas semanais aos afazeres domésticos contra 5,2 horas dos homens.

“Estamos muito longe de ter uma cultura em que marido e mulher cooperem com esses afazeres”, lamenta Neuma Aguiar, professora de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“A gente é invisibilizada. Parece que lavar e consertar roupa, preparar comida ou cuidar da pessoa doente estão descoladas da produção da riqueza, mas não estão”, critica Fátima Lucena, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“Participamos da produção da riqueza, mas na hora da distribuição perdemos muito mais do que os homens”, lamenta. Fátima Lucena, no entanto, faz uma autocrítica: “A mulher não é somente vítima, mas também construtora das relações sociais”.

A socióloga Marlise Matos, chefe do Departamento de Sociologia da UFMG, concorda. “Homens e mulheres são socializados em uma cultura tradicional, conservadora, patriarcal, machista. Esse é o caldo cultural que não é privilégio dos homens. Há um ciclo de retroalimentações do qual as mulheres têm responsabilidade porque não quebram”, avalia.

Brasil terá a eleição mais feminina da história em 2010

Partidos serão obrigados a preencher 30% das candidaturas às mulheres

As eleições gerais deste ano deverão ser marcadas pela maior participação das mulheres nos resultados. Isso porque o Brasil tem mais eleitoras do que eleitores, é provável que haja maior número de candidatas do que nas últimas eleições e a disputa ao cargo de presidente da República tende a ter entre os principais candidatos duas mulheres com grande visibilidade nacional.

Desde o início deste século, as mulheres se tornaram maioria no eleitorado. No pleito municipal de 2008 havia quase 5 milhões de eleitoras a mais do que eleitores, um percentual de quase 4% em favor das mulheres, proporção que pode ser decisiva em disputas acirradas. A maior participação das mulheres tem sido observada desde as eleições parlamentares de 1974, ainda à época do regime militar, quando também se verificou o aumento da participação feminina no mercado de trabalho.

Essas dinâmicas, no entanto, não favoreceram a eleição de mais mulheres. Se elas hoje são maioria no eleitorado, estão sub-representadas em todos os cargos eletivos. O Brasil tem apenas três governadoras, dez senadoras, 45 deputadas federais, 106 deputadas estaduais, 505 prefeitas e 6.512 vereadoras. O país ocupa o 142º lugar em representação feminina, segundo a Inter-Parliamentary Union, atrás dos países desenvolvidos, de quase todos os latino-americanos e de outras nações de língua portuguesa como Angola e Moçambique.

O quadro de baixa representação poderá, no entanto, começar a ser alterado a partir de outubro com uma ligeira mudança na legislação eleitoral. A partir de agora, os partidos são obrigados a "preencher" e não apenas a "reservar" 30% das candidaturas para as mulheres.

— Mudar a semântica pode fazer toda a diferença — prevê Marlise Matos, chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A professora espera que a obrigação legal mude a cultura partidária.

— As lideranças partidárias costumavam dizer que não conseguiam completar as cotas porque as mulheres não têm ambição política — conta — Nossas pesquisas comprovam que é um argumento completamente falacioso. As mulheres participam politicamente, elas são filiadas em maior número a partidos políticos do que os homens e estão nas bases dos movimentos sociais — assinala a acadêmica.

O aumento do número de candidatas pode levar à eleição de mais mulheres, espera o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para ele, o aumento de candidatas e de eleitas vai "refletir o emponderamento das mulheres".

Além de mais candidaturas para todos os cargos em disputa, as eleições de 2010 chamam a atenção pela provável presença de duas mulheres entre os principais candidatos à Presidência da República.

Na avaliação de analistas, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) forçarão a discussão em torno de assuntos que mobilizem mais as mulheres.

— Com duas candidatas, duas mulheres notórias, certamente a questão de gênero estará mais presente no debate eleitoral, prevê Neuma Aguiar, professora de sociologia da UFMG.

— Os candidatos vão ter que tocar nessa questão de gênero e como vão ser formuladas as políticas para que haja melhoria na vida das mulheres — acrescenta.

Para Antônio Lavareda, que preside uma empresa de consultoria especializada em marketing político, as mulheres tendem a ter um comportamento eleitoral pragmático.

— São eleitoras mais focadas em temas concretos e menos afetadas por temas de cunho político e ideológico. Elas dão mais atenção a assuntos como educação, saúde das crianças, segurança pública, preço dos alimentos e custo de vida porque estão às voltas com o abastecimento de bens e serviços de sua casa — analisa.

Segundo Lavareda, as mulheres têm mais facilidade para mudar a intenção de voto durante a campanha eleitoral ou esperar mais tempo para tomar a decisão.

— Parece que as mulheres votam com mais cuidado, observando e avaliando mais e decidindo seu voto mais tardiamente — compara.

Segundo pesquisa de opinião do Instituto Datafolha, de 24 e 25 de fevereiro, o percentual de homens indecisos quanto às candidaturas à Presidência da República é de 15%, enquanto entre as mulheres é de 23%.
AGÊNCIA BRASIL

Desigualdade ainda pesa contra mulheres

08/03/2010 - 15:40 - Canal Executivo
A segunda década do século 21 começa para as mulheres como terminou o século passado. Elas trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, no mercado formal, as mulheres de todos os níveis de escolaridade ganham menos do que os homens com o mesmo grau de formação.

Entre os analfabetos, a renda média mensal em 31 de dezembro de 2008 era de R$ 614,80 para os homens, enquanto para as mulheres trabalhadoras ficava em R$ 506,95.

Esse fenômeno se verifica entre os trabalhadores com formação em nível superior. A média salarial para esse grau de instrução, à época, era de R$ 3.461,82. No caso dos homens, essa renda subiria para R$ 4.623,98. Se o assalariado fosse mulher, o salário seria de R$ 2.656,47.

Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existe no mercado de trabalho uma espécie de “segregação ocupacional” na qual as mulheres estão em posições de menor prestígio, formalização e proteção social.

A socióloga Eva Blay, ex-senadora (PSDB-SP) e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP), assinala que as mulheres estão subindo lentamente na hierarquia dos postos do mercado de trabalho. Ela aponta que as relações de trabalho ainda são marcadas pelo machismo. “O mercado resiste em contratar uma mulher por medo de que ela não consiga se impor aos demais trabalhadores homens.”

Segundo a acadêmica, ainda pesa contra as mulheres preconceitos como a falsa ideia de que elas faltam mais ao serviço do que os homens.

Além do trabalho fora de casa, as mulheres precisam se dedicar a atividades não remuneradas, como os afazeres domésticos. Segundo dados do IBGE referentes a 2007, as mulheres de 10 anos de idade ou mais se dedicavam 22,3 horas semanais aos afazeres domésticos contra 5,2 horas dos homens.

“Estamos muito longe de ter uma cultura em que marido e mulher cooperem com esses afazeres”, lamenta Neuma Aguiar, professora de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“A gente é invisibilizada. Parece que lavar e consertar roupa, preparar comida ou cuidar da pessoa doente estão descoladas da produção da riqueza, mas não estão”, critica Fátima Lucena, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“Participamos da produção da riqueza, mas na hora da distribuição perdemos muito mais do que os homens”, lamenta. Fátima Lucena, no entanto, faz uma autocrítica: “A mulher não é somente vítima, mas também construtora das relações sociais”.

A socióloga Marlise Matos, chefe do Departamento de Sociologia da UFMG, concorda. “Homens e mulheres são socializados em uma cultura tradicional, conservadora, patriarcal, machista. Esse é o caldo cultural que não é privilégio dos homens. Há um ciclo de retroalimentações do qual as mulheres têm responsabilidade porque não quebram”, avalia.

Ciência, música e sociedade: relações mais intrínsecas do que imaginamos

Por Cristiane Paião

1960. Era dos grandes festivais da música popular brasileira, e de grandes acontecimentos históricos, que interferiram de diversas formas em todos os setores da sociedade. Uma década que definitivamente entrou para a história, de todas as formas possíveis e imagináveis. Na difícil tarefa de compreender períodos como esse e pensar a realidade que nos cerca, a música vem sendo percebida cada vez mais como um objeto importante de estudos, e nada melhor que o Brasil, celeiro de grandes sucessos e talentos conhecidos internacionalmente no cenário musical, para alavancar a produção científica na área. Afinal, momentos marcantes em que essa relação intrínseca entre a música e a sociedade estejam evidenciadas não faltam!

Como parte de todo um sistema de códigos e práticas que regem a cultura e as sociedades, a música vem despertando o interesse das mais distintas áreas do conhecimento, tanto no campo das ciências humanas e sociais quanto no campo das já tradicionais ciências da música, como a musicologia e a etnomusicologia. A partir dos anos 1970, estudos nas áreas de sociologia, antropologia, história, teoria literária e teorias da comunicação têm se debruçado cada vez mais sobre o tema.

Para entender a música e os diferentes gêneros musicais, é preciso entender a sociedade na qual ela está inserida, assim como para entender uma sociedade, é preciso, entre outros fatores, entender a “música” que nela se insere. Em Mozart: sociologia de um gênio, o sociólogo alemão Norbert Elias nos mostra que, para uma biografia ou análise de uma obra ter sentido, é preciso ter conhecimento dos processos sociais e das estruturas de poder em que elas se inserem; é preciso reconstruir o universo social em que se enraíza esse objeto de estudo, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma análise da inflexão do simbólico na vida social. Isso porque os fatores que influenciam a produção musical e o gosto de seu tempo são os mais diversos possíveis, e estão sempre interligados, passam por questões culturais, políticas, econômicas, sociais, e até por fatores científicos e tecnológicos – como se pode ver na leitura desta edição da ComCiência sobre a relação entre ciência e música.

Para José Geraldo Vinci, historiador da Universidade de São Paulo (USP), por ser uma dimensão da cultura humana, a música está completamente assentada na sociedade da qual faz parte. “A música revela e constroi a sociedade da qual participa, e é, ao mesmo tempo, construída por ela. A música faz parte do universo humano, da cultura humana, e obviamente influencia os modos de vida e as relações sociais dos que estão a sua volta; e a sociedade, por outro lado, está construindo a música a todo momento, reconstruindo e repensando. Essas relações são como uma via de mão dupla, não dá para separar uma coisa da outra”, afirma.

Segundo Vinci, a música foi – e ainda é – no Brasil uma forma de expressão escolhida pela sociedade para se comunicar de maneira geral, e também para protestar. Isso está relacionado com o processo de formação da sociedade brasileira e seu histórico de exclusões. “A música aqui está muito entranhada na nossa mentalidade, no nosso universo cultural e relações sociais. A música tem papel fundamental para nós e a vivemos cotidianamente com muito ânimo e energia”, observa. Ele lembra que sempre foi pequena a parcela da população com acesso à cultura escrita e à leitura de jornais e revistas, especialmente até o início do século XX, o que torna a música um mecanismo fundamental e diversificado de mobilização e comunicação social. “Isso significa que ela pode apresentar temáticas que passam por questões como amor, até as questões políticas e de protestos sociais”, continua. Para Vinci, o universo musical no Brasil está extremamente entranhado na sociedade brasileira e se apresenta de maneira dispersa, diversificada e pluralizada. Além disso, “historicamente ela se tornou um fator de identidade nacional bastante importante. As pessoas se identificam com ela, a gente se vê nela e se imagina, com ela, participando de uma mesma comunidade e tem orgulho dela (da comunidade e da música). Assim, a música serve para nos entendermos e nos caracterizar como sociedade, e também para que o outro – as outras sociedades – nos veja desse modo singular”, completa.

De acordo com Rita de Cássia Lahoz Morelli, antropóloga da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), há uma percepção cada vez mais aguda do poder de mobilização que envolve a música, e da sua capacidade de “linkar” dimensões da cultura e da sociedade, por um lado; e por outro, de “linkar-nos” uns aos outros em totalidades raras e importantes para nossa sobrevivência como seres afetivos, criadores de cultura e atuantes na sociedade. “Eu gosto de uma afirmação do Anthony Seeger (antropólogo e etnomusicólogo americano) segundo a qual a gente procura estudar a sociedade e a cultura por meio do estudo da música porque há algumas coisas que não se pode conhecer a não ser por meio dela”, diz Morelli.

É o caso, por exemplo, dos momentos em que a música pode influenciar ou refletir as transformações sociais de um país, como a música que é produzida para agradar ao público de um determinado contexto histórico e social, por um lado; e, por outro, a música que chega para “mudar um paradigma”, para causar algum tipo de mudança no que já existe, e tempos depois, acaba se tornando aquela do gosto do tempo e do meio, se torna “clássica”, e até chega a ser consumo de massa.

Na década de 1960, época dos grandes festivais da música popular brasileira, surgiram no mundo todo projetos culturais e ideológicos alternativos – os movimentos pela busca de direitos civis, como o feminismo, os movimentos em favor dos negros e dos homossexuais, e os movimentos indutores de mudanças de comportamento, como os hippies,por exemplo; o mundo vivia a Guerra Fria, que dividiu o planeta em dois polos distintos: capitalistas e socialistas; é a época da revolução cubana,Fidel Castro ao poder, e dos golpes militares que assolaram a América Latina com os regimes ditatoriais. Talvez por isso, essa década tenha ficado tão conhecida como um dos grandes momentos da história, em que o idealismo e o entusiasmo pelo espírito de luta do povo ficaram mais evidentes, nas mais distintas formas de expressão promovidas pela arte, afinal, o mundo todo estava fervilhando e, como não podia deixar de ser, um cenário como esses só poderia provocar grandes inspirações no cenário cultural!

No Brasil, marcado pelo golpe militar de 1964, surgem os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos, e é nesse cenário que os festivais da MPB se destacam, através das metáforas presentes nas letras musicais, como uma forma alternativa de expressão político-ideológica da juventude naquele momento diante da repressão da ditadura militar. Os festivais foram um gênero de programa televisivo apresentados entre 1965 e 1985 por várias emissoras de televisão brasileiras (Excelsior, Record, TV Rio, Tupi e Rede Globo), em que intérpretes e compositores da música popular brasileira, como Elis Regina, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Elza Soares, Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso, por exemplo, competiam em batalhas musicais ovacionadas pelo público, que além acompanhar tudo pela TV, lotava os teatros durante as apresentações realizadas em grandes noites de gala.

Além de envolver uma grande polêmica com a canção Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, com a qual disputava o primeiro lugar do festival – e para a qual perdeu no voto do juri oficial – a canção Pra não dizer que não das falei de flores, de Geraldo Vandré – a favorita do juri popular –, virou hino da resistência à ditadura e serviu como uma das motivações para os militares decretarem o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que impunha o recesso do Congresso, das Assembleias Legislativas e Câmara dos Vereadores, e suspendia os direitos políticos por até 10 anos e o habeas corpus nos casos de crime político contra a segurança nacional. Depois de ficar em segundo lugar naquele Festival Internacional da Canção de 1968, a música de Vandré teve sua execução proibida durante anos pela ditadura militar brasileira.

Mas o festival daquele ano também ficou famoso por uma outra polêmica: na noite da final, em 28 de setembro de 1968, Caetano Veloso foi quase que literalmente espinafrado pelo público no palco do Tuca, Teatro da Universidade Católica de São Paulo. O episódio – que fez Caetano reagir a uma chuva de ovos e tomates com um dos mais contundentes discursos da história recente do país – faz parte de um dos mais interessantes capítulos da música popular brasileira. Pouco tempo depois, as inovações na música representadas pelo tropicalismo liderado por Caetano e Gilberto Gil cairiam no gosto popular e, anos mais tarde, as canções do movimento, como Alegria alegria e Domingo no parque, se tornariam clássicos da MPB.

“Eu não sei se a música provoca transformação, mas eu acho que ela expressa uma experiência subjetiva que, num determinado momento, pode ser compartilhada, e por isso o sucesso dela”, explica Morelli, ao falar sobre a relação entre a música e o contexto político e social da época, objeto de estudo de sua pesquisa atual. “A cultura é um fluxo, não é algo parado no tempo. Cada um lê o mundo de uma maneira diferente, experimenta de uma forma diferente, e tudo isso vai sendo expresso de uma forma diferente pelos artistas, que, de certa forma, vão tendo um papel de difusão dessas mudanças que eles vão experimentando. E as pessoas, que estavam sentindo, mas que ainda não tinham como se expressar, se identificam com elas. Acho que é por isso que vira clássico, porque responde a uma demanda coletiva”, acrescenta.

Para saber mais:

Liderado por Vinci, o grupo de pesquisa Entre a memória e a história da música possui uma página eletrônica na internet em que disponibiliza um balanço de parte dessa produção universitária (www.memoriadamusica.com.br). Por meio de um banco de dados que mapeia e quantifica essa nova produção historiográfica realizada exclusivamente nos diversos programas de história, é possível ter acesso a artigos, dissertações de mestrado e teses de doutorado, e publicações como revistas e periódicos da área.