Publicação de um inédito, reedições de clássicos e simpósios no Brasil e em Portugal colocam em debate a produção de Gilberto Freyre, apontado como seguidor de teses antissemitas e racistas
Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo
Grande homenageado da oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa dia 4 de agosto, o sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) volta ao papel de incendiário das ciências sociais não só pelas discussões que vai provocar na cidade fluminense como no exterior - Portugal sedia em março de 2011 um colóquio com especialistas internacionais em sua obra (entre eles o historiador inglês Peter Burke). Além disso, estão programados o lançamento de um livro inédito (De Menino a Homem, segunda parte de suas memórias, pronto para sair pela Global) e o retorno às livrarias de títulos há muito fora de circulação, destacando-se o projeto da editora É Realizações, que no ano passado publicou dois volumes do mestre de Apipucos, Sociologia (Introdução ao Estudo dos Seus Princípios) e Sociologia da Medicina. A nova editora coloca agora mais sete títulos no pacote que será lançado na época da Flip, entre eles O Mundo Que o Português Criou, resultado de uma série de conferências feitas em 1937 no King"s College (Universidade de Londres) e em três universidades portuguesas.
Como Freyre é sinônimo de polêmica, parece inevitável que um dos títulos lançados aborde um tema incômodo como o de Tempos de Casa-Grande (Editora Perspectiva), tese de doutorado da historiadora alagoana Silvia Cortez Silva. Nele, a professora, residente no Recife, acusa o escritor de racista e antissemita, definindo-o como criador do maior mito da sociologia brasileira, o da democracia racial. Segundo ela, trata-se, antes de tudo, de "um mito político, que oferecia uma solução para o problema racial" evidenciado nos anos 1930 com as catastróficas teses eugênicas que pipocavam na época. Freyre, defende a professora, prometia à posteridade "uma modernidade bem atenuada, produto de uma mestiçagem eugênica", um mito do futuro de "nítido contorno soreliano" segundo ela.
Por "soreliano" entenda-se a referência ao marxista francês Georges Eugène Sorel (1847-1922), teórico do sindicalismo que acreditava no mito como força capaz de levar pessoas a agir em prol do triunfo de uma causa - no caso, o mito da democracia racial, "embasado numa linguagem envolvente, mas falaciosa", de acordo com a autora da tese, que esperou 15 anos para ver seu trabalho publicado, prefaciado por Arnaldo Bloch. Até mesmo o primeiro prefaciador, um nome que ela mantém em segredo, desistiu no meio do caminho, temendo represálias dos freyrianos defensores do mestre em Pernambuco. A espera compensou, avalia a historiadora. Nesse intervalo, um exame de DNA de familiares de Gilberto Freyre, conduzido pelo cientista mineiro Sergio Danilo Pena, teria revelado que o sociólogo descendia de judeus sefarditas portugueses que migraram para o Brasil.
Arnaldo Bloch, irônico, diz que foi uma sorte terem os antepassados de Freyre escapado das fogueiras dos autos de fé, mas morreriam de vergonha se vissem o retrato do judeu pintado pelo descendente: "técnico da usura", "ave de rapina" e "parasita" são alguns dos termos empregados na terminologia antissemita relacionada pela professora Silvia - e que ocupa duas páginas de seu livro.
Nelas, três obras aparecem com mais frequência entre as que abusam dessas expressões depreciativas contra os judeus: Tempo de Aprendiz (1921), Casa-Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936). Um ano depois da publicação do último, as críticas são amenizadas e substituídas por outro discurso. Em O Mundo Que o Português Criou, Freyre ressalta os judeus "de alta expressão intelectual" que regressaram à Europa ou migraram para outros países do continente americano quando os católicos portugueses reconquistaram o Nordeste, citando nominalmente alguns que ajudaram a desenvolver no plano intelectual aquela região, que só conhecia, quando muito, a cultura do açúcar.
O editor da É Realizações destaca o livro entre os muitos que pretende publicar sobre Freyre ainda este ano. Ex-ator e diretor de teatro, aluno do polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) e do italiano Eugenio Barba, o agora editor Edson Manoel de Oliveira Filho, como cristão novo descendente de portugueses, prefere ficar longe da polêmica do antissemitismo de Freyre, concentrando seus esforços nos títulos que tratam das relações entre brasileiros e portugueses. Assim, além de O Mundo Que o Português Criou, vai publicar Aventura e Rotina, Um Brasileiro em Terras Portuguesas, O Luso e o Trópico e Uma Cultura Ameaçada e Outros Ensaios. E, como o sociólogo era um homem com crítica visão das artes e pioneiro na engenharia social, mais dois títulos foram escolhidos pelo editor: Vida, Forma e Cor e Homens, Engenharias e Rumos Sociais. Detalhe: todos os livros publicados sem lei de incentivo fiscal. Edson Manoel é o que convencionalmente se chama de mecenas. "Encaro o projeto Gilberto Freyre como uma missão, pois não faz sentido um livro fundamental como Sociologia estar há 37 anos fora de catálogo", justifica o editor.
Cuidado. Freyre seduziu igualmente a historiadora e professora Maria Lúcia Pallares-Burke, casada com o também historiador Peter Burke. Autora de Um Vitoriano nos Trópicos (2005), estudo sobre a formação do sociólogo, ela lançou no ano passado o livro Repensando os Trópicos (Unesp), retrato intelectual do autor de Casa-Grande & Senzala escrito em parceria com o marido. Da Inglaterra, a professora, que organizou as mesas de debates sobre Freyre na Flip - que terão, entre outras estrelas, Fernando Henrique Cardoso e o escritor Moacyr Scliar -, falou ao Sabático sobre a obra do sociólogo, comentando as acusações de antissemitismo que pesam sobre ele.
"É preciso ler Gilberto Freyre com cuidado", recomenda, lembrando que a linguagem de Casa-Grande & Senzala é condicionada por expressões da época que assumem diferente dimensão quando retiradas de seu contexto. "Nunca fiz um estudo aprofundado sobre seu suposto antissemitismo, mas lembro que ele destaca o papel dos judeus de uma forma positiva na formação do Brasil." Já sobre os portugueses, ela nota que seu discurso muda como mudou sua posição francamente racista ao se reinventar e fazer o elogio da mestiçagem em Casa-Grande & Senzala, de 1933. "É chocante como, ao voltar dos EUA, ele elogia o grande líder da Ku Klux Klan e defende a supremacia branca nos anos 1920, para, em 1933, falar da missão civilizadora do negro no Brasil, o que indica uma revisão de seus preconceitos."
Não é o que pensa a historiadora Silvia Cortez Silva: "A senzala de Freyre é idealizada." Ela identifica em outra obra além de Casa-Grande & Senzala uma "visão de mundo excludente" que em tudo contraria a sua "democracia racial": em O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros (leia abaixo texto sobre o livro), Freyre teria tecido, com a ajuda da eugenia, uma cortina que "veladamente, encobriria nosso passado". A acomodação entre a casa-grande e a senzala não passaria, segundo ela, de um fruto dos "devaneios freyrianos". O que a historiografia registra, argumenta, foi uma acomodação "na base do chicote, sevícias e o olhar vigilante do dominador sobre o outro, sua propriedade, seu objeto". Se Freyre defendeu o processo de miscigenação, por outro lado se revelou um antissemita, acusa, especialmente de 1921 a 1936. E - por que não? - também depois. A professora lembra que, durante sua vida, inúmeros prefácios foram escritos ou reescritos por Freyre para Casa Grande & Senzala e que o sociólogo "jamais registrou" - nem em uma nota sequer - mudança de opinião sobre os judeus.
O problema antropológico e sociológico da mestiçagem, por ser uma questão transnacional, ocupa, porém, mais páginas na obra-prima de Freyre justamente pelo interesse do sociólogo em nosso passado comum de luso-descendentes, uma vez que, como ele mesmo argumenta em O Mundo Que o Português Criou, a atração do Brasil sobre os judeus da Europa durou "até que outras partes da América lhes pareceram mais hospitaleiras ou mais liberais, mais atraentes para os seus capitais e para a sua atividade de intermediários".
"Freyre também fez críticas ofensivas aos portugueses, lembrando que muitos escravos negros, dependendo de sua origem, estavam bem acima da média do colonizador, o que é um discurso revolucionário para a sua época, uma mudança de padrão para o pensamento historiográfico, não só brasileiro como estrangeiro", conclui a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, dizendo que Freyre foi também pioneiro ao falar de ecologia e hibridismo cultural antes dessas palavras entrarem na moda.
VISÃO GLOBAL
Amigo e estudioso de Gilberto Freyre, o pernambucano Edson Nery da Fonseca - que debaterá na Flip o talento literário do sociólogo - diz que Silvia Cortez Silva tira frases do contexto para defender a tese de antissemitismo. Após citar trecho de Casa-Grande & Senzala no qual Freyre tanto chama os judeus de "técnicos da usura" quanto destaca a "superioridade de sua cultura intelectual e científica", Nery conclui: "Ele não era anticoisa nenhuma, só buscava ver o mundo de maneira global."
terça-feira, 3 de agosto de 2010
As narrativas da globalização
Novas geografias sociais estão abrindo espaços inéditos de contestação pelos quais navegam as flotilhas da liberdade
Muitas análises contornam o fenômeno da globalização. Especialistas enveredam pelo mundo tecnológico, outros preferem a expansão do capitalismo, outros, a aceleração dos fluxos financeiros, outros optam por focalizar as desigualdades. A americana Saskia Sassen, professora de sociologia da Columbia University e da London School of Economics, está em todas essas frentes e ainda consegue ter uma abordagem original. Investiga a globalização a partir das novas geografias - social, urbana, humana. Nesta terça-feira às 17h30, Saskia fará uma única palestra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, em São Paulo, absolutamente dentro do seu campo de estudos. Será um momento raro para a comunidade acadêmica e para o público interessado em ouvi-la falar, uma vez mais, sobre as tensões e contradições das global cities, termo que inaugurou há muitos anos, e ainda sobre os dilemas da sociedade civil, tão desnorteada, mas tão cheia de possibilidades.
Saskia conversou sobre esses temas com o caderno Aliás, por e-mail, na semana passada. Foi um feito. Estava em Londres, de repente viajou para a China, regressou aos Estados Unidos via Chicago e logo viria para o Brasil. Entre um embarque e outro, a professora expôs sua visão sobre vários desafios contemporâneos, ao mesmo tempo que opinou sobre a crise deflagrada com o ataque a uma flotilha humanitária que se dirigia para Gaza, até ser interceptada por forças militares israelenses. Acha que os ativistas atingiram seu objetivo - chamar a atenção mundial para uma causa. O que não significa que a situação vá mudar. Casada com o historiador americano Richard Sennett, também professor da London School e autor do já clássico O Declínio do Homem Público (Companhia das Letras, 1988), Saskia Sassen lançou (fora do Brasil) inúmeros títulos, como Metropolis e Formações Digitais, e ainda Sociologia da Globalização, agora traduzido para o português e publicado pela editora gaúcha Artmed. A seguir, trechos de uma conversa feita em várias partes.
Espaços de contestação
"Tenho me dedicado ao tema da sociedade civil, suas dinâmicas e formas de expressão, considerando ser esse um dos capítulos mais fascinantes dos estudos sobre globalização. Eu me interesso particularmente pelas novas geografias sociais que configuram nosso tempo, dentro das quais nos deparamos com inéditos espaços de contestação. A Flotilha da Liberdade é algo assim. Mesmo semeando tensões, logrou chamar a atenção mundial para uma determinada causa, o repúdio ao bloqueio de Israel a Gaza, reanimando o debate internacional. Como espaço de contestação que é, esse movimento consegue ser efetivo, utilizando relativamente parcos recursos. É um pouco como age o Greenpeace em suas operações. Mas resolve? Não. Porque do debate para a implementação de mudanças vai um tempo longo. Implementar significa lidar com processos bem mais complexos.
Ações difusas e confusas
"Organizações da sociedade civil, nem todas, mas muitas, querem atuar no plano global, sem utilizar sua capacidade para tanto. Porque não sabem lidar com um mundo também feito de globalizações laterais, umas conectadas às outras. Portanto, existe um potencial não realizado nessas organizações, e em seus projetos, justamente quando tantas frentes de batalha se abrem por aí. Essa sensação de estar conectado e, ao mesmo tempo, se sentir perdido no mundo de hoje é um dos dilemas da globalização. E não afeta apenas essas organizações. Tomemos como exemplo o mundo financeiro: temos tantos especialistas preparados e cientes das transformações globais e ainda assim uma leve quebradeira bancária os pegou de surpresa, recentemente. Lacuna curiosa, não? Nós nos sentimos perdidos, a bordo de altíssimos níveis de conhecimento. Tanto se pergunta sobre como lidar com o mal-estar da globalização. Ele é parte do processo. Diz respeito a um mundo em que o cidadão se torna cada vez mais espectador passivo e, muitas vezes, uma vítima ou mero consumidor de artigos prontos - desde a comida até as opções bancárias. Em meus textos mais políticos, digo que nos tornamos consumidores de cidadania e de democracia, em vez de criadores de cidadania e de democracia, como já fomos antes.
Não é só Gaza...
"Um segundo tema, parte do meu novo projeto de pesquisa, diz respeito ao número cada vez maior das ‘lógicas da expulsão’ operando na fase atual e emergente do capitalismo avançado. Essa fase é marcada pelo aumento no número de pessoas que foram ‘expulsas’ de alguma forma, de algum lugar, de alguma situação, em número que supera de longe as recém-incorporadas classes médias de países como Índia e China. Emprego o termo ‘expulsão’ para me referir a uma gama de situações: o número cada vez maior de pobres no mundo; os desabrigados que lotam campos de refugiados formais e informais; as minorias populacionais armazenadas em prisões; trabalhadores cujos corpos são destruídos ou inutilizados em idade muito precoce; populações excedentes, porém capazes, confinadas em guetos e favelas; e por aí vai.
São muitas as ‘lógicas da expulsão’, incluindo a transferência de áreas que antes faziam parte do chamado ‘território nacional soberano’, para a finalidade básica de venda no mercado global. Desde 2006, cerca de 30 milhões de hectares de terra foram comprados e licenciados por governos e investidores para o cultivo de alimentos direcionados aos países ricos e para garantir o controle de recursos naturais, tais como fontes de água, jazidas de minérios, etc. Enquanto isso, a cota mundial de desabrigados aumentou em 17 milhões, atingindo um total de 27 milhões.
Os jovens e o futuro
"Eis uma boa questão. De acordo com a explicação de meu marido, Richard Sennett, antigas narrativas de vida e trabalho já não funcionam para um número cada vez maior de pessoas. Eis o espaço subjetivo no qual residem os jovens de hoje. Antigas narrativas já não lhes cabem. Estou certa de que, para muitos, é algo animador. Até porque muitos não desejam aquela estabilidade de vida que seus pais perseguiram. Mas, para a imensa maioria dos jovens nascidos em famílias pobres e vulneráveis, essa falta de narrativas pertinentes constitui uma zona de perigo.
Miopia dos governantes
"Nossos líderes estão ‘presos’ no espaço nacional. Só pensam e agem nos limites do espaço nacional, enquanto lei, jurisdição, autoridade e base de operações. E disso não escapam nem os Estados Unidos, cujo poder é projetado globalmente. De repente, lá se vai mais um pelotão de fuzileiros para o front, mas, no fundo, no fundo, isso tem a ver em como reagir a insatisfações internas com o presidente. Insisto em dizer que os nossos governantes não sabem como lidar com cross-border processes, ou seja, processos da globalização que cruzam fronteiras e assim se configuram. Nossos governantes querem que o capital cruze fronteiras.
Que setores de mão de obra também o façam. Mas não querem os terroristas, os traficantes, os imigrantes pobres, porém não sabem lidar com fluxos indesejados, precisam aprender. Não há outro jeito. Até mesmo os governos mais poderosos terão que começar a trabalhar com governos sem tanto poder. E não só para caçar terrorista. Governos nacionais, é verdade, tornaram-se bem mais internacionais desde os anos 80, ao longo do desenvolvimento de uma economia global corporativa e do mercado de capitais. É pena que não estejam aprendendo a ser mais internacionalistas também em relação ao meio ambiente, à fome global, à injustiça global... Em meu livro Território, Autoridade, Direitos, sem tradução para o português, afirmo que essa nova capacidade para o internacionalismo poderia ser empregada em projetos bem mais interessantes, desde que haja renovação nas classes governantes.
Cosmopolitismo dispensável
"Existem múltiplas globalizações. A econômica, a corporativa, a financeira, a tecnológica. Nota-se nisso tudo certa tendência de desumanização da nossa vida e da nossa subjetividade. Mas outras globalizações também estão em curso, como a da sociedade civil, da defesa dos direitos humanos, das lutas pela preservação do meio ambiente, e essas nos humanizam de maneira profunda. Temos aí os sinais da emergência de um humanismo desnacionalizado, para o qual não é necessário sequer tornar-se um indivíduo cosmopolita. Basta ser humano e acreditar em certas causas. Digo que nem é preciso ser cosmopolita no sentido de que é possível estar envolvido, de forma local, com a denúncia ao torturador da prisão mais próxima ou com a fábrica que polui a água de seu bairro, e ao mesmo tempo totalmente consciente de que ao redor do mundo há outros como você.
Cidades globais
"São espaços complexos, carregados de contradições. Temos pelo menos 70 delas no planeta, cidades em que o poder corporativo se consolidou de forma espantosa, criando geografias da centralidade que hoje conectam lugares e pessoas, cruzando a histórica divisão entre Norte e Sul. Explico: as elites corporativas de São Paulo estão completamente integradas à geografia global do poder que inclui Nova York, Londres, Dubai. E há Pequim, Xangai, cidades que estão mudando a geografia do poder. Ao mesmo tempo, outras minorias, os vulneráveis, os desabrigados, os discriminados, enfim, os deslocados vão justamente encontrar espaço para seus projetos de vida, resistência e exigências aonde? Nas global cities. Devemos estudá-las. Precisamos entender como aqueles que são expulsos do interior, ou de suas pequenas cidades, encontram exatamente na cidade global o único lugar que ainda lhes resta para viver. Ainda que dormindo nas ruas.
Laura Greenhalgh
Muitas análises contornam o fenômeno da globalização. Especialistas enveredam pelo mundo tecnológico, outros preferem a expansão do capitalismo, outros, a aceleração dos fluxos financeiros, outros optam por focalizar as desigualdades. A americana Saskia Sassen, professora de sociologia da Columbia University e da London School of Economics, está em todas essas frentes e ainda consegue ter uma abordagem original. Investiga a globalização a partir das novas geografias - social, urbana, humana. Nesta terça-feira às 17h30, Saskia fará uma única palestra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, em São Paulo, absolutamente dentro do seu campo de estudos. Será um momento raro para a comunidade acadêmica e para o público interessado em ouvi-la falar, uma vez mais, sobre as tensões e contradições das global cities, termo que inaugurou há muitos anos, e ainda sobre os dilemas da sociedade civil, tão desnorteada, mas tão cheia de possibilidades.
Saskia conversou sobre esses temas com o caderno Aliás, por e-mail, na semana passada. Foi um feito. Estava em Londres, de repente viajou para a China, regressou aos Estados Unidos via Chicago e logo viria para o Brasil. Entre um embarque e outro, a professora expôs sua visão sobre vários desafios contemporâneos, ao mesmo tempo que opinou sobre a crise deflagrada com o ataque a uma flotilha humanitária que se dirigia para Gaza, até ser interceptada por forças militares israelenses. Acha que os ativistas atingiram seu objetivo - chamar a atenção mundial para uma causa. O que não significa que a situação vá mudar. Casada com o historiador americano Richard Sennett, também professor da London School e autor do já clássico O Declínio do Homem Público (Companhia das Letras, 1988), Saskia Sassen lançou (fora do Brasil) inúmeros títulos, como Metropolis e Formações Digitais, e ainda Sociologia da Globalização, agora traduzido para o português e publicado pela editora gaúcha Artmed. A seguir, trechos de uma conversa feita em várias partes.
Espaços de contestação
"Tenho me dedicado ao tema da sociedade civil, suas dinâmicas e formas de expressão, considerando ser esse um dos capítulos mais fascinantes dos estudos sobre globalização. Eu me interesso particularmente pelas novas geografias sociais que configuram nosso tempo, dentro das quais nos deparamos com inéditos espaços de contestação. A Flotilha da Liberdade é algo assim. Mesmo semeando tensões, logrou chamar a atenção mundial para uma determinada causa, o repúdio ao bloqueio de Israel a Gaza, reanimando o debate internacional. Como espaço de contestação que é, esse movimento consegue ser efetivo, utilizando relativamente parcos recursos. É um pouco como age o Greenpeace em suas operações. Mas resolve? Não. Porque do debate para a implementação de mudanças vai um tempo longo. Implementar significa lidar com processos bem mais complexos.
Ações difusas e confusas
"Organizações da sociedade civil, nem todas, mas muitas, querem atuar no plano global, sem utilizar sua capacidade para tanto. Porque não sabem lidar com um mundo também feito de globalizações laterais, umas conectadas às outras. Portanto, existe um potencial não realizado nessas organizações, e em seus projetos, justamente quando tantas frentes de batalha se abrem por aí. Essa sensação de estar conectado e, ao mesmo tempo, se sentir perdido no mundo de hoje é um dos dilemas da globalização. E não afeta apenas essas organizações. Tomemos como exemplo o mundo financeiro: temos tantos especialistas preparados e cientes das transformações globais e ainda assim uma leve quebradeira bancária os pegou de surpresa, recentemente. Lacuna curiosa, não? Nós nos sentimos perdidos, a bordo de altíssimos níveis de conhecimento. Tanto se pergunta sobre como lidar com o mal-estar da globalização. Ele é parte do processo. Diz respeito a um mundo em que o cidadão se torna cada vez mais espectador passivo e, muitas vezes, uma vítima ou mero consumidor de artigos prontos - desde a comida até as opções bancárias. Em meus textos mais políticos, digo que nos tornamos consumidores de cidadania e de democracia, em vez de criadores de cidadania e de democracia, como já fomos antes.
Não é só Gaza...
"Um segundo tema, parte do meu novo projeto de pesquisa, diz respeito ao número cada vez maior das ‘lógicas da expulsão’ operando na fase atual e emergente do capitalismo avançado. Essa fase é marcada pelo aumento no número de pessoas que foram ‘expulsas’ de alguma forma, de algum lugar, de alguma situação, em número que supera de longe as recém-incorporadas classes médias de países como Índia e China. Emprego o termo ‘expulsão’ para me referir a uma gama de situações: o número cada vez maior de pobres no mundo; os desabrigados que lotam campos de refugiados formais e informais; as minorias populacionais armazenadas em prisões; trabalhadores cujos corpos são destruídos ou inutilizados em idade muito precoce; populações excedentes, porém capazes, confinadas em guetos e favelas; e por aí vai.
São muitas as ‘lógicas da expulsão’, incluindo a transferência de áreas que antes faziam parte do chamado ‘território nacional soberano’, para a finalidade básica de venda no mercado global. Desde 2006, cerca de 30 milhões de hectares de terra foram comprados e licenciados por governos e investidores para o cultivo de alimentos direcionados aos países ricos e para garantir o controle de recursos naturais, tais como fontes de água, jazidas de minérios, etc. Enquanto isso, a cota mundial de desabrigados aumentou em 17 milhões, atingindo um total de 27 milhões.
Os jovens e o futuro
"Eis uma boa questão. De acordo com a explicação de meu marido, Richard Sennett, antigas narrativas de vida e trabalho já não funcionam para um número cada vez maior de pessoas. Eis o espaço subjetivo no qual residem os jovens de hoje. Antigas narrativas já não lhes cabem. Estou certa de que, para muitos, é algo animador. Até porque muitos não desejam aquela estabilidade de vida que seus pais perseguiram. Mas, para a imensa maioria dos jovens nascidos em famílias pobres e vulneráveis, essa falta de narrativas pertinentes constitui uma zona de perigo.
Miopia dos governantes
"Nossos líderes estão ‘presos’ no espaço nacional. Só pensam e agem nos limites do espaço nacional, enquanto lei, jurisdição, autoridade e base de operações. E disso não escapam nem os Estados Unidos, cujo poder é projetado globalmente. De repente, lá se vai mais um pelotão de fuzileiros para o front, mas, no fundo, no fundo, isso tem a ver em como reagir a insatisfações internas com o presidente. Insisto em dizer que os nossos governantes não sabem como lidar com cross-border processes, ou seja, processos da globalização que cruzam fronteiras e assim se configuram. Nossos governantes querem que o capital cruze fronteiras.
Que setores de mão de obra também o façam. Mas não querem os terroristas, os traficantes, os imigrantes pobres, porém não sabem lidar com fluxos indesejados, precisam aprender. Não há outro jeito. Até mesmo os governos mais poderosos terão que começar a trabalhar com governos sem tanto poder. E não só para caçar terrorista. Governos nacionais, é verdade, tornaram-se bem mais internacionais desde os anos 80, ao longo do desenvolvimento de uma economia global corporativa e do mercado de capitais. É pena que não estejam aprendendo a ser mais internacionalistas também em relação ao meio ambiente, à fome global, à injustiça global... Em meu livro Território, Autoridade, Direitos, sem tradução para o português, afirmo que essa nova capacidade para o internacionalismo poderia ser empregada em projetos bem mais interessantes, desde que haja renovação nas classes governantes.
Cosmopolitismo dispensável
"Existem múltiplas globalizações. A econômica, a corporativa, a financeira, a tecnológica. Nota-se nisso tudo certa tendência de desumanização da nossa vida e da nossa subjetividade. Mas outras globalizações também estão em curso, como a da sociedade civil, da defesa dos direitos humanos, das lutas pela preservação do meio ambiente, e essas nos humanizam de maneira profunda. Temos aí os sinais da emergência de um humanismo desnacionalizado, para o qual não é necessário sequer tornar-se um indivíduo cosmopolita. Basta ser humano e acreditar em certas causas. Digo que nem é preciso ser cosmopolita no sentido de que é possível estar envolvido, de forma local, com a denúncia ao torturador da prisão mais próxima ou com a fábrica que polui a água de seu bairro, e ao mesmo tempo totalmente consciente de que ao redor do mundo há outros como você.
Cidades globais
"São espaços complexos, carregados de contradições. Temos pelo menos 70 delas no planeta, cidades em que o poder corporativo se consolidou de forma espantosa, criando geografias da centralidade que hoje conectam lugares e pessoas, cruzando a histórica divisão entre Norte e Sul. Explico: as elites corporativas de São Paulo estão completamente integradas à geografia global do poder que inclui Nova York, Londres, Dubai. E há Pequim, Xangai, cidades que estão mudando a geografia do poder. Ao mesmo tempo, outras minorias, os vulneráveis, os desabrigados, os discriminados, enfim, os deslocados vão justamente encontrar espaço para seus projetos de vida, resistência e exigências aonde? Nas global cities. Devemos estudá-las. Precisamos entender como aqueles que são expulsos do interior, ou de suas pequenas cidades, encontram exatamente na cidade global o único lugar que ainda lhes resta para viver. Ainda que dormindo nas ruas.
Laura Greenhalgh
O desafio da igualdade
Sociólogo francês vê, pouco a pouco, a educação europeia pautar-se pelo modelo americano da meritocracia. E acredita que esse caminho abre as portas da elite somente a pequenas parcelas das camadas mais baixas da população
Lúcia Müzell
François Dubet, um dos mais respeitados nomes da sociologia da educação nos dias atuais, não está nada satisfeito com o leque de desigualdades que se aprofundam cada vez mais na própria busca pela igualdade nos mais diversos aspectos da sociedade: na educação, no mercado de trabalho ou no acesso às elites. O sociólogo francês - que se tornou conhecido por seus trabalhos sobre a violência nas escolas, a massificação da educação e a meritocracia - tem centrado suas pesquisas na busca por alternativas a um modelo em que as oportunidades até se multiplicam, mas permanecem concentradas nas mãos dos mesmos grupos de privilegiados. A subida na pirâmide social encontra-se bloqueada - em algumas sociedades mais do que em outras -, consequência de uma série de percalços que se instalam desde muito cedo na vida dos cidadãos menos favorecidos.
O autor de obras como A sociologia da experiência (Instituto Piaget, Portugal), O que é uma escola justa? (Cortez Editora) e Desigualdades multiplicadas (Unijuí) lançou em fevereiro Les places et les chances, ainda sem tradução em português, em que questiona a migração do modelo europeu de igualdade de vagas - que busca diminuir as distâncias entre as posições sociais através de uma proteção social forte - para o modelo americano, forjado na oferta de oportunidades para todos e calcada no mérito, mas que não favorece a ascensão social, no ponto de vista do especialista. Na entrevista a seguir, concedida à repórter Lúcia Müzell, o professor da Universidade de
Bordeaux e diretor de pesquisas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França, apresenta seus argumentos e ainda analisa os pontos-chave da educação hoje em dia.
O senhor diz que o modelo americano de busca pela igualdade de oportunidades está se impondo pouco a pouco na Europa, onde sempre se deu preferência à igualdade de vagas. Por que isso acontece agora ?
Existem três grandes razões. A primeira é que os postos são relativamente raros em decorrência do desemprego endêmico. A luta pelo acesso a esses postos vem piorando, e a preocupação com a equidade da concorrência, se acentuando. A segunda razão é que o movimento dos trabalhadores não é mais tão central e há cada vez mais pessoas excluídas. Por fim, as sociedades europeias se tornaram multiculturais e descobrem a segregação, quando a economia não tem mais a mesma capacidade de absorver os migrantes.
O senhor ainda prefere o modelo de igualdade de vagas, apesar das críticas segundo as quais ele não conseguiu efetivamente reduzir as desigualdades sociais, seu maior objetivo?
Não acho que tenha fracassado, se consideramos o longo período de crescimento em que ele é adotado: mesmo assim, as desigualdades sociais se reduziram muito sensivelmente durante o século 20. Mas, há cerca de 30 anos, o Estado de Bem-Estar Social está em crise, os direitos adquiridos fecham a mobilidade social, a redistribuição de renda não é sempre justa. Dizem também que esse modelo não é favorável ao dinamismo das economias confrontadas à globalização. Em uma perspectiva mais ampla, o modelo da igualdade de vagas perdeu um pouco de sua hegemonia política.
O fato é que a esquerda, em praticamente todo o mundo, vive uma crise ideológica maior.
Alguns países, como o Brasil, precisam estabelecer cotas para que as camadas desfavorecidas possam cursar a universidade. Na sua opinião, esse é um meio eficaz para reduzir as desigualdades?
Não existem razões para se opor a essas políticas que aumentam o acesso à elite. Mas, ao mesmo tempo, não há razão para acreditar que, dessa forma, essa política reduz as desigualdades entre as posições sociais, porque muitos desfavorecidos continuarão não chegando à universidade, e se nada é feito para que a sua situação melhore, ela só vai se degradar. Foi isso que se pôde observar nos Estados Unidos, na comunidade negra, em que alguns segmentos chegaram à classe média graças às cotas, enquanto a situação dos outros só piora. O acesso dos mais pobres à elite não impede o aprofundamento das desigualdades. E, ainda por cima, é difícil imaginar os grupos mais favorecidos deixando espaço para os novos ocuparem. É preciso, então, que a redução das desigualdades sociais em si continue sendo um objetivo central.
Possuir um diploma não é mais uma garantia de emprego. Em última análise, a massificação da educação não ajudou a diminuir as desigualdades?
O valor de um diploma depende das relações entre os diplomas e o emprego, logo da raridade relativa de certos diplomas. Sendo assim, os diplomas tendem a se desvalorizar na medida em que o mercado de trabalho não os acompanha mais. De uma forma geral, o valor dos diplomas vai ao encontro das formações mais longas e seletivas, e são os grupos mais favorecidos que possuem um certo monopólio destas formações. A massificação escolar é uma coisa boa em termos de democratização absoluta de acesso às formações, mas o fosso entre as formações continua existindo. É preciso também destacar que nas condições de massificação escolar os jovens que não conseguem um diploma veem a sua situação piorar: é quase um sinal de incompetência social.
O senhor acredita que exista uma verdadeira vontade de ampliar o acesso aos estudos superiores, por parte das instituições?
Na França e na maioria dos países comparáveis a ela, certamente. Muitas grandes écoles e universidades fazem esforços reais, que ainda por cima são bons para a sua imagem. Mas esses esforços são naturalmente limitados pelo fato de que as instituições estão em concorrência umas com as outras e querem continuar no alto da hierarquia. Elas estão prontas a se abrir, mas não querem questionar as desigualdades entre as instituições em si. No final das contas, a democratização do acesso às elites não afeta as hierarquias escolares em si.
Pode-se pensar em aumentar as vagas nas instituições de ensino mais prestigiadas sem antes reformar a qualidade e a estrutura das escolas e colégios públicos?
A igualdade de vagas conduz, antes de tudo, a elevar os esforços no ensino elementar e médio para elevar o nível de base e o nível dos mais fracos. Talvez esta seja também a forma mais segura de se alargar uma elite. Mas esse esforço é muito mais difícil e muito menos popular do que alargar uma pequena elite oriunda do povo. Essa é uma escolha política fundamental, e muitos países ricos escolheram privilegiar o acesso à elite em vez de melhorar o nível de base. Eu sou obrigado a dizer que lamento essa escolha e não estou certo de que uma sociedade ganhe alguma coisa com isso em termos de coesão social, de democracia, de segurança, de saúde pública etc.
Até que ponto o senhor acha que o ambiente em que o estudante vive é decisivo no seu percurso escolar?
O ambiente social e familiar mais decisivo é justamente o da infância e da adolescência. É nesse período que se define o essencial do destino escolar dos alunos. E é por essa razão que, nessa fase dos estudos, deveria haver um esforço público redobrado para proporcionar certas necessidades mínimas de vida para o aluno. Quando, ainda por cima, às condições de vida difíceis se adiciona uma oferta escolar de má qualidade, há poucas chances para que se chegue a uma igualdade relativa. Em termos de igualdade social, a infância e a escola elementar deveriam ser uma prioridade zero.
Para que a educação seja de qualidade, a escola deve também se interessar pela vida pessoal dos estudantes? As escolas de hoje são muito impessoais?
Os estilos educativos variam profundamente entre os diferentes países. A França favorece mais o estilo impessoal. Não me parece que a escola deva se interessar demais pela vida pessoal dos alunos. Por outro lado, as pedagogias mais eficazes são aquelas que individualizam o trabalho dos alunos e que levam em conta o ritmo pessoal de cada um. Na universidade, também é normal que a organização dos estudos deva ser adaptada aos que precisam trabalhar para
poder sustentar seus estudos, especialmente os originários das classes menos favorecidas.
O ensino médio é um desafio na educação dos jovens em vários países do mundo. Como motivá-los a terminar essa etapa?
Parece-me que o perigo que mais ameaça as escolas no mundo inteiro é o abandono escolar. Muitos alunos pensam que a escola não é útil para conseguir um emprego. Eles pensam também que a cultura escolar é muito distante da experiência social deles, enquanto a imprensa parece responder a tudo. Enfim, quando eles fracassam, eles se tornam hostis à escola que os desqualificou. O declínio da motivação dos alunos que não estão certos de vencer nos estudos é um problema enorme e, para o corpo docente, uma dificuldade considerável. Em muitos casos, se precisaria redefinir o "contrato" entre a escola e a sociedade e, talvez, não esperar demais da escola, que não pode resolver todos os problemas sociais. É preciso também que os que não vencem nos estudos encontrem os meios de vencer em outros sistemas de formação menos escolares.
O senhor afirma que os alunos mais pobres percebem a escola como tensa e com uma certa carga de violência, enquanto os de famílias ricas a veem como estressante. Poderia explicar essas diferenças?
Os alunos desfavorecidos e que não apresentam um bom percurso escolar pensam que a escola lhes diz que eles não valem nada e, muito rapidamente, ou a abandonam, ou se tornam violentos contra essa escola que lhes anuncia a própria exclusão. Os bons alunos, frequentemente das classes favorecidas, sabem que não podem repetir de ano e que precisam ser os melhores se querem realizar os projetos que as suas famílias vislumbram para eles. Como resultado, tornam-se estressados. Em todos os casos, no entanto, quanto mais se instala o modelo da igualdade de oportunidades, mais a escola fica encarregada de distribuir os alunos na escala das desigualdades sociais, em nome do mérito dos indivíduos. Esse modelo é um pouco contestável, em princípio: ele faz da vida escolar uma vasta competição, mais ou menos igualitária, e pode-se temer que a escola perca, cada vez mais, o seu papel efetivamente educativo.
Lúcia Müzell
François Dubet, um dos mais respeitados nomes da sociologia da educação nos dias atuais, não está nada satisfeito com o leque de desigualdades que se aprofundam cada vez mais na própria busca pela igualdade nos mais diversos aspectos da sociedade: na educação, no mercado de trabalho ou no acesso às elites. O sociólogo francês - que se tornou conhecido por seus trabalhos sobre a violência nas escolas, a massificação da educação e a meritocracia - tem centrado suas pesquisas na busca por alternativas a um modelo em que as oportunidades até se multiplicam, mas permanecem concentradas nas mãos dos mesmos grupos de privilegiados. A subida na pirâmide social encontra-se bloqueada - em algumas sociedades mais do que em outras -, consequência de uma série de percalços que se instalam desde muito cedo na vida dos cidadãos menos favorecidos.
O autor de obras como A sociologia da experiência (Instituto Piaget, Portugal), O que é uma escola justa? (Cortez Editora) e Desigualdades multiplicadas (Unijuí) lançou em fevereiro Les places et les chances, ainda sem tradução em português, em que questiona a migração do modelo europeu de igualdade de vagas - que busca diminuir as distâncias entre as posições sociais através de uma proteção social forte - para o modelo americano, forjado na oferta de oportunidades para todos e calcada no mérito, mas que não favorece a ascensão social, no ponto de vista do especialista. Na entrevista a seguir, concedida à repórter Lúcia Müzell, o professor da Universidade de
Bordeaux e diretor de pesquisas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França, apresenta seus argumentos e ainda analisa os pontos-chave da educação hoje em dia.
O senhor diz que o modelo americano de busca pela igualdade de oportunidades está se impondo pouco a pouco na Europa, onde sempre se deu preferência à igualdade de vagas. Por que isso acontece agora ?
Existem três grandes razões. A primeira é que os postos são relativamente raros em decorrência do desemprego endêmico. A luta pelo acesso a esses postos vem piorando, e a preocupação com a equidade da concorrência, se acentuando. A segunda razão é que o movimento dos trabalhadores não é mais tão central e há cada vez mais pessoas excluídas. Por fim, as sociedades europeias se tornaram multiculturais e descobrem a segregação, quando a economia não tem mais a mesma capacidade de absorver os migrantes.
O senhor ainda prefere o modelo de igualdade de vagas, apesar das críticas segundo as quais ele não conseguiu efetivamente reduzir as desigualdades sociais, seu maior objetivo?
Não acho que tenha fracassado, se consideramos o longo período de crescimento em que ele é adotado: mesmo assim, as desigualdades sociais se reduziram muito sensivelmente durante o século 20. Mas, há cerca de 30 anos, o Estado de Bem-Estar Social está em crise, os direitos adquiridos fecham a mobilidade social, a redistribuição de renda não é sempre justa. Dizem também que esse modelo não é favorável ao dinamismo das economias confrontadas à globalização. Em uma perspectiva mais ampla, o modelo da igualdade de vagas perdeu um pouco de sua hegemonia política.
O fato é que a esquerda, em praticamente todo o mundo, vive uma crise ideológica maior.
Alguns países, como o Brasil, precisam estabelecer cotas para que as camadas desfavorecidas possam cursar a universidade. Na sua opinião, esse é um meio eficaz para reduzir as desigualdades?
Não existem razões para se opor a essas políticas que aumentam o acesso à elite. Mas, ao mesmo tempo, não há razão para acreditar que, dessa forma, essa política reduz as desigualdades entre as posições sociais, porque muitos desfavorecidos continuarão não chegando à universidade, e se nada é feito para que a sua situação melhore, ela só vai se degradar. Foi isso que se pôde observar nos Estados Unidos, na comunidade negra, em que alguns segmentos chegaram à classe média graças às cotas, enquanto a situação dos outros só piora. O acesso dos mais pobres à elite não impede o aprofundamento das desigualdades. E, ainda por cima, é difícil imaginar os grupos mais favorecidos deixando espaço para os novos ocuparem. É preciso, então, que a redução das desigualdades sociais em si continue sendo um objetivo central.
Possuir um diploma não é mais uma garantia de emprego. Em última análise, a massificação da educação não ajudou a diminuir as desigualdades?
O valor de um diploma depende das relações entre os diplomas e o emprego, logo da raridade relativa de certos diplomas. Sendo assim, os diplomas tendem a se desvalorizar na medida em que o mercado de trabalho não os acompanha mais. De uma forma geral, o valor dos diplomas vai ao encontro das formações mais longas e seletivas, e são os grupos mais favorecidos que possuem um certo monopólio destas formações. A massificação escolar é uma coisa boa em termos de democratização absoluta de acesso às formações, mas o fosso entre as formações continua existindo. É preciso também destacar que nas condições de massificação escolar os jovens que não conseguem um diploma veem a sua situação piorar: é quase um sinal de incompetência social.
O senhor acredita que exista uma verdadeira vontade de ampliar o acesso aos estudos superiores, por parte das instituições?
Na França e na maioria dos países comparáveis a ela, certamente. Muitas grandes écoles e universidades fazem esforços reais, que ainda por cima são bons para a sua imagem. Mas esses esforços são naturalmente limitados pelo fato de que as instituições estão em concorrência umas com as outras e querem continuar no alto da hierarquia. Elas estão prontas a se abrir, mas não querem questionar as desigualdades entre as instituições em si. No final das contas, a democratização do acesso às elites não afeta as hierarquias escolares em si.
Pode-se pensar em aumentar as vagas nas instituições de ensino mais prestigiadas sem antes reformar a qualidade e a estrutura das escolas e colégios públicos?
A igualdade de vagas conduz, antes de tudo, a elevar os esforços no ensino elementar e médio para elevar o nível de base e o nível dos mais fracos. Talvez esta seja também a forma mais segura de se alargar uma elite. Mas esse esforço é muito mais difícil e muito menos popular do que alargar uma pequena elite oriunda do povo. Essa é uma escolha política fundamental, e muitos países ricos escolheram privilegiar o acesso à elite em vez de melhorar o nível de base. Eu sou obrigado a dizer que lamento essa escolha e não estou certo de que uma sociedade ganhe alguma coisa com isso em termos de coesão social, de democracia, de segurança, de saúde pública etc.
Até que ponto o senhor acha que o ambiente em que o estudante vive é decisivo no seu percurso escolar?
O ambiente social e familiar mais decisivo é justamente o da infância e da adolescência. É nesse período que se define o essencial do destino escolar dos alunos. E é por essa razão que, nessa fase dos estudos, deveria haver um esforço público redobrado para proporcionar certas necessidades mínimas de vida para o aluno. Quando, ainda por cima, às condições de vida difíceis se adiciona uma oferta escolar de má qualidade, há poucas chances para que se chegue a uma igualdade relativa. Em termos de igualdade social, a infância e a escola elementar deveriam ser uma prioridade zero.
Para que a educação seja de qualidade, a escola deve também se interessar pela vida pessoal dos estudantes? As escolas de hoje são muito impessoais?
Os estilos educativos variam profundamente entre os diferentes países. A França favorece mais o estilo impessoal. Não me parece que a escola deva se interessar demais pela vida pessoal dos alunos. Por outro lado, as pedagogias mais eficazes são aquelas que individualizam o trabalho dos alunos e que levam em conta o ritmo pessoal de cada um. Na universidade, também é normal que a organização dos estudos deva ser adaptada aos que precisam trabalhar para
poder sustentar seus estudos, especialmente os originários das classes menos favorecidas.
O ensino médio é um desafio na educação dos jovens em vários países do mundo. Como motivá-los a terminar essa etapa?
Parece-me que o perigo que mais ameaça as escolas no mundo inteiro é o abandono escolar. Muitos alunos pensam que a escola não é útil para conseguir um emprego. Eles pensam também que a cultura escolar é muito distante da experiência social deles, enquanto a imprensa parece responder a tudo. Enfim, quando eles fracassam, eles se tornam hostis à escola que os desqualificou. O declínio da motivação dos alunos que não estão certos de vencer nos estudos é um problema enorme e, para o corpo docente, uma dificuldade considerável. Em muitos casos, se precisaria redefinir o "contrato" entre a escola e a sociedade e, talvez, não esperar demais da escola, que não pode resolver todos os problemas sociais. É preciso também que os que não vencem nos estudos encontrem os meios de vencer em outros sistemas de formação menos escolares.
O senhor afirma que os alunos mais pobres percebem a escola como tensa e com uma certa carga de violência, enquanto os de famílias ricas a veem como estressante. Poderia explicar essas diferenças?
Os alunos desfavorecidos e que não apresentam um bom percurso escolar pensam que a escola lhes diz que eles não valem nada e, muito rapidamente, ou a abandonam, ou se tornam violentos contra essa escola que lhes anuncia a própria exclusão. Os bons alunos, frequentemente das classes favorecidas, sabem que não podem repetir de ano e que precisam ser os melhores se querem realizar os projetos que as suas famílias vislumbram para eles. Como resultado, tornam-se estressados. Em todos os casos, no entanto, quanto mais se instala o modelo da igualdade de oportunidades, mais a escola fica encarregada de distribuir os alunos na escala das desigualdades sociais, em nome do mérito dos indivíduos. Esse modelo é um pouco contestável, em princípio: ele faz da vida escolar uma vasta competição, mais ou menos igualitária, e pode-se temer que a escola perca, cada vez mais, o seu papel efetivamente educativo.
A obra de Max Weber
Otto Maria Carpeaux - O Estado de S.Paulo
No Instituto de Sociologia da Universidade de Munique acaba de ser inaugurado o Arquivo Max Weber, em que, além de documentos e manuscritos, serão conservados os livros e estudos que se escreveram sobre o grande erudito: até agora, aproximadamente, 3.500.
Um orgão tão responsavel e tão insular como o "Times Literary Supplement" chamou-o (...) de "a maior figura da sociologia do seculo XX". (...) O Fundo de Cultura Economica divulgou-lhe as obras no mundo de linguas ibericas. No Brasil, toda pessoa medianamente culta conhece o nome de Max Weber, pelo menos aqueles estudos que fundaram uma nova disciplina cientifica: estudando a influencia da ética protestante ou, mais exatamente, da ética calvinista sobre a formação da mentalidade capitalista, essa tese, embora muito discutida, é sua maior gloria e é o grande desmentido contra a idolatria da especialização. (...)
Mas tudo que Weber escreveu, continha germes e sugestões para outros estudos, de importancia muito grande (...). Seu primeiro trabalho, de 1891, sobre a historia da estrutura agraria do antigo Imperio Romano, esclareceu o papel historico do latifundio. Conquistou a catedra em Friburg com um estudo sobre a situação dos trabalhadores rurais na Alemanha oriental, então dominada pelos "junkers" prussianos. Combinou, em 1903, os dois assuntos, escrevendo um famoso verbete de enciclopedia sobre "Estrutura agraria na Antiguidade", responsabilizando o latifundio pelo declinio e pela catastrofe da civilização antiga, terminando com uma sombria perspectiva para o futuro da Prussia latifundiaria de 1908. Também foi Weber o unico sociologo ocidental que se dignou de estudar a revolução russa de 1905: todo o mundo considerava-a então como a derrota de uma revolução socialista; mas o professor de Freiburg explicou-a como o fracasso de uma revolução burguesa, acreditando que esse fracasso causaria a transição direta da Russia, do feudalismo ao socialismo, sem fase burguesa.
Durante a primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, estendeu Weber seus estudos sobre sociologia da religião ao mundo não-cristão. Escreveu sobre religião e sociologia do Islão, da China e do judaismo; mas, sobretudo, os famosos artigos sobre Amos, Hosea, Isaías, Jeremias, os profetas do judaismo antigo. Até então, esses profetas eram considerados como individualistas religiosos, que libertaram o judaismo do monopolio dos sacerdotes do Templo, preparando a transformação da religião nacional dos hebreus em religião universal. Mas Weber demonstrou que os profetas não pensavam na salvação individual das almas, e, sim, na salvação da nação ameaçada.
No Instituto de Sociologia da Universidade de Munique acaba de ser inaugurado o Arquivo Max Weber, em que, além de documentos e manuscritos, serão conservados os livros e estudos que se escreveram sobre o grande erudito: até agora, aproximadamente, 3.500.
Um orgão tão responsavel e tão insular como o "Times Literary Supplement" chamou-o (...) de "a maior figura da sociologia do seculo XX". (...) O Fundo de Cultura Economica divulgou-lhe as obras no mundo de linguas ibericas. No Brasil, toda pessoa medianamente culta conhece o nome de Max Weber, pelo menos aqueles estudos que fundaram uma nova disciplina cientifica: estudando a influencia da ética protestante ou, mais exatamente, da ética calvinista sobre a formação da mentalidade capitalista, essa tese, embora muito discutida, é sua maior gloria e é o grande desmentido contra a idolatria da especialização. (...)
Mas tudo que Weber escreveu, continha germes e sugestões para outros estudos, de importancia muito grande (...). Seu primeiro trabalho, de 1891, sobre a historia da estrutura agraria do antigo Imperio Romano, esclareceu o papel historico do latifundio. Conquistou a catedra em Friburg com um estudo sobre a situação dos trabalhadores rurais na Alemanha oriental, então dominada pelos "junkers" prussianos. Combinou, em 1903, os dois assuntos, escrevendo um famoso verbete de enciclopedia sobre "Estrutura agraria na Antiguidade", responsabilizando o latifundio pelo declinio e pela catastrofe da civilização antiga, terminando com uma sombria perspectiva para o futuro da Prussia latifundiaria de 1908. Também foi Weber o unico sociologo ocidental que se dignou de estudar a revolução russa de 1905: todo o mundo considerava-a então como a derrota de uma revolução socialista; mas o professor de Freiburg explicou-a como o fracasso de uma revolução burguesa, acreditando que esse fracasso causaria a transição direta da Russia, do feudalismo ao socialismo, sem fase burguesa.
Durante a primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, estendeu Weber seus estudos sobre sociologia da religião ao mundo não-cristão. Escreveu sobre religião e sociologia do Islão, da China e do judaismo; mas, sobretudo, os famosos artigos sobre Amos, Hosea, Isaías, Jeremias, os profetas do judaismo antigo. Até então, esses profetas eram considerados como individualistas religiosos, que libertaram o judaismo do monopolio dos sacerdotes do Templo, preparando a transformação da religião nacional dos hebreus em religião universal. Mas Weber demonstrou que os profetas não pensavam na salvação individual das almas, e, sim, na salvação da nação ameaçada.
Escolas poderão ser obrigadas a contratar licenciados em Sociologia
Sociólogos e professores de Sociologia de todo Brasil comemoram uma conquista. A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade um projeto de lei que disciplina o ensino de Sociologia nas escolas de todo o país.
De acordo com o projeto, o ensino de Sociologia só poderá ser ministrado pelos licenciados da área, com diploma de Ciências Sociais, Sociologia, Antropologia ou Ciência Política, e não por qualquer pessoa, como vem ocorrendo atualmente.
O presidente da Federação Nacional dos Sociólogos, o potiguar Manoel Matias Filho, diz que a entidade recebe frequentemente queixas de todo o país, alertando para o fato de escolas públicas e particulares aproveitarem professores de qualquer matéria para ministras as disciplinas. “É comum no Brasil as escolas improvisarem professores que também improvisam as aulas, sem nenhum comprometimento com o aluno nem com a qualidade do ensino”, alerta o presidente da Federação.
O projeto de lei resulta de um pedido da Federação Nacional dos Sociólogos, que desde quando a Lei 11.684/2008 passou a vigorar, tem buscado melhorar a qualidade do ensino das disciplinas no país. A Lei de 2008 determinou que as disciplinas de filosofia e sociologia sejam incorporadas ao currículo do ensino médio. Elas haviam sido banidas das escolas em 1971 e substituídas por educação moral e cívica que também já não existe mais.
“Para construir a cidadania, o jovem precisa saber que é um agente transformador na sociedade; e não dá para esperar esse tipo conhecimento chegar apenas quando o estudante estiver na universidade”, afirmou Manoel Matias.
O projeto de lei, que foi relatado pelo deputado Rogério Marinho (PSDB/RN), ainda passa pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, antes de seguir para o Senado e, finalmente, para a sanção presidencial.
De acordo com o projeto, o ensino de Sociologia só poderá ser ministrado pelos licenciados da área, com diploma de Ciências Sociais, Sociologia, Antropologia ou Ciência Política, e não por qualquer pessoa, como vem ocorrendo atualmente.
O presidente da Federação Nacional dos Sociólogos, o potiguar Manoel Matias Filho, diz que a entidade recebe frequentemente queixas de todo o país, alertando para o fato de escolas públicas e particulares aproveitarem professores de qualquer matéria para ministras as disciplinas. “É comum no Brasil as escolas improvisarem professores que também improvisam as aulas, sem nenhum comprometimento com o aluno nem com a qualidade do ensino”, alerta o presidente da Federação.
O projeto de lei resulta de um pedido da Federação Nacional dos Sociólogos, que desde quando a Lei 11.684/2008 passou a vigorar, tem buscado melhorar a qualidade do ensino das disciplinas no país. A Lei de 2008 determinou que as disciplinas de filosofia e sociologia sejam incorporadas ao currículo do ensino médio. Elas haviam sido banidas das escolas em 1971 e substituídas por educação moral e cívica que também já não existe mais.
“Para construir a cidadania, o jovem precisa saber que é um agente transformador na sociedade; e não dá para esperar esse tipo conhecimento chegar apenas quando o estudante estiver na universidade”, afirmou Manoel Matias.
O projeto de lei, que foi relatado pelo deputado Rogério Marinho (PSDB/RN), ainda passa pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, antes de seguir para o Senado e, finalmente, para a sanção presidencial.
Esperanças em declínio
SILVIANO SANTIAGO - O Estado de S.Paulo
Acesse o Google. No retângulo designado à pesquisa, insira o nome de político com importância no cenário nacional. Acompanhe-o da palavra narcisismo. A tela será tomada por uma enxurrada de citações. Não há jornal, site, ou blog que não lhe forneça rico material. Em seguida, insira o nome de figura notória das artes e dos esportes. Não será diferente o resultado. Na sociedade midiática e informatizada, o narcisismo ata o político à pessoa notória e, ao definir a ele e a ela de celebridade, os individualiza.
Vulgarizado o termo, pergunta-se quando, como e por que ele ganhou o contexto sociopolítico e econômico. Há 31 anos, o sociólogo Christopher Lasch (1932-1994) tomava o termo de empréstimo à teoria de Sigmund Freud sobre o "narcisismo secundário". Segundo ele, o nó górdio da sociologia estava na nova onda de individualismo. Numa década de esperanças em declínio, o sujeito recalca a autoestima baixa e a raiva, para impor como moeda corrente a imagem grandiosa de si mesmo. Ao usar o outro como objeto de autogratificação, o narcisista está, na verdade, a reivindicar a aprovação e o amor da sociedade.
Christopher Lasch intitulou seu estudo de A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana Numa Era de Esperanças em Declínio (1979). No Brasil, o best-seller foi publicado em 1983 pela Editora Imago. A edição tornou-se raridade e os sebos a oferecem por R$ 250.
Com a metralhadora giratória freudiana, na qual sobressai algum chumbo grosso marxista, o sociólogo varre a cena americana, recém-liberada dos horrores da Guerra do Vietnã, ainda às voltas com a renúncia do presidente Nixon e a enfrentar a escassez de petróleo em casa e as violentas represálias aos seus diplomatas no mundo muçulmano. Recessão e inflação batem à porta e reacendem o narcisismo dos líderes. Relembra a fala farsesca do presidente Kennedy diante de Kruchev em Viena (anos 1960) e as trapaças retóricas do presidente Nixon frente a uma nação que lhe era invisível (anos 1970). Dos líderes, o narcisismo se transfere para os cidadãos, só dispostos a agir em público quando a autoridade política os desaponta.
Lasch critica as forças do Partido Republicano. Ao se retirar o esporte das quadras estudantis e anular a torcida de parentes e vizinhos, o jovem desportista vira figura midiática solitária, valorizado na publicidade das commodities. Também critica os democratas. Sob o paternalismo do Estado, acolhem o pluralismo racial e cultural. Encaminhar o jovem na vida deixa de ser atributo da família. Transforma-se em prerrogativa das agências de controle social. Os laços familiares cedem o lugar ao bem-intencionado e funesto assistente social, e as escolas públicas entregam profissionais iletrados à sociedade. O racismo de jure do sul se casa com o racismo de facto do norte. Encarar a atualidade implica também analisar o modo como estão envelhecendo mal os líderes estudantis do câmpus de Berkeley e de outras universidades.
O terrível diagnóstico de Lasch é ratificado no discurso sobre o mal-estar dos cidadãos americanos (malaise speech), proferido pelo presidente Jimmy Carter em 1979. Diante da nação, Carter verbaliza a ansiedade geral através de mil e uma falas de populares, que cita. O presidente as sintetiza: "Numa nação que tinha orgulho do trabalho braçal, dos laços familiares fortes, das comunidades fraternas e da fé em Deus, muitíssimos de nós tendem hoje a venerar a autocomplacência e o consumo."
Importante na elaboração do conceito de narcisismo é o modo como Lasch o desentranha da derrocada do individualismo empresarial, desde sempre abonado pelo mito do sonho americano. Para desenhar o declínio da força do indivíduo, até então canalizada para o negócio e o enriquecimento rápido, o sociólogo invoca o ideólogo da mobilidade das classes baixas, Horatio Alger (1832-1899). Foi ele o popular romancista das centenas de histórias de pobres que se tornam ricos (ragged to riches stories). Na falência do espírito Horatio Alger, Narciso abria a válvula de escape.
O anônimo indivíduo de sucesso se deixa fascinar pela fama. Diz Lasch: "São tipos em extinção o megaempresário que vive na obscuridade pessoal e o capitão da indústria que nos bastidores controla o destino de nações." Entre os mortais, evita-se a competição, perde-se a credulidade, são desqualificadas as relações pessoais, tornando-as transitórias. "Straights by day, swingers by night" (caretas de dia, descolados à noite) em As Contradições Culturais do Capitalismo (1976), o sociólogo Daniel Bell, teórico da sociedade pós-industrial, prenunciara as análises de Lasch.
Numa década de esperanças em declínio, o lucro e as virtudes protestantes, de que Max Weber fora o porta-voz, não mais despertam o entusiasmo dos cidadãos. Abandona-se a salvação pelo trabalho e, como alternativa individual e salutar, adota-se a sensual terapia corporal. Na autobiografia Crescendo aos Trinta e Sete (1976), Jerry Rubin, o anarquista do grupo dos Chicago 7, escreveu que, de 1971 a 1975, tinha experimentado terapia gestalt, bioenergética, comida natural, tai chi, hipnotismo, dança moderna, meditação, acupuntura, terapia sexual, etc. Aos 37 anos se sentia como se tivesse 25. Rubin, como outros ex-radicais, conseguia trocar os slogans revolucionários pelos terapêuticos, com igual desrespeito aos dois.
"Rápidas e sucessivas mudanças sociais por um longo período de tempo", Lasch observa conservadoramente, "criaram nos Estados Unidos da América o desemprego, desvalorizaram a sabedoria dos mais velhos e desrespeitavam todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade da experiência."
Acesse o Google. No retângulo designado à pesquisa, insira o nome de político com importância no cenário nacional. Acompanhe-o da palavra narcisismo. A tela será tomada por uma enxurrada de citações. Não há jornal, site, ou blog que não lhe forneça rico material. Em seguida, insira o nome de figura notória das artes e dos esportes. Não será diferente o resultado. Na sociedade midiática e informatizada, o narcisismo ata o político à pessoa notória e, ao definir a ele e a ela de celebridade, os individualiza.
Vulgarizado o termo, pergunta-se quando, como e por que ele ganhou o contexto sociopolítico e econômico. Há 31 anos, o sociólogo Christopher Lasch (1932-1994) tomava o termo de empréstimo à teoria de Sigmund Freud sobre o "narcisismo secundário". Segundo ele, o nó górdio da sociologia estava na nova onda de individualismo. Numa década de esperanças em declínio, o sujeito recalca a autoestima baixa e a raiva, para impor como moeda corrente a imagem grandiosa de si mesmo. Ao usar o outro como objeto de autogratificação, o narcisista está, na verdade, a reivindicar a aprovação e o amor da sociedade.
Christopher Lasch intitulou seu estudo de A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana Numa Era de Esperanças em Declínio (1979). No Brasil, o best-seller foi publicado em 1983 pela Editora Imago. A edição tornou-se raridade e os sebos a oferecem por R$ 250.
Com a metralhadora giratória freudiana, na qual sobressai algum chumbo grosso marxista, o sociólogo varre a cena americana, recém-liberada dos horrores da Guerra do Vietnã, ainda às voltas com a renúncia do presidente Nixon e a enfrentar a escassez de petróleo em casa e as violentas represálias aos seus diplomatas no mundo muçulmano. Recessão e inflação batem à porta e reacendem o narcisismo dos líderes. Relembra a fala farsesca do presidente Kennedy diante de Kruchev em Viena (anos 1960) e as trapaças retóricas do presidente Nixon frente a uma nação que lhe era invisível (anos 1970). Dos líderes, o narcisismo se transfere para os cidadãos, só dispostos a agir em público quando a autoridade política os desaponta.
Lasch critica as forças do Partido Republicano. Ao se retirar o esporte das quadras estudantis e anular a torcida de parentes e vizinhos, o jovem desportista vira figura midiática solitária, valorizado na publicidade das commodities. Também critica os democratas. Sob o paternalismo do Estado, acolhem o pluralismo racial e cultural. Encaminhar o jovem na vida deixa de ser atributo da família. Transforma-se em prerrogativa das agências de controle social. Os laços familiares cedem o lugar ao bem-intencionado e funesto assistente social, e as escolas públicas entregam profissionais iletrados à sociedade. O racismo de jure do sul se casa com o racismo de facto do norte. Encarar a atualidade implica também analisar o modo como estão envelhecendo mal os líderes estudantis do câmpus de Berkeley e de outras universidades.
O terrível diagnóstico de Lasch é ratificado no discurso sobre o mal-estar dos cidadãos americanos (malaise speech), proferido pelo presidente Jimmy Carter em 1979. Diante da nação, Carter verbaliza a ansiedade geral através de mil e uma falas de populares, que cita. O presidente as sintetiza: "Numa nação que tinha orgulho do trabalho braçal, dos laços familiares fortes, das comunidades fraternas e da fé em Deus, muitíssimos de nós tendem hoje a venerar a autocomplacência e o consumo."
Importante na elaboração do conceito de narcisismo é o modo como Lasch o desentranha da derrocada do individualismo empresarial, desde sempre abonado pelo mito do sonho americano. Para desenhar o declínio da força do indivíduo, até então canalizada para o negócio e o enriquecimento rápido, o sociólogo invoca o ideólogo da mobilidade das classes baixas, Horatio Alger (1832-1899). Foi ele o popular romancista das centenas de histórias de pobres que se tornam ricos (ragged to riches stories). Na falência do espírito Horatio Alger, Narciso abria a válvula de escape.
O anônimo indivíduo de sucesso se deixa fascinar pela fama. Diz Lasch: "São tipos em extinção o megaempresário que vive na obscuridade pessoal e o capitão da indústria que nos bastidores controla o destino de nações." Entre os mortais, evita-se a competição, perde-se a credulidade, são desqualificadas as relações pessoais, tornando-as transitórias. "Straights by day, swingers by night" (caretas de dia, descolados à noite) em As Contradições Culturais do Capitalismo (1976), o sociólogo Daniel Bell, teórico da sociedade pós-industrial, prenunciara as análises de Lasch.
Numa década de esperanças em declínio, o lucro e as virtudes protestantes, de que Max Weber fora o porta-voz, não mais despertam o entusiasmo dos cidadãos. Abandona-se a salvação pelo trabalho e, como alternativa individual e salutar, adota-se a sensual terapia corporal. Na autobiografia Crescendo aos Trinta e Sete (1976), Jerry Rubin, o anarquista do grupo dos Chicago 7, escreveu que, de 1971 a 1975, tinha experimentado terapia gestalt, bioenergética, comida natural, tai chi, hipnotismo, dança moderna, meditação, acupuntura, terapia sexual, etc. Aos 37 anos se sentia como se tivesse 25. Rubin, como outros ex-radicais, conseguia trocar os slogans revolucionários pelos terapêuticos, com igual desrespeito aos dois.
"Rápidas e sucessivas mudanças sociais por um longo período de tempo", Lasch observa conservadoramente, "criaram nos Estados Unidos da América o desemprego, desvalorizaram a sabedoria dos mais velhos e desrespeitavam todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade da experiência."
domingo, 1 de agosto de 2010
PM do Rio já expulsou 767 agentes por má conduta
Sábado, 31/07/2010, 10h58
Dados da Polícia Militar do Rio de Janeiro revelam que desde 2007, 767 policiais foram expulsos da corporação por desvio de conduta. Apenas em 2009, foram 300 os militares desligados. Até 10 de junho deste ano, 48 foram punidos com a expulsão. Em 2007 e 2008, foram expulsos 201 e 218 servidores, respectivamente.
De acordo com a assessoria de imprensa da PM, não existe um levantamento especificando as causas de cada expulsão. A assessoria alega não ser possível saber, por exemplo, quantos policiais foram banidos da PM por pedir suborno. “Cada caso é particular”, diz uma das assessoras.
Na semana passada, o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, declarou que não se descarta a possibilidade de expulsão dos dois policias militares acusados de pedir suborno para acobertar o atropelamento que causou a morte de Rafael Mascarenhas, 18, filho da atriz Cissa Guimarães.
“Quando temos que cortar na nossa própria carne, nós fazemos”, afirmou o coronel após reunião convocada com 41 comandantes da PM, último dia 22. Os PMs já prestaram depoimento na Corregedoria da PM e negam a propina. Eles estão presos.
Segundo o sociólogo José Augusto Rodrigues, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência, a corrupção no Rio deriva provavelmente da “ideologia da malandragem e do antioficialismo”.
“Existe propina de R$ 10. É difícil explicar isso só pela questão dos baixos salários pago aos policiais. É uma questão cultural. O policial se sente no direito de receber propina por qualquer coisa, e a sociedade, particularmente o segmento de mais alta renda, exige a corrupção policial para não ser punida”, avalia o pesquisador.
Já Fabiano Monteiro, sociólogo e coordenador da ONG Viva Rio, acredita que a baixa remuneração é uma das raízes do problema. “Policial mal pago é mais fácil de seduzir. E o tráfico tem um volume de dinheiro que é capaz de assediar os policiais e provocar a corrupção”, considera o sociólogo, lembrando que os policiais do Rio são os que recebem o segundo pior salário do país.
Formação deficiente
Diretor do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne aponta deficiências na formação dos policiais como outra causa de posteriores desvios de conduta. “Estão treinando o policial para quê? Ainda tem muito pouca coisa focada na prevenção do crime. Todas as polícias dizem que o grosso do atendimento são pequenos conflitos, mas não há formação nesse sentido. Poucos aprendem a ser articuladores, mediadores, capazes de lidar com situações corriqueiras tensas que começam pequenas e acabam virando problemões”, diz.
Por outro lado, o comandante-geral da PM ressalva que o ensino e o ingresso de novos policiais à corporação estão em constante reformulação. “Nós tínhamos uma maneira de acesso, de ingresso, já há 50 anos, em que o policial fazia uma prova de português e matemática. Nós tiramos a matemática e agora estamos exigindo conhecimento na área de humanidades. O policial já tem que chegar com uma prontidão em sociologia, em antropologia, em história, em geografia. Entendemos que essas abstrações lógico-matemáticas não são aquelas que vão permitir as melhores inferências para quem trabalha no espaço social”, disse Mário Sérgio Duarte.
Mas o comandante-geral reconhece que o trabalho é falho. “Ocorre que o homem trabalha com aquilo que ele aprendeu na sua plasticidade, na sua hipótese de aprendizagem, mas ele também trabalha com suas pulsões, com suas idiossincrasias, que a gente tenta eliminar na formação e na educação. Mas nem sempre é possível. O exemplo, é o que a gente vê aí”, declarou.
Uma das ações postas em prática pela PM a partir deste ano foi a criação de um Programa de Prevenção do Desvio de Conduta. Ele existe desde abril e, desde então, é obrigatório para todos os servidores. O programa consiste na apresentação de uma peça de teatro sobre a corrupção policial e a exibição de vídeos nos quais ex-policiais arrependidos de sua má conduta dão seu depoimento. (UOL)
Dados da Polícia Militar do Rio de Janeiro revelam que desde 2007, 767 policiais foram expulsos da corporação por desvio de conduta. Apenas em 2009, foram 300 os militares desligados. Até 10 de junho deste ano, 48 foram punidos com a expulsão. Em 2007 e 2008, foram expulsos 201 e 218 servidores, respectivamente.
De acordo com a assessoria de imprensa da PM, não existe um levantamento especificando as causas de cada expulsão. A assessoria alega não ser possível saber, por exemplo, quantos policiais foram banidos da PM por pedir suborno. “Cada caso é particular”, diz uma das assessoras.
Na semana passada, o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, declarou que não se descarta a possibilidade de expulsão dos dois policias militares acusados de pedir suborno para acobertar o atropelamento que causou a morte de Rafael Mascarenhas, 18, filho da atriz Cissa Guimarães.
“Quando temos que cortar na nossa própria carne, nós fazemos”, afirmou o coronel após reunião convocada com 41 comandantes da PM, último dia 22. Os PMs já prestaram depoimento na Corregedoria da PM e negam a propina. Eles estão presos.
Segundo o sociólogo José Augusto Rodrigues, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência, a corrupção no Rio deriva provavelmente da “ideologia da malandragem e do antioficialismo”.
“Existe propina de R$ 10. É difícil explicar isso só pela questão dos baixos salários pago aos policiais. É uma questão cultural. O policial se sente no direito de receber propina por qualquer coisa, e a sociedade, particularmente o segmento de mais alta renda, exige a corrupção policial para não ser punida”, avalia o pesquisador.
Já Fabiano Monteiro, sociólogo e coordenador da ONG Viva Rio, acredita que a baixa remuneração é uma das raízes do problema. “Policial mal pago é mais fácil de seduzir. E o tráfico tem um volume de dinheiro que é capaz de assediar os policiais e provocar a corrupção”, considera o sociólogo, lembrando que os policiais do Rio são os que recebem o segundo pior salário do país.
Formação deficiente
Diretor do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne aponta deficiências na formação dos policiais como outra causa de posteriores desvios de conduta. “Estão treinando o policial para quê? Ainda tem muito pouca coisa focada na prevenção do crime. Todas as polícias dizem que o grosso do atendimento são pequenos conflitos, mas não há formação nesse sentido. Poucos aprendem a ser articuladores, mediadores, capazes de lidar com situações corriqueiras tensas que começam pequenas e acabam virando problemões”, diz.
Por outro lado, o comandante-geral da PM ressalva que o ensino e o ingresso de novos policiais à corporação estão em constante reformulação. “Nós tínhamos uma maneira de acesso, de ingresso, já há 50 anos, em que o policial fazia uma prova de português e matemática. Nós tiramos a matemática e agora estamos exigindo conhecimento na área de humanidades. O policial já tem que chegar com uma prontidão em sociologia, em antropologia, em história, em geografia. Entendemos que essas abstrações lógico-matemáticas não são aquelas que vão permitir as melhores inferências para quem trabalha no espaço social”, disse Mário Sérgio Duarte.
Mas o comandante-geral reconhece que o trabalho é falho. “Ocorre que o homem trabalha com aquilo que ele aprendeu na sua plasticidade, na sua hipótese de aprendizagem, mas ele também trabalha com suas pulsões, com suas idiossincrasias, que a gente tenta eliminar na formação e na educação. Mas nem sempre é possível. O exemplo, é o que a gente vê aí”, declarou.
Uma das ações postas em prática pela PM a partir deste ano foi a criação de um Programa de Prevenção do Desvio de Conduta. Ele existe desde abril e, desde então, é obrigatório para todos os servidores. O programa consiste na apresentação de uma peça de teatro sobre a corrupção policial e a exibição de vídeos nos quais ex-policiais arrependidos de sua má conduta dão seu depoimento. (UOL)
Esquerda e direita no Brasil, hoje
LEANDRO KONDER
Ninguém pode pretender negar diversos progressos no movimento da história. A humanidade, hoje, se beneficia de conquistas importantes na área da Medicina, por exemplo. Podemos ser operados com anestesia, suavizar dores com analgésicos. Dispomos de meios de transporte rapidíssimos, helicópteros, aviões. Nossas casas têm luz elétrica, água encanada, esgoto. Vemos filmes, acompanhamos seriados na TV, ouvimos rádio. E, cada vez mais, utilizamos os computadores, a internet.
A ideologia dominante insiste em nos convencer que as desigualdades sociais são naturais, que o socialismo fracassou.
Tal como está organizada, a sociedade gira em torno do mercado, de acordo com um sistema que alguns chamam de "economia=de mercado", e outros, de "capitalismo". Até hoje, não surgiu nenhum sistema tão capaz de fazer crescer a economia. As experiências feitas em nome do socialismo não manifestaram força própria suficiente para competir, no plano do crescimento econômico, com o capitalismo.
O modo de produção capitalista não tem vocação suicida, e nada indica que ele esteja a ponto de morrer de morte natural. Seus representantes na arena política recorrem à repressão quando necessário e fazem concessões quando conveniente. Os trabalhadores têm feito conquistas significativas, do século 20 para cá; visivelmente não sentem saudades do tempo em que eram obrigados a jornadas de trabalho de 12 horas.Boa Parte dos trabalhadores -mais que no passado- chega mesmo a integrar-se à burguesia. Esse, porém, é um caminho que só pode ser percorrido por poucos. Alguns progridem. Faz parte da lógica do sistema, contudo, que as massas permaneçam excluídas. A cooptação de setores da representação política das classes médias está sendo mais resoluta, mais eficiente. O individualismo característico dessas confusas camadas intermediárias as torna muito vulneráveis à sedução das classes dominantes.
Temos uma situação histórica favorável ao bloco conservador. Nas atuais condições, a direita vem administrando suas contradições internas. A política econômica do governo do PT, as posições neoliberais do PSDB e as diferentes tendências reunidas no PMDB tranquilizaram a direita nos últimos anos. Tanto no PT como no PSDB e no PMDB os líderes posicionados um pouco mais à esquerda (não quer dizer que eles sejam de esquerda) foram marginalizados.
A esquerda está desarticulada. O naufrágio da União Soviética não arrastou só os partidos comunistas: mais de 15 anos se passaram, e o estilhaçamento ainda afeta dolorosamente diversas organizações socialistas.
No Brasil, o quadro é complexo, angustiante. Há pessoas de esquerda no PT, no PC do B, no PSB, no PDT e até no PSDB. Há muita gente de esquerda circunstancialmente sem partido. E há a valente iniciativa da senadora Heloisa Helena, do PSOL. Mas ainda não há um programa alternativo maduro que se contraponha à euforia do programa conservador, aplicado por gente que foi de esquerda e aplaudido pela direita.
Nas atuais condições em que exerce a sua hegemonia, a direita "moderada" conseguiu infiltrar seus critérios no discurso da esquerda "moderada". Os "moderados" dão o estilo. O conteúdo é dado pela "leitura" oficial da economia.
Antigamente, eram os marxistas que polemizavam em torno da economia, apoiados no "materialismo histórico". Alguns chegaram a falar num "materialismo econômico". Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empurrava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.
A fé determinista da dinâmica da economia contribuiu para que a esquerda tradicional, despreparada, sofresse contundentes derrotas. Duras lições da história política convenceram a esquerda a conviver com sua diversidade interna, em sua luta pela ampliação das liberdades e pela superação das desigualdades.
A economia é um nível essencial da realidade histórica; nela, os seres humanos agem, fazem escolhas, tomam iniciativas. Não há nada de inexorável em seus movimentos. Os marxistas se dispuseram, então, a discutir as motivações dos sujeitos que modificam a realidade objetiva. Passaram a debater idéias extraídas de Gramsci, Lukács, Adorno.Curiosamente, no momento em que os marxistas (e, com eles, a esquerda em geral) sublinhavam a significação crucial dos valores, da ética, a direita assumia a centralidade da economia e passava a acreditar que possuía a chave da compreensão correta (e da solução) dos problemas que os afligem no presente.
Essa chave é o instrumento simbólico mais eficiente da ideologia dominante (que, como dizia Marx, é sempre a ideologia das classes dominantes): é ela que insiste em nos convencer que as desigualdades sociais são naturais, que não há alternativa para o capitalismo, que o socialismo já foi tentado e fracassou. É ela que sustenta que as liberdades precisam se enraizar nas elites para depois, lentamente, chegar ao povão. Empunhando a chave, com a costumeira cara-de-pau, a direita pede paciência aos trabalhadores e promete que, com o tempo, eles vão se beneficiar de melhores condições materiais de cidadania, tal como aconteceu com as conquistas da medicina, os aviões e os computadores, que demoraram, mas vieram.
Permito-me perguntar: vieram mesmo?
Ninguém pode pretender negar diversos progressos no movimento da história. A humanidade, hoje, se beneficia de conquistas importantes na área da Medicina, por exemplo. Podemos ser operados com anestesia, suavizar dores com analgésicos. Dispomos de meios de transporte rapidíssimos, helicópteros, aviões. Nossas casas têm luz elétrica, água encanada, esgoto. Vemos filmes, acompanhamos seriados na TV, ouvimos rádio. E, cada vez mais, utilizamos os computadores, a internet.
A ideologia dominante insiste em nos convencer que as desigualdades sociais são naturais, que o socialismo fracassou.
Tal como está organizada, a sociedade gira em torno do mercado, de acordo com um sistema que alguns chamam de "economia=de mercado", e outros, de "capitalismo". Até hoje, não surgiu nenhum sistema tão capaz de fazer crescer a economia. As experiências feitas em nome do socialismo não manifestaram força própria suficiente para competir, no plano do crescimento econômico, com o capitalismo.
O modo de produção capitalista não tem vocação suicida, e nada indica que ele esteja a ponto de morrer de morte natural. Seus representantes na arena política recorrem à repressão quando necessário e fazem concessões quando conveniente. Os trabalhadores têm feito conquistas significativas, do século 20 para cá; visivelmente não sentem saudades do tempo em que eram obrigados a jornadas de trabalho de 12 horas.Boa Parte dos trabalhadores -mais que no passado- chega mesmo a integrar-se à burguesia. Esse, porém, é um caminho que só pode ser percorrido por poucos. Alguns progridem. Faz parte da lógica do sistema, contudo, que as massas permaneçam excluídas. A cooptação de setores da representação política das classes médias está sendo mais resoluta, mais eficiente. O individualismo característico dessas confusas camadas intermediárias as torna muito vulneráveis à sedução das classes dominantes.
Temos uma situação histórica favorável ao bloco conservador. Nas atuais condições, a direita vem administrando suas contradições internas. A política econômica do governo do PT, as posições neoliberais do PSDB e as diferentes tendências reunidas no PMDB tranquilizaram a direita nos últimos anos. Tanto no PT como no PSDB e no PMDB os líderes posicionados um pouco mais à esquerda (não quer dizer que eles sejam de esquerda) foram marginalizados.
A esquerda está desarticulada. O naufrágio da União Soviética não arrastou só os partidos comunistas: mais de 15 anos se passaram, e o estilhaçamento ainda afeta dolorosamente diversas organizações socialistas.
No Brasil, o quadro é complexo, angustiante. Há pessoas de esquerda no PT, no PC do B, no PSB, no PDT e até no PSDB. Há muita gente de esquerda circunstancialmente sem partido. E há a valente iniciativa da senadora Heloisa Helena, do PSOL. Mas ainda não há um programa alternativo maduro que se contraponha à euforia do programa conservador, aplicado por gente que foi de esquerda e aplaudido pela direita.
Nas atuais condições em que exerce a sua hegemonia, a direita "moderada" conseguiu infiltrar seus critérios no discurso da esquerda "moderada". Os "moderados" dão o estilo. O conteúdo é dado pela "leitura" oficial da economia.
Antigamente, eram os marxistas que polemizavam em torno da economia, apoiados no "materialismo histórico". Alguns chegaram a falar num "materialismo econômico". Tinham a convicção de que estavam na crista de uma onda que os empurrava inexoravelmente para adiante, para promover a transformação das relações de produção e o crescimento das forças produtivas.
A fé determinista da dinâmica da economia contribuiu para que a esquerda tradicional, despreparada, sofresse contundentes derrotas. Duras lições da história política convenceram a esquerda a conviver com sua diversidade interna, em sua luta pela ampliação das liberdades e pela superação das desigualdades.
A economia é um nível essencial da realidade histórica; nela, os seres humanos agem, fazem escolhas, tomam iniciativas. Não há nada de inexorável em seus movimentos. Os marxistas se dispuseram, então, a discutir as motivações dos sujeitos que modificam a realidade objetiva. Passaram a debater idéias extraídas de Gramsci, Lukács, Adorno.Curiosamente, no momento em que os marxistas (e, com eles, a esquerda em geral) sublinhavam a significação crucial dos valores, da ética, a direita assumia a centralidade da economia e passava a acreditar que possuía a chave da compreensão correta (e da solução) dos problemas que os afligem no presente.
Essa chave é o instrumento simbólico mais eficiente da ideologia dominante (que, como dizia Marx, é sempre a ideologia das classes dominantes): é ela que insiste em nos convencer que as desigualdades sociais são naturais, que não há alternativa para o capitalismo, que o socialismo já foi tentado e fracassou. É ela que sustenta que as liberdades precisam se enraizar nas elites para depois, lentamente, chegar ao povão. Empunhando a chave, com a costumeira cara-de-pau, a direita pede paciência aos trabalhadores e promete que, com o tempo, eles vão se beneficiar de melhores condições materiais de cidadania, tal como aconteceu com as conquistas da medicina, os aviões e os computadores, que demoraram, mas vieram.
Permito-me perguntar: vieram mesmo?
Os trabalhadores e aqueles que participam de suas lutas
exto publicado em 15 de Junho de 2010 - 06h01
por Claudia Santiago
No dia 9 de junho completou-se o centenário do nascimento, em São João da Boa Vista, no Interior de São Paulo, de Patrícia Galvão. Jornalista, escritora, ativista política, a revolucionária Pagu participou da Semana de Arte Moderna, em 1922, e foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por longos anos. Feminista, assinava a coluna A Mulher do Povo, na qual defendia direitos iguais para mulheres e homens.
Uma coluna como Debate Sindical, neste PortoGente, não poderia deixar de registrar que esta mulher fascinante foi presa, em Santos, pela primeira vez, em 15 de abril de 1931, por apoiar a greve dos estivadores. Na ocasião, colocou-se ao lado dos trabalhadores e foi ela quem, na Praça da República, amparou o corpo do estivador Herculano de Souza, morto pela polícia. Por apoiar a greve, Pagu foi colocada no Cárcere 3 da Casa de Câmara e Cadeia, na Praça dos Andradas, também em Santos. Foi a primeira mulher presa política no Brasil. Em 1933, publicou o romance Parque Industrial, que trata da vida das operárias da cidade de São Paulo.
Depois de um tempo na França, volta ao Brasil e participa da tentativa de Levante Comunista de 1935. Novamente é presa e torturada. Na prisão, conhece e se liga a Geraldo Ferraz, com quem atuará no grupo a Vanguarda Socialista. Na década de 1940 se desliga conflituosamente do PCB. Vive com Geraldo até sua morte, em 12 de dezembro de 1962, vítima de câncer.
No texto “Pagu: vida-obra, obravida, vida”, Antonio Risério afirma ser insuportável que uma nuvem de fumaça envolva a figura de Patrícia Galvão, uma mulher que se recusou a limitar-se à rotina dos chamados serviços domésticos. “...Sabendo que este silêncio repressor é culturalmente desastroso, é hora de fazer uma algazarra e espantar os urubus. Mas nada de homenagens póstumas...O que conta é a homenagem viva. Pagu foi revolucionária na arte, na política e na prática da vida.” E além disto tudo, foi uma mulher lutadora, sempre ligada ao mundo dos trabalhadores.
Fontes
http://sites.unisanta.br/pagu/navegador.htm
http://www.aleitamento.org.br/meninas/pagu.htm
http://www.oficinapagu.sp.gov.br/conteudo.php?cod=3
por Claudia Santiago
No dia 9 de junho completou-se o centenário do nascimento, em São João da Boa Vista, no Interior de São Paulo, de Patrícia Galvão. Jornalista, escritora, ativista política, a revolucionária Pagu participou da Semana de Arte Moderna, em 1922, e foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por longos anos. Feminista, assinava a coluna A Mulher do Povo, na qual defendia direitos iguais para mulheres e homens.
Uma coluna como Debate Sindical, neste PortoGente, não poderia deixar de registrar que esta mulher fascinante foi presa, em Santos, pela primeira vez, em 15 de abril de 1931, por apoiar a greve dos estivadores. Na ocasião, colocou-se ao lado dos trabalhadores e foi ela quem, na Praça da República, amparou o corpo do estivador Herculano de Souza, morto pela polícia. Por apoiar a greve, Pagu foi colocada no Cárcere 3 da Casa de Câmara e Cadeia, na Praça dos Andradas, também em Santos. Foi a primeira mulher presa política no Brasil. Em 1933, publicou o romance Parque Industrial, que trata da vida das operárias da cidade de São Paulo.
Depois de um tempo na França, volta ao Brasil e participa da tentativa de Levante Comunista de 1935. Novamente é presa e torturada. Na prisão, conhece e se liga a Geraldo Ferraz, com quem atuará no grupo a Vanguarda Socialista. Na década de 1940 se desliga conflituosamente do PCB. Vive com Geraldo até sua morte, em 12 de dezembro de 1962, vítima de câncer.
No texto “Pagu: vida-obra, obravida, vida”, Antonio Risério afirma ser insuportável que uma nuvem de fumaça envolva a figura de Patrícia Galvão, uma mulher que se recusou a limitar-se à rotina dos chamados serviços domésticos. “...Sabendo que este silêncio repressor é culturalmente desastroso, é hora de fazer uma algazarra e espantar os urubus. Mas nada de homenagens póstumas...O que conta é a homenagem viva. Pagu foi revolucionária na arte, na política e na prática da vida.” E além disto tudo, foi uma mulher lutadora, sempre ligada ao mundo dos trabalhadores.
Fontes
http://sites.unisanta.br/pagu/navegador.htm
http://www.aleitamento.org.br/meninas/pagu.htm
http://www.oficinapagu.sp.gov.br/conteudo.php?cod=3
Universidades privadas: MEC precisa agir
Texto publicado em 22 de Junho de 2010 - 04h23
por Claudia Santiago
Decidi que hoje escreveria sobre greves. Sim, várias greves estão ocorrendo no País. Na construção civil, na metalurgia, na justiça, na educação. Decidi escrever sobre educação, talvez instigada pela edição de uma reportagem, poucas horas atrás, sobre a decisão do Governo Federal, de investir no ensino para aqueles que cumprem penas no sistema prisional. Certamente, porém, estava motivada por uma greve de professores, no Rio de Janeiro.
Nesta segunda (22), os trabalhadores do Centro Universitário da Cidade fizeram greve. Cruzaram os braços porque seus salários são pagos com atraso de até 40 dias, desde 2007; o depósito de FGTS não é feito desde 2003; o 13º desde 2007; e o INSS também não é recolhido desde 2006.
Poucos minutos antes de começar a redigir recebo mensagem por e-mail de Cidinha Santos, da cidade de Santos, informando que sete professores do curso de Direito foram demitidos na UniSantos.
Os casos ocorridos em universidades privadas no Rio e em Santos não são isolados. Compõem um quadro macabro do que está virando a educação superior no País. O Brasil tem, hoje, 90% das instituições de ensino superior em mãos de particulares. Estas, respondem pela matrícula de 75% dos universitários. Neste quadro, estão presentes cenas de demissões de membros das Associações de Docentes, como ocorreu na Gama Filho, também no Rio de Janeiro; não cumprimento das leis trabalhistas; não recolhimento de encargos sociais; e atrasos de salários por muitos meses.
De acordo com a professora Magna Corrêa, coordenadora da Comissão Educação Superior do Sinpro-Rio, há um movimento das mantenedoras para tirar da esfera do MEC a fiscalização do ensino superior. “Pretendem que a atribuição fique a cargo de ministérios, como o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Essa é a da lógica do ensino como mercadoria”, diz.
“O governo Fernando Henrique falava da necessidade de capacitação rápida para atender ao mercado”, recorda. “A partir deste momento, houve a passagem de escolas administradas por gestores para conglomerados educacionais”.
As greves, as denúncias e até um pedido de CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para investigar as universidades contam, em alguns casos, com o forte apoio dos estudantes.
Não vale tudo para melhorar a posição do Brasil nos rankings de avaliação do número de pessoas com curso superior.
por Claudia Santiago
Decidi que hoje escreveria sobre greves. Sim, várias greves estão ocorrendo no País. Na construção civil, na metalurgia, na justiça, na educação. Decidi escrever sobre educação, talvez instigada pela edição de uma reportagem, poucas horas atrás, sobre a decisão do Governo Federal, de investir no ensino para aqueles que cumprem penas no sistema prisional. Certamente, porém, estava motivada por uma greve de professores, no Rio de Janeiro.
Nesta segunda (22), os trabalhadores do Centro Universitário da Cidade fizeram greve. Cruzaram os braços porque seus salários são pagos com atraso de até 40 dias, desde 2007; o depósito de FGTS não é feito desde 2003; o 13º desde 2007; e o INSS também não é recolhido desde 2006.
Poucos minutos antes de começar a redigir recebo mensagem por e-mail de Cidinha Santos, da cidade de Santos, informando que sete professores do curso de Direito foram demitidos na UniSantos.
Os casos ocorridos em universidades privadas no Rio e em Santos não são isolados. Compõem um quadro macabro do que está virando a educação superior no País. O Brasil tem, hoje, 90% das instituições de ensino superior em mãos de particulares. Estas, respondem pela matrícula de 75% dos universitários. Neste quadro, estão presentes cenas de demissões de membros das Associações de Docentes, como ocorreu na Gama Filho, também no Rio de Janeiro; não cumprimento das leis trabalhistas; não recolhimento de encargos sociais; e atrasos de salários por muitos meses.
De acordo com a professora Magna Corrêa, coordenadora da Comissão Educação Superior do Sinpro-Rio, há um movimento das mantenedoras para tirar da esfera do MEC a fiscalização do ensino superior. “Pretendem que a atribuição fique a cargo de ministérios, como o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Essa é a da lógica do ensino como mercadoria”, diz.
“O governo Fernando Henrique falava da necessidade de capacitação rápida para atender ao mercado”, recorda. “A partir deste momento, houve a passagem de escolas administradas por gestores para conglomerados educacionais”.
As greves, as denúncias e até um pedido de CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para investigar as universidades contam, em alguns casos, com o forte apoio dos estudantes.
Não vale tudo para melhorar a posição do Brasil nos rankings de avaliação do número de pessoas com curso superior.
“Só omissos, acomodados e egoístas não correm risco”, diz Giannotti
Texto publicado em 06 de Julho de 2010 - 02h33
por Claudia Santiago
O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) apresentou na Câmara dos Deputados um projeto que afeta diretamente o movimento sindical. De acordo com a proposta, um dirigente sindical que tenha sido condenado pela Justiça por ter participado de um piquete ou de uma greve, considerada ilegal, por exemplo, não poderá mais assumir cargo de direção no seu sindicato. O mesmo vale para lideranças de movimentos sociais.
Em sua argumentação, o parlamentar diz o seguinte: “Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto ficha limpa...a presente proposição objetiva, de modo análogo, estabelecer critérios semelhantes para os que ocupam cargos de direção ou em conselhos de administração e fiscais em pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, entidade de utilidade pública, entidade de classe ou sindical, associação legalmente constituída, organização não–governamental...”.
O escritor e ex-metalúrgico Vito Giannotti considera que, neste caso, ” ficha limpa só terão os individualistas, os egoístas, os omissos. Todo idealista que arrisca sua vida por uma causa coletiva ou por um ideal que possa mudar os rumos do mundo no qual vive, por este projeto, passará a ser um cara inelegível. Aqueles que se preocupam apenas com suas vidinhas medíocres e estão se lixando para o caminhar da humanidade, só estes não correm o risco de ser condenado por defender os interesses de sua categoria, de seus companheiros de bairro, de partido ou movimento”.
É que segundo a proposta de lei todos os que estão ao lado de causas sociais correm o risco de ficar impedidos de assumirem a direção de suas organizações. Este seria inclusive, segundo Giannotti, o foco central do projeto.
Em entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos, o líder do MST, João Pedro Stédile afirma que a proposta significa “criminalização total dos movimentos sociais”.
por Claudia Santiago
O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) apresentou na Câmara dos Deputados um projeto que afeta diretamente o movimento sindical. De acordo com a proposta, um dirigente sindical que tenha sido condenado pela Justiça por ter participado de um piquete ou de uma greve, considerada ilegal, por exemplo, não poderá mais assumir cargo de direção no seu sindicato. O mesmo vale para lideranças de movimentos sociais.
Em sua argumentação, o parlamentar diz o seguinte: “Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto ficha limpa...a presente proposição objetiva, de modo análogo, estabelecer critérios semelhantes para os que ocupam cargos de direção ou em conselhos de administração e fiscais em pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, entidade de utilidade pública, entidade de classe ou sindical, associação legalmente constituída, organização não–governamental...”.
O escritor e ex-metalúrgico Vito Giannotti considera que, neste caso, ” ficha limpa só terão os individualistas, os egoístas, os omissos. Todo idealista que arrisca sua vida por uma causa coletiva ou por um ideal que possa mudar os rumos do mundo no qual vive, por este projeto, passará a ser um cara inelegível. Aqueles que se preocupam apenas com suas vidinhas medíocres e estão se lixando para o caminhar da humanidade, só estes não correm o risco de ser condenado por defender os interesses de sua categoria, de seus companheiros de bairro, de partido ou movimento”.
É que segundo a proposta de lei todos os que estão ao lado de causas sociais correm o risco de ficar impedidos de assumirem a direção de suas organizações. Este seria inclusive, segundo Giannotti, o foco central do projeto.
Em entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos, o líder do MST, João Pedro Stédile afirma que a proposta significa “criminalização total dos movimentos sociais”.
Sindicatos da Educação do Rio de Janeiro debatem bullying
Texto publicado em 20 de Julho de 2010 -
por Claudia Santiago *
Jornais estão procurando sindicatos de professores em busca de mestres que sejam vítimas de bullying por parte dos alunos através de redes sociais na internet: orkut, twitter, facebook. Tarefa difícil. Nem mesmo os que são vítimas do problema pretendem se expor em entrevistas. Bullying é uma palavra de língua inglesa que significa causar sofrimento psíquico a alguém com agressão, chacotas, discriminação.
Os sindicatos ainda não sabem muito bem como lidar com o problema. Ou seja, como socorrer os professores sem entrar num discurso reacionário. Na opinião de Afonso Celso, professor de matemática e diretor do Sinpro-Rio, as relações entre professor e aluno estão contagiadas por uma sociedade que exclui a maioria de sua população e garante todos os direitos a uma pequena parcela. É isso que deixa professores vulneráveis frente a alunos e pais que reagem com brutalidade quando a nota não agrada, por exemplo.
Para o professor, as dificuldades não são de responsabilidade dos alunos, mas sim do completo descaso com a educação. “Nas escolas particulares a educação é tratada como mercadoria. O professor é encarado como um vendedor de diploma. A escola quer vender e o aluno quer comprar. Há escolas que já falam do aluno como um cliente. As famílias por estarem pagando não admitem que o filho seja reprovado. O professor é visto como aquele que vai dar prejuízo."
Nas escolas públicas a lógica é outra, mas tão perversa quanto a primeira. O aluno tem que passar rápido pela escola, não pode ficar reprovado e não importa se aprendeu ou não. Interessa que ele saia logo porque outros querem entrar e não há vagas para todo mundo.
Com um quadro destes, como jogar sobre a infância e a juventude a responsabilidade por relações conflituosas? O debate está na ordem do dia e os sindicatos dos trabalhadores da educação estão no olho do furacão.
por Claudia Santiago *
Jornais estão procurando sindicatos de professores em busca de mestres que sejam vítimas de bullying por parte dos alunos através de redes sociais na internet: orkut, twitter, facebook. Tarefa difícil. Nem mesmo os que são vítimas do problema pretendem se expor em entrevistas. Bullying é uma palavra de língua inglesa que significa causar sofrimento psíquico a alguém com agressão, chacotas, discriminação.
Os sindicatos ainda não sabem muito bem como lidar com o problema. Ou seja, como socorrer os professores sem entrar num discurso reacionário. Na opinião de Afonso Celso, professor de matemática e diretor do Sinpro-Rio, as relações entre professor e aluno estão contagiadas por uma sociedade que exclui a maioria de sua população e garante todos os direitos a uma pequena parcela. É isso que deixa professores vulneráveis frente a alunos e pais que reagem com brutalidade quando a nota não agrada, por exemplo.
Para o professor, as dificuldades não são de responsabilidade dos alunos, mas sim do completo descaso com a educação. “Nas escolas particulares a educação é tratada como mercadoria. O professor é encarado como um vendedor de diploma. A escola quer vender e o aluno quer comprar. Há escolas que já falam do aluno como um cliente. As famílias por estarem pagando não admitem que o filho seja reprovado. O professor é visto como aquele que vai dar prejuízo."
Nas escolas públicas a lógica é outra, mas tão perversa quanto a primeira. O aluno tem que passar rápido pela escola, não pode ficar reprovado e não importa se aprendeu ou não. Interessa que ele saia logo porque outros querem entrar e não há vagas para todo mundo.
Com um quadro destes, como jogar sobre a infância e a juventude a responsabilidade por relações conflituosas? O debate está na ordem do dia e os sindicatos dos trabalhadores da educação estão no olho do furacão.
Telemarketing: uma profissão que pode matar
Texto publicado em 27 de Julho de 2010 - 01h50
por Claudia Santiago
Todo mundo já recebeu um telefonema às 21 horas de um final de domingo oferecendo qualquer mercadoria ou serviço pelo qual não tem o mínimo interesse. A primeira atitude é se irritar e xingar o outro lado da linha. Mas, poucos sabem que o telemarketing é extremamente estressante para o infeliz ou a infeliz que nele trabalha. É uma máquina do grande sistema do comércio que, além do transtorno que gera às vítimas dos amaldiçoados telefonemas, faz outras vítimas muito mais fatais: os trabalhadores no serviço de telemarketing.
A remuneração da imensa maioria é de um miserável salário mínimo. O piso profissional, quando existe, é alguns tostões acima do mínimo. Mas o pior está por vir. As condições de trabalho são parecidas com aquelas do início da Revolução Industrial, no começo do século XIX. Só para ter uma idéia: em muitas empresas não há como ir ao banheiro. É preciso esperar que um coringa, que quase nunca aparece, se digne a passar por perto para que, então, se tenha este direito.
Por trabalharem em ritmo alucinante, estão sujeitos à LER. O nível de tensão por ter que responder o mais rápido possível a um cliente irritado e impaciente é enorme. E a cadeira contrária a qualquer norma ergonômica, na qual são condenados a ficar presos por longas seis horas, dentro de uma baia? E como ficam a voz, a garganta, as cordas vocais e os ouvidos? De acordo com médicos ouvidos pelos sindicatos de trabalhadores, em dois anos, o trabalhador vira um trapo. Sua saúde está condenada e nunca mais terá uma vida saudável.
Agora, há uma pergunta inevitável a ser feita e respondida. Há alguma necessidade desta atividade produtiva ser assim? Não dá para contornar e superar estas situações que destroem vidas e sonhos de milhares de jovens? Estes trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, hoje, já beiram os dois milhões. Para ser mais exatos: são um milhão e oitocentos mil.
As informações contidas nesta coluna foram fornecidas pelos Sindicatos de Telefônicos do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. Para ler mais sobre o assunto, leia o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual, organizado por Ricardo Antunes (Unicamp) e Ruy Braga (USP); e o artigo de Leandro Uchoas para o Brasil de Fato.
por Claudia Santiago
Todo mundo já recebeu um telefonema às 21 horas de um final de domingo oferecendo qualquer mercadoria ou serviço pelo qual não tem o mínimo interesse. A primeira atitude é se irritar e xingar o outro lado da linha. Mas, poucos sabem que o telemarketing é extremamente estressante para o infeliz ou a infeliz que nele trabalha. É uma máquina do grande sistema do comércio que, além do transtorno que gera às vítimas dos amaldiçoados telefonemas, faz outras vítimas muito mais fatais: os trabalhadores no serviço de telemarketing.
A remuneração da imensa maioria é de um miserável salário mínimo. O piso profissional, quando existe, é alguns tostões acima do mínimo. Mas o pior está por vir. As condições de trabalho são parecidas com aquelas do início da Revolução Industrial, no começo do século XIX. Só para ter uma idéia: em muitas empresas não há como ir ao banheiro. É preciso esperar que um coringa, que quase nunca aparece, se digne a passar por perto para que, então, se tenha este direito.
Por trabalharem em ritmo alucinante, estão sujeitos à LER. O nível de tensão por ter que responder o mais rápido possível a um cliente irritado e impaciente é enorme. E a cadeira contrária a qualquer norma ergonômica, na qual são condenados a ficar presos por longas seis horas, dentro de uma baia? E como ficam a voz, a garganta, as cordas vocais e os ouvidos? De acordo com médicos ouvidos pelos sindicatos de trabalhadores, em dois anos, o trabalhador vira um trapo. Sua saúde está condenada e nunca mais terá uma vida saudável.
Agora, há uma pergunta inevitável a ser feita e respondida. Há alguma necessidade desta atividade produtiva ser assim? Não dá para contornar e superar estas situações que destroem vidas e sonhos de milhares de jovens? Estes trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, hoje, já beiram os dois milhões. Para ser mais exatos: são um milhão e oitocentos mil.
As informações contidas nesta coluna foram fornecidas pelos Sindicatos de Telefônicos do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. Para ler mais sobre o assunto, leia o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual, organizado por Ricardo Antunes (Unicamp) e Ruy Braga (USP); e o artigo de Leandro Uchoas para o Brasil de Fato.
Quem é a classe trabalhadora hoje?
Texto atualizado em 16 de Maio de 2006 - 11h57
por Rosângela Ribeiro Gil
"A população trabalhadora, ao produzir a acumulação de
capital, produz, em proporções crescentes,
os meios que fazem dela, relativamente,
uma população supérflua".
Karl Marx
Tudo muda. O tempo todo. Estamos no mundo da velocidade e das transformações enlouquecidas. "Bomba atômica ontem, bomba genética amanhã, nenhuma delas é concebível sem uma terceira: a bomba informática", nos alerta Paul Virilio, no seu livro "A Bomba Informática", de 1999. No meio disso tudo estão os seres humanos. Somos 6 bilhões de homens e mulheres no mundo. Com desejos, sonhos, planos.
O mundo avança em descobertas tecnológicas, informáticas, genéticas; mas regride, na mesma proporção ou ainda pior, em termos humanos. O capital está cada vez mais rico. O homem, que-vive-da-venda-da-força-de-trabalho, está cada vez mais empobrecido e acuado. A sorte está lançada.
Recentemente foi lançada a edição nº 07 da revista Margem Esquerda, publicação da Boitempo Editorial. A revista traz um artigo instigante do professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Ricardo Antunes. Com o título Afinal, quem é a classe trabalhadora hoje?, Antunes observa que estamos diante de uma nova morfologia da classe trabalhadora, "hoje um conjunto muito ampliado que compreende o operariado industrial, o trabalhador rural assalariado, os assalariados de serviços (como, por exemplo, a operadora que trabalha no telemarketing), os digitadores de bancos, os trabalhadores que atendem os caixas eletrônicos dos supermercados e os desempregados também".
Estivemos no lançamento da revista Margem Esquerda, na Faculdade de História da USP (Universidade de São Paulo), onde entrevistamos o professor Ricardo Antunes.
Debate Sindical - Afinal, quem é a classe trabalhadora hoje?
Ricardo Antunes - A classe trabalhadora hoje é um conjunto muito ampliado que compreende o operariado industrial, o trabalhador rural assalariado, os assalariados de serviços, como, por exemplo, a operadora que trabalha no telemarketing, os homens e mulheres que trabalham nos supermercados, essa massa de trabalhadores que trabalham nos bancos como digitadores. A classe trabalhadora hoje tem uma nova morfologia. Ela tem o proletariado industrial produtivo, que é o seu núcleo central. Esse proletariado não é mais aquele proletariado estável da era taylorista e fordista (leia mais sobre o tema), mas ele é terceirizado, ele é precarizado. Você entra dentro da Volkswagen de Resende (RJ) e tem 1.500 trabalhadores, todos são terceirizados. Todos. Não tem nenhum ligado diretamente à Volkswagen. Eles são ligados aos consórcios modulares. Essa é a classe trabalhadora hoje. E ela inclui também o desempregado. Porque o desempregado é conseqüência do desemprego estrutural, que resulta dessa lógica destrutiva do capital. Então, o desempregado não é desempregado porque ele quer. Ele é desempregado pelo capital. Ele é parte do que o Marx chamava de exército industrial de reserva.
Nós podemos discutir a validade ou não da noção de exército industrial de reserva hoje. Eu penso que essa noção ainda é válida, mas é um debate. O que era um exército industrial menor, hoje é um exército monumental de reserva. Esta é a classe trabalhadora. Esta é a nova morfologia. Então, por exemplo, os motoboys. Eles são parte da classe trabalhadora. Só que nós estamos desafiados a entender que numa nova morfologia da classe trabalhadora significa nova morfologia das lutas sociais também. Por isso nós temos as greves, que são lutas tradicionais; mas temos o movimento dos trabalhadores piqueteiros da Argentina que corta as grandes estradas
impedindo a circulação de mercadoria.
Esta é a classe trabalhadora hoje. São todos aqueles, como eu chamo e com hífem, a classe-que-vive-do-trabalho. São todos aqueles que dependem da venda da sua força do trabalho para sobreviver. São os assalariados, que não é novidade nenhuma. Essa discussão é do Marx e do Engels.
Debate Sindical - E quem é o sindicato que representa essa classe trabalhadora?
Ricardo Antunes - Por um lado é aquele sindicato tradicional. Por exemplo, o sindicato dos metalúrgicos representa a categoria metalúrgica; o sindicato dos bancários, os bancários. Agora telemarketing, terceirizados estão desafiados a encontrarem os seus mecanismos de defesa. No caso da Argentina, por exemplo, criou-se o Movimento Social dos Trabalhadores Desempregados. Mas há também na Argentina sindicatos que têm um lado voltado para a organização dos desempregados. Esse é o desafio de criar organismos de representação que sejam sindicais ou sociais para defender esse conjunto de trabalhadores. Por exemplo, já há sindicatos de motoboys no Brasil. Quando você compra uma pizza ou sanduíche por telefone é o motoboy que vai levar. O talão de cheque é o motoboy que vai levar. As mercadorias que dão materialidade à circulação do capital, muitas delas são os motoboys que levam. Eles são parte da classe trabalhadora. Atuam na esfera da circulação de mercadorias, e não na produção.
Por isso tem o segundo debate: a classe trabalhadora para mim supõe um conceito amplo de trabalho, não inclui quem não vende a força de trabalho, é só quem vende a força de trabalho; mas ela compreende o trabalhador produtivo e o trabalhador improdutivo, no sentido dado pelo Marx.
Debate Sindical - É ainda uma classe revolucionária?
Ricardo Antunes - É claro. Eu diria a classe trabalhadora é contingencialmente presa à imediatidade e potencialmente revolucionária. Contingencialmente, ela responde às questões do aqui e agora. Porém ela tem a potência. E o movimento dos trabalhadores da França, há três semanas, mostrou que quando eles saem às ruas muda, muda o mundo. Agora é claro, a revolução do Século XXI é um processo mais complexo do que a revolução dos séculos XX e XIX.
Debate Sindical - Já que estamos falando no futuro do trabalhador, qual é o futuro do capital?
Ricardo Antunes - Acabar com a humanidade, é uma possibilidade. A lógica destrutiva levada ao limite pode eliminar a humanidade. Basta pensar na política belicista da guerra permanente. O segundo futuro da humanidade implica em eliminar o capital. Então o futuro do capital da nossa perspectiva é a sua extinção. A humanidade só pode sobreviver com dignidade e emancipação sem o capital. Então, o desafio nosso é tornar o capital inexistente. Esse é o empreendimento do século XXI. E alguém vai dizer mas isso é impossível, deixa o (Francis) Fukuyama dizer que é impossível. A nós não cabe pensar na impossibilidade disso, mas pensar nas possibilidades da superação do capital.
por Rosângela Ribeiro Gil
"A população trabalhadora, ao produzir a acumulação de
capital, produz, em proporções crescentes,
os meios que fazem dela, relativamente,
uma população supérflua".
Karl Marx
Tudo muda. O tempo todo. Estamos no mundo da velocidade e das transformações enlouquecidas. "Bomba atômica ontem, bomba genética amanhã, nenhuma delas é concebível sem uma terceira: a bomba informática", nos alerta Paul Virilio, no seu livro "A Bomba Informática", de 1999. No meio disso tudo estão os seres humanos. Somos 6 bilhões de homens e mulheres no mundo. Com desejos, sonhos, planos.
O mundo avança em descobertas tecnológicas, informáticas, genéticas; mas regride, na mesma proporção ou ainda pior, em termos humanos. O capital está cada vez mais rico. O homem, que-vive-da-venda-da-força-de-trabalho, está cada vez mais empobrecido e acuado. A sorte está lançada.
Recentemente foi lançada a edição nº 07 da revista Margem Esquerda, publicação da Boitempo Editorial. A revista traz um artigo instigante do professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Ricardo Antunes. Com o título Afinal, quem é a classe trabalhadora hoje?, Antunes observa que estamos diante de uma nova morfologia da classe trabalhadora, "hoje um conjunto muito ampliado que compreende o operariado industrial, o trabalhador rural assalariado, os assalariados de serviços (como, por exemplo, a operadora que trabalha no telemarketing), os digitadores de bancos, os trabalhadores que atendem os caixas eletrônicos dos supermercados e os desempregados também".
Estivemos no lançamento da revista Margem Esquerda, na Faculdade de História da USP (Universidade de São Paulo), onde entrevistamos o professor Ricardo Antunes.
Debate Sindical - Afinal, quem é a classe trabalhadora hoje?
Ricardo Antunes - A classe trabalhadora hoje é um conjunto muito ampliado que compreende o operariado industrial, o trabalhador rural assalariado, os assalariados de serviços, como, por exemplo, a operadora que trabalha no telemarketing, os homens e mulheres que trabalham nos supermercados, essa massa de trabalhadores que trabalham nos bancos como digitadores. A classe trabalhadora hoje tem uma nova morfologia. Ela tem o proletariado industrial produtivo, que é o seu núcleo central. Esse proletariado não é mais aquele proletariado estável da era taylorista e fordista (leia mais sobre o tema), mas ele é terceirizado, ele é precarizado. Você entra dentro da Volkswagen de Resende (RJ) e tem 1.500 trabalhadores, todos são terceirizados. Todos. Não tem nenhum ligado diretamente à Volkswagen. Eles são ligados aos consórcios modulares. Essa é a classe trabalhadora hoje. E ela inclui também o desempregado. Porque o desempregado é conseqüência do desemprego estrutural, que resulta dessa lógica destrutiva do capital. Então, o desempregado não é desempregado porque ele quer. Ele é desempregado pelo capital. Ele é parte do que o Marx chamava de exército industrial de reserva.
Nós podemos discutir a validade ou não da noção de exército industrial de reserva hoje. Eu penso que essa noção ainda é válida, mas é um debate. O que era um exército industrial menor, hoje é um exército monumental de reserva. Esta é a classe trabalhadora. Esta é a nova morfologia. Então, por exemplo, os motoboys. Eles são parte da classe trabalhadora. Só que nós estamos desafiados a entender que numa nova morfologia da classe trabalhadora significa nova morfologia das lutas sociais também. Por isso nós temos as greves, que são lutas tradicionais; mas temos o movimento dos trabalhadores piqueteiros da Argentina que corta as grandes estradas
impedindo a circulação de mercadoria.
Esta é a classe trabalhadora hoje. São todos aqueles, como eu chamo e com hífem, a classe-que-vive-do-trabalho. São todos aqueles que dependem da venda da sua força do trabalho para sobreviver. São os assalariados, que não é novidade nenhuma. Essa discussão é do Marx e do Engels.
Debate Sindical - E quem é o sindicato que representa essa classe trabalhadora?
Ricardo Antunes - Por um lado é aquele sindicato tradicional. Por exemplo, o sindicato dos metalúrgicos representa a categoria metalúrgica; o sindicato dos bancários, os bancários. Agora telemarketing, terceirizados estão desafiados a encontrarem os seus mecanismos de defesa. No caso da Argentina, por exemplo, criou-se o Movimento Social dos Trabalhadores Desempregados. Mas há também na Argentina sindicatos que têm um lado voltado para a organização dos desempregados. Esse é o desafio de criar organismos de representação que sejam sindicais ou sociais para defender esse conjunto de trabalhadores. Por exemplo, já há sindicatos de motoboys no Brasil. Quando você compra uma pizza ou sanduíche por telefone é o motoboy que vai levar. O talão de cheque é o motoboy que vai levar. As mercadorias que dão materialidade à circulação do capital, muitas delas são os motoboys que levam. Eles são parte da classe trabalhadora. Atuam na esfera da circulação de mercadorias, e não na produção.
Por isso tem o segundo debate: a classe trabalhadora para mim supõe um conceito amplo de trabalho, não inclui quem não vende a força de trabalho, é só quem vende a força de trabalho; mas ela compreende o trabalhador produtivo e o trabalhador improdutivo, no sentido dado pelo Marx.
Debate Sindical - É ainda uma classe revolucionária?
Ricardo Antunes - É claro. Eu diria a classe trabalhadora é contingencialmente presa à imediatidade e potencialmente revolucionária. Contingencialmente, ela responde às questões do aqui e agora. Porém ela tem a potência. E o movimento dos trabalhadores da França, há três semanas, mostrou que quando eles saem às ruas muda, muda o mundo. Agora é claro, a revolução do Século XXI é um processo mais complexo do que a revolução dos séculos XX e XIX.
Debate Sindical - Já que estamos falando no futuro do trabalhador, qual é o futuro do capital?
Ricardo Antunes - Acabar com a humanidade, é uma possibilidade. A lógica destrutiva levada ao limite pode eliminar a humanidade. Basta pensar na política belicista da guerra permanente. O segundo futuro da humanidade implica em eliminar o capital. Então o futuro do capital da nossa perspectiva é a sua extinção. A humanidade só pode sobreviver com dignidade e emancipação sem o capital. Então, o desafio nosso é tornar o capital inexistente. Esse é o empreendimento do século XXI. E alguém vai dizer mas isso é impossível, deixa o (Francis) Fukuyama dizer que é impossível. A nós não cabe pensar na impossibilidade disso, mas pensar nas possibilidades da superação do capital.
sábado, 31 de julho de 2010
Esperanças em declínio
SILVIANO SANTIAGO - O Estado de S.Paulo
Acesse o Google. No retângulo designado à pesquisa, insira o nome de político com importância no cenário nacional. Acompanhe-o da palavra narcisismo. A tela será tomada por uma enxurrada de citações. Não há jornal, site, ou blog que não lhe forneça rico material. Em seguida, insira o nome de figura notória das artes e dos esportes. Não será diferente o resultado. Na sociedade midiática e informatizada, o narcisismo ata o político à pessoa notória e, ao definir a ele e a ela de celebridade, os individualiza.
Vulgarizado o termo, pergunta-se quando, como e por que ele ganhou o contexto sociopolítico e econômico. Há 31 anos, o sociólogo Christopher Lasch (1932-1994) tomava o termo de empréstimo à teoria de Sigmund Freud sobre o "narcisismo secundário". Segundo ele, o nó górdio da sociologia estava na nova onda de individualismo. Numa década de esperanças em declínio, o sujeito recalca a autoestima baixa e a raiva, para impor como moeda corrente a imagem grandiosa de si mesmo. Ao usar o outro como objeto de autogratificação, o narcisista está, na verdade, a reivindicar a aprovação e o amor da sociedade.
Christopher Lasch intitulou seu estudo de A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana Numa Era de Esperanças em Declínio (1979). No Brasil, o best-seller foi publicado em 1983 pela Editora Imago. A edição tornou-se raridade e os sebos a oferecem por R$ 250.
Com a metralhadora giratória freudiana, na qual sobressai algum chumbo grosso marxista, o sociólogo varre a cena americana, recém-liberada dos horrores da Guerra do Vietnã, ainda às voltas com a renúncia do presidente Nixon e a enfrentar a escassez de petróleo em casa e as violentas represálias aos seus diplomatas no mundo muçulmano. Recessão e inflação batem à porta e reacendem o narcisismo dos líderes. Relembra a fala farsesca do presidente Kennedy diante de Kruchev em Viena (anos 1960) e as trapaças retóricas do presidente Nixon frente a uma nação que lhe era invisível (anos 1970). Dos líderes, o narcisismo se transfere para os cidadãos, só dispostos a agir em público quando a autoridade política os desaponta.
Lasch critica as forças do Partido Republicano. Ao se retirar o esporte das quadras estudantis e anular a torcida de parentes e vizinhos, o jovem desportista vira figura midiática solitária, valorizado na publicidade das commodities. Também critica os democratas. Sob o paternalismo do Estado, acolhem o pluralismo racial e cultural. Encaminhar o jovem na vida deixa de ser atributo da família. Transforma-se em prerrogativa das agências de controle social. Os laços familiares cedem o lugar ao bem-intencionado e funesto assistente social, e as escolas públicas entregam profissionais iletrados à sociedade. O racismo de jure do sul se casa com o racismo de facto do norte. Encarar a atualidade implica também analisar o modo como estão envelhecendo mal os líderes estudantis do câmpus de Berkeley e de outras universidades.
O terrível diagnóstico de Lasch é ratificado no discurso sobre o mal-estar dos cidadãos americanos (malaise speech), proferido pelo presidente Jimmy Carter em 1979. Diante da nação, Carter verbaliza a ansiedade geral através de mil e uma falas de populares, que cita. O presidente as sintetiza: "Numa nação que tinha orgulho do trabalho braçal, dos laços familiares fortes, das comunidades fraternas e da fé em Deus, muitíssimos de nós tendem hoje a venerar a autocomplacência e o consumo."
Importante na elaboração do conceito de narcisismo é o modo como Lasch o desentranha da derrocada do individualismo empresarial, desde sempre abonado pelo mito do sonho americano. Para desenhar o declínio da força do indivíduo, até então canalizada para o negócio e o enriquecimento rápido, o sociólogo invoca o ideólogo da mobilidade das classes baixas, Horatio Alger (1832-1899). Foi ele o popular romancista das centenas de histórias de pobres que se tornam ricos (ragged to riches stories). Na falência do espírito Horatio Alger, Narciso abria a válvula de escape.
O anônimo indivíduo de sucesso se deixa fascinar pela fama. Diz Lasch: "São tipos em extinção o megaempresário que vive na obscuridade pessoal e o capitão da indústria que nos bastidores controla o destino de nações." Entre os mortais, evita-se a competição, perde-se a credulidade, são desqualificadas as relações pessoais, tornando-as transitórias. "Straights by day, swingers by night" (caretas de dia, descolados à noite) em As Contradições Culturais do Capitalismo (1976), o sociólogo Daniel Bell, teórico da sociedade pós-industrial, prenunciara as análises de Lasch.
Numa década de esperanças em declínio, o lucro e as virtudes protestantes, de que Max Weber fora o porta-voz, não mais despertam o entusiasmo dos cidadãos. Abandona-se a salvação pelo trabalho e, como alternativa individual e salutar, adota-se a sensual terapia corporal. Na autobiografia Crescendo aos Trinta e Sete (1976), Jerry Rubin, o anarquista do grupo dos Chicago 7, escreveu que, de 1971 a 1975, tinha experimentado terapia gestalt, bioenergética, comida natural, tai chi, hipnotismo, dança moderna, meditação, acupuntura, terapia sexual, etc. Aos 37 anos se sentia como se tivesse 25. Rubin, como outros ex-radicais, conseguia trocar os slogans revolucionários pelos terapêuticos, com igual desrespeito aos dois.
"Rápidas e sucessivas mudanças sociais por um longo período de tempo", Lasch observa conservadoramente, "criaram nos Estados Unidos da América o desemprego, desvalorizaram a sabedoria dos mais velhos e desrespeitavam todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade da experiência.
Acesse o Google. No retângulo designado à pesquisa, insira o nome de político com importância no cenário nacional. Acompanhe-o da palavra narcisismo. A tela será tomada por uma enxurrada de citações. Não há jornal, site, ou blog que não lhe forneça rico material. Em seguida, insira o nome de figura notória das artes e dos esportes. Não será diferente o resultado. Na sociedade midiática e informatizada, o narcisismo ata o político à pessoa notória e, ao definir a ele e a ela de celebridade, os individualiza.
Vulgarizado o termo, pergunta-se quando, como e por que ele ganhou o contexto sociopolítico e econômico. Há 31 anos, o sociólogo Christopher Lasch (1932-1994) tomava o termo de empréstimo à teoria de Sigmund Freud sobre o "narcisismo secundário". Segundo ele, o nó górdio da sociologia estava na nova onda de individualismo. Numa década de esperanças em declínio, o sujeito recalca a autoestima baixa e a raiva, para impor como moeda corrente a imagem grandiosa de si mesmo. Ao usar o outro como objeto de autogratificação, o narcisista está, na verdade, a reivindicar a aprovação e o amor da sociedade.
Christopher Lasch intitulou seu estudo de A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana Numa Era de Esperanças em Declínio (1979). No Brasil, o best-seller foi publicado em 1983 pela Editora Imago. A edição tornou-se raridade e os sebos a oferecem por R$ 250.
Com a metralhadora giratória freudiana, na qual sobressai algum chumbo grosso marxista, o sociólogo varre a cena americana, recém-liberada dos horrores da Guerra do Vietnã, ainda às voltas com a renúncia do presidente Nixon e a enfrentar a escassez de petróleo em casa e as violentas represálias aos seus diplomatas no mundo muçulmano. Recessão e inflação batem à porta e reacendem o narcisismo dos líderes. Relembra a fala farsesca do presidente Kennedy diante de Kruchev em Viena (anos 1960) e as trapaças retóricas do presidente Nixon frente a uma nação que lhe era invisível (anos 1970). Dos líderes, o narcisismo se transfere para os cidadãos, só dispostos a agir em público quando a autoridade política os desaponta.
Lasch critica as forças do Partido Republicano. Ao se retirar o esporte das quadras estudantis e anular a torcida de parentes e vizinhos, o jovem desportista vira figura midiática solitária, valorizado na publicidade das commodities. Também critica os democratas. Sob o paternalismo do Estado, acolhem o pluralismo racial e cultural. Encaminhar o jovem na vida deixa de ser atributo da família. Transforma-se em prerrogativa das agências de controle social. Os laços familiares cedem o lugar ao bem-intencionado e funesto assistente social, e as escolas públicas entregam profissionais iletrados à sociedade. O racismo de jure do sul se casa com o racismo de facto do norte. Encarar a atualidade implica também analisar o modo como estão envelhecendo mal os líderes estudantis do câmpus de Berkeley e de outras universidades.
O terrível diagnóstico de Lasch é ratificado no discurso sobre o mal-estar dos cidadãos americanos (malaise speech), proferido pelo presidente Jimmy Carter em 1979. Diante da nação, Carter verbaliza a ansiedade geral através de mil e uma falas de populares, que cita. O presidente as sintetiza: "Numa nação que tinha orgulho do trabalho braçal, dos laços familiares fortes, das comunidades fraternas e da fé em Deus, muitíssimos de nós tendem hoje a venerar a autocomplacência e o consumo."
Importante na elaboração do conceito de narcisismo é o modo como Lasch o desentranha da derrocada do individualismo empresarial, desde sempre abonado pelo mito do sonho americano. Para desenhar o declínio da força do indivíduo, até então canalizada para o negócio e o enriquecimento rápido, o sociólogo invoca o ideólogo da mobilidade das classes baixas, Horatio Alger (1832-1899). Foi ele o popular romancista das centenas de histórias de pobres que se tornam ricos (ragged to riches stories). Na falência do espírito Horatio Alger, Narciso abria a válvula de escape.
O anônimo indivíduo de sucesso se deixa fascinar pela fama. Diz Lasch: "São tipos em extinção o megaempresário que vive na obscuridade pessoal e o capitão da indústria que nos bastidores controla o destino de nações." Entre os mortais, evita-se a competição, perde-se a credulidade, são desqualificadas as relações pessoais, tornando-as transitórias. "Straights by day, swingers by night" (caretas de dia, descolados à noite) em As Contradições Culturais do Capitalismo (1976), o sociólogo Daniel Bell, teórico da sociedade pós-industrial, prenunciara as análises de Lasch.
Numa década de esperanças em declínio, o lucro e as virtudes protestantes, de que Max Weber fora o porta-voz, não mais despertam o entusiasmo dos cidadãos. Abandona-se a salvação pelo trabalho e, como alternativa individual e salutar, adota-se a sensual terapia corporal. Na autobiografia Crescendo aos Trinta e Sete (1976), Jerry Rubin, o anarquista do grupo dos Chicago 7, escreveu que, de 1971 a 1975, tinha experimentado terapia gestalt, bioenergética, comida natural, tai chi, hipnotismo, dança moderna, meditação, acupuntura, terapia sexual, etc. Aos 37 anos se sentia como se tivesse 25. Rubin, como outros ex-radicais, conseguia trocar os slogans revolucionários pelos terapêuticos, com igual desrespeito aos dois.
"Rápidas e sucessivas mudanças sociais por um longo período de tempo", Lasch observa conservadoramente, "criaram nos Estados Unidos da América o desemprego, desvalorizaram a sabedoria dos mais velhos e desrespeitavam todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade da experiência.
Argentina vê Tevez, e não Messi, como o novo ídolo popular
02 de julho de 2010 • 16h21 • atualizado às 16h44
Consagrando-se com o título de "jogador mais popular" depois de apresentar boas atuações na seleção argentina, o atacante Carlos Tevez é o mais cotado pelo povo como o sucessor de Maradona, ao invés de Lionel Messi, artilheiro da Copa.
Para o sociólogo Pablo Alabarces, autor de vários ensaios sobre a influência social do futebol, os torcedores argentinos não veem Messi como o sucessor de Maradona, mas Tévez, cuja personalidade lutadora e a origem humilde lembram a história do ídolo argentino.
"Sem dúvida nenhuma, Tévez é o mais "maradoniano" dentre os jogadores e por isso a população o vê como o jogador mais popular do povo", disse Alabarces em entrevista nesta sexta-feira.
"Messi não ocupará o lugar de Maradona porque é o menos argentino dentre os jogadores da seleção, já que ele não se destacou em nenhuma equipe nacional", declarou o sociólogo, acrescentando que o atacante "está em dívida com o público argentino, e não o contrário".
O sociólogo Roberto Di Giano também sustenta essa ideia e acredita que Messi é "tímido e correto demais para as multidões". E apesar de acreditar que o jogador carece das "potencialidades do Maradona", ele vê dificuldades em eleger um substituto do atual técnico da seleção em campo.
"Quando Maradona era jogador, havia mais consenso em louvá-lo.Agora, a comunidade esportiva está muito mais dividida para escolher o novo sucessor", lembrou Di Giano, especialista em sociologia do futebol.
A popularidade de Tévez disparou na Argentina, esta semana, depois do atacante fazer dois gols no jogo contra o México, pelas oitavas de final.
Além disso, a história de superação pessoal do jogador, criado em um dos bairros mais pobres de Buenos Aires - bairro conhecido como Fuerte Apache - atrai os olhares do povo argentino do mesmo jeito que Maradona o fez mostrando uma personalidade "sedutora e transgressora", como citou Di Giano.
O sociólogo considera que Maradona é um dos poucos "representantes populares que a Argentina tem", e que ele "chegará mais alto ainda se a equipe for campeã".
"Esta é a primeira seleção na qual a grande estrela é o técnico.Maradona é um para-raios e isso aumenta a pressão dos jogadores. Não devemos nos esquecer que Diego ficou mais de 30 anos vivendo com uma arma apontada em sua nuca", disse.
Consagrando-se com o título de "jogador mais popular" depois de apresentar boas atuações na seleção argentina, o atacante Carlos Tevez é o mais cotado pelo povo como o sucessor de Maradona, ao invés de Lionel Messi, artilheiro da Copa.
Para o sociólogo Pablo Alabarces, autor de vários ensaios sobre a influência social do futebol, os torcedores argentinos não veem Messi como o sucessor de Maradona, mas Tévez, cuja personalidade lutadora e a origem humilde lembram a história do ídolo argentino.
"Sem dúvida nenhuma, Tévez é o mais "maradoniano" dentre os jogadores e por isso a população o vê como o jogador mais popular do povo", disse Alabarces em entrevista nesta sexta-feira.
"Messi não ocupará o lugar de Maradona porque é o menos argentino dentre os jogadores da seleção, já que ele não se destacou em nenhuma equipe nacional", declarou o sociólogo, acrescentando que o atacante "está em dívida com o público argentino, e não o contrário".
O sociólogo Roberto Di Giano também sustenta essa ideia e acredita que Messi é "tímido e correto demais para as multidões". E apesar de acreditar que o jogador carece das "potencialidades do Maradona", ele vê dificuldades em eleger um substituto do atual técnico da seleção em campo.
"Quando Maradona era jogador, havia mais consenso em louvá-lo.Agora, a comunidade esportiva está muito mais dividida para escolher o novo sucessor", lembrou Di Giano, especialista em sociologia do futebol.
A popularidade de Tévez disparou na Argentina, esta semana, depois do atacante fazer dois gols no jogo contra o México, pelas oitavas de final.
Além disso, a história de superação pessoal do jogador, criado em um dos bairros mais pobres de Buenos Aires - bairro conhecido como Fuerte Apache - atrai os olhares do povo argentino do mesmo jeito que Maradona o fez mostrando uma personalidade "sedutora e transgressora", como citou Di Giano.
O sociólogo considera que Maradona é um dos poucos "representantes populares que a Argentina tem", e que ele "chegará mais alto ainda se a equipe for campeã".
"Esta é a primeira seleção na qual a grande estrela é o técnico.Maradona é um para-raios e isso aumenta a pressão dos jogadores. Não devemos nos esquecer que Diego ficou mais de 30 anos vivendo com uma arma apontada em sua nuca", disse.
Final de semestre letivo
A educação escolar brasileira vai de mal a pior. Esse momento de final de semestre é propício para discutirmos a tragédia que vivenciamos na área do conhecimento.
Os profissionais da educação estão cada vez mais perplexos e confusos com a inversão de valores e o excesso de deseducação travestida de modernismos.
Os culpados são todos os que se omitem diante da situação. Por um lado temos milhares de pessoas que acreditam na educação escolar como o melhor caminho para a promoção humana, trabalham para que ela seja eficiente e lutam para que ela seja transformada e transformadora. Por outro, há milhares de alunos relapsos e desmotivados, pais irresponsáveis e omissos, profissionais da educação despreparados e descompromissados, instituições educacionais dirigidas por gente que está cansada da sala de aula e busca tranquilidade e prestígio na burocracia estatal. Os primeiros sofrem por serem minoria.
Mudanças precisam ser operadas desde as concepções de educação, família, Estado e ser humano até os procedimentos mais corriqueiros da prática escolar.
As instituições estatais de educação estão infestadas de gente fazendo experiências com os filhos dos outros. Vejamos um – só um – caso de política pública em que os agentes educacionais, na ânsia de resolverem o problema, pioram a situação. O MEC, partindo do pressuposto que o problema está na formação de professores, optou por sucessivas reestruturações dos cursos superiores de licenciatura, aumentando as cargas horárias das disciplinas pedagógicas em detrimento daquelas que compõem o currículo básico das ciências específicas (História, Geografia, Matemática, Letras, etc.). Suprimiu/diminuiu, também, as cargas horárias das disciplinas chamadas auxiliares e que são fundamentais para a compreensão de qualquer ciência e da “clientela” escolar: Psicologia do Desenvolvimento da Infância e da Adolescência, Psicologia da Educação, Filosofia e História da Filosofia, Sociologia Geral, Sociologia das Comunicações, Sociologia da Educação, Antropologia (cultura e identidade), Ciência Política e, nos tempos modernos, Ciências da Informação.
A situação é esdrúxula. Imagine que o Curso de História, por exemplo, não oferece as disciplinas acima mencionadas e a História Antiga tem que ser dada em sessenta horas letivas. Isso mesmo! Sessenta horas para ensinar os conteúdos de Pré-História, das civilizações egípcia, persa, mesopotâmica, hebraica, cretense, fenícia, grega e romana, chinesa, indiana. Este é um pequeno exemplo de um grande problema que afeta todas as licenciaturas.
Resumindo: a estrutura dos cursos de licenciatura está vazia dos conteúdos teóricos necessários à sua compreensão. A sobrecarga horária de disciplinas pedagógicas nada mais é do que um remendo, inventado pelos burocratas da educação escolar, para corrigir um sistema cada vez mais vazio de conteúdos e de valores.
Ora, se a educação escolar é responsabilidade do Estado e há problemas em todas as instâncias – do ensino infantil ao superior – então se faz necessário mudar a concepção de educação na sua estrutura institucional. Por isso, as eleições de 2010 ganham relevância. Todavia, há que se discutir concepções e procedimentos.
Tal discussão não pode ser restrita às eleições. Tem que ser feita na família, nas igrejas, nas comunidades, nas associações, nas escolas, em todo lugar. Ou seja, a população tem que ter coragem de impor sua vontade.
Não é mais possível aceitar mudanças aparentes ou para pior. Se for necessário retomar práticas antigas que eram eficientes, que se faça isso com coragem e sabedoria, adequando-as à nova realidade social. Se for preciso implantar algo novo, que não sejam respeitados os argumentos dos políticos tratam da educação como se ela fosse uma mercadoria.
Basta de propostas que são remendos mal alinhavados, de estatísticas mirabolantes que nada representam e de políticas de certificações que só servem aos interesses pessoais de gente que não tem compromisso com Gente.
É hora de fazermos enfrentamentos! Ou condenados pela nossa indiferença.
(*) Paulo Augusto Mário Isaac – Professor da UFMT, mestre em Educação Pública e Doutor em Ciências Sociais
Os profissionais da educação estão cada vez mais perplexos e confusos com a inversão de valores e o excesso de deseducação travestida de modernismos.
Os culpados são todos os que se omitem diante da situação. Por um lado temos milhares de pessoas que acreditam na educação escolar como o melhor caminho para a promoção humana, trabalham para que ela seja eficiente e lutam para que ela seja transformada e transformadora. Por outro, há milhares de alunos relapsos e desmotivados, pais irresponsáveis e omissos, profissionais da educação despreparados e descompromissados, instituições educacionais dirigidas por gente que está cansada da sala de aula e busca tranquilidade e prestígio na burocracia estatal. Os primeiros sofrem por serem minoria.
Mudanças precisam ser operadas desde as concepções de educação, família, Estado e ser humano até os procedimentos mais corriqueiros da prática escolar.
As instituições estatais de educação estão infestadas de gente fazendo experiências com os filhos dos outros. Vejamos um – só um – caso de política pública em que os agentes educacionais, na ânsia de resolverem o problema, pioram a situação. O MEC, partindo do pressuposto que o problema está na formação de professores, optou por sucessivas reestruturações dos cursos superiores de licenciatura, aumentando as cargas horárias das disciplinas pedagógicas em detrimento daquelas que compõem o currículo básico das ciências específicas (História, Geografia, Matemática, Letras, etc.). Suprimiu/diminuiu, também, as cargas horárias das disciplinas chamadas auxiliares e que são fundamentais para a compreensão de qualquer ciência e da “clientela” escolar: Psicologia do Desenvolvimento da Infância e da Adolescência, Psicologia da Educação, Filosofia e História da Filosofia, Sociologia Geral, Sociologia das Comunicações, Sociologia da Educação, Antropologia (cultura e identidade), Ciência Política e, nos tempos modernos, Ciências da Informação.
A situação é esdrúxula. Imagine que o Curso de História, por exemplo, não oferece as disciplinas acima mencionadas e a História Antiga tem que ser dada em sessenta horas letivas. Isso mesmo! Sessenta horas para ensinar os conteúdos de Pré-História, das civilizações egípcia, persa, mesopotâmica, hebraica, cretense, fenícia, grega e romana, chinesa, indiana. Este é um pequeno exemplo de um grande problema que afeta todas as licenciaturas.
Resumindo: a estrutura dos cursos de licenciatura está vazia dos conteúdos teóricos necessários à sua compreensão. A sobrecarga horária de disciplinas pedagógicas nada mais é do que um remendo, inventado pelos burocratas da educação escolar, para corrigir um sistema cada vez mais vazio de conteúdos e de valores.
Ora, se a educação escolar é responsabilidade do Estado e há problemas em todas as instâncias – do ensino infantil ao superior – então se faz necessário mudar a concepção de educação na sua estrutura institucional. Por isso, as eleições de 2010 ganham relevância. Todavia, há que se discutir concepções e procedimentos.
Tal discussão não pode ser restrita às eleições. Tem que ser feita na família, nas igrejas, nas comunidades, nas associações, nas escolas, em todo lugar. Ou seja, a população tem que ter coragem de impor sua vontade.
Não é mais possível aceitar mudanças aparentes ou para pior. Se for necessário retomar práticas antigas que eram eficientes, que se faça isso com coragem e sabedoria, adequando-as à nova realidade social. Se for preciso implantar algo novo, que não sejam respeitados os argumentos dos políticos tratam da educação como se ela fosse uma mercadoria.
Basta de propostas que são remendos mal alinhavados, de estatísticas mirabolantes que nada representam e de políticas de certificações que só servem aos interesses pessoais de gente que não tem compromisso com Gente.
É hora de fazermos enfrentamentos! Ou condenados pela nossa indiferença.
(*) Paulo Augusto Mário Isaac – Professor da UFMT, mestre em Educação Pública e Doutor em Ciências Sociais
A caixa que mudou o mundo
Texto publicado em 06 de Julho de 2010 -
por Carla Diéguez
Desde seu lançamento, em 2006, muito se falou do livro do economista e ex-editor do The Economist Marc Levinson. Intitulado The Box: How the Shipping Container Made The World Smaller and the World Economy Bigger, foi traduzido para o português em 2009 pela editora portuguesa Actual.
O livro é muito interessante, pois pela primeira vez traz a história da construção e implantação do container no comércio mundial. Entretanto, considero que o autor supervaloriza o container como o grande revolucionário do sistema portuário internacional e, consequentemente, da economia global. Não que eu descarte a responsabilidade dele neste processo, entretanto considero que existem outros elementos que permitiram que o container revolucionasse o processo produtivo nos portos e a economia global.
Um destes elementos é a conjuntura econômica da época de surgimento do container. Segundo Levinson, a primeira viagem de um container foi em 1956, ou seja, 11 anos após o final da 2ª Guerra Mundial. Os containeres foram formas de desenvolver o comércio local de muitas regiões atingidas pela guerra e que careciam de um desenvolvimento acelerado.
Além disso, o container toma maior força nas décadas de 1970 e 1980, quando muitos países passaram a adotar projetos políticos liberalizantes, com redução de custos trabalhistas e privatizações. Neste contexto, os portos são pontos de destaque, pela alta mobilização dos trabalhadores, conseguida pelo processo de trabalho manual, que requeria um grande número de trabalhadores. Desta forma, o container contribui para a redução deste contingente e, consequentemente, para a implantação destas políticas.
Realmente o container é a caixa que mudou o mundo, entretanto, podemos dizer que apenas porque o mundo também permitiu que ele o mudasse.
Referência bibliográfica
LEVINSON, Marc. The Box: how the shipping container made the world smaller and the world economy bigger. Princeton/USA: Princeton University Press, 2006
por Carla Diéguez
Desde seu lançamento, em 2006, muito se falou do livro do economista e ex-editor do The Economist Marc Levinson. Intitulado The Box: How the Shipping Container Made The World Smaller and the World Economy Bigger, foi traduzido para o português em 2009 pela editora portuguesa Actual.
O livro é muito interessante, pois pela primeira vez traz a história da construção e implantação do container no comércio mundial. Entretanto, considero que o autor supervaloriza o container como o grande revolucionário do sistema portuário internacional e, consequentemente, da economia global. Não que eu descarte a responsabilidade dele neste processo, entretanto considero que existem outros elementos que permitiram que o container revolucionasse o processo produtivo nos portos e a economia global.
Um destes elementos é a conjuntura econômica da época de surgimento do container. Segundo Levinson, a primeira viagem de um container foi em 1956, ou seja, 11 anos após o final da 2ª Guerra Mundial. Os containeres foram formas de desenvolver o comércio local de muitas regiões atingidas pela guerra e que careciam de um desenvolvimento acelerado.
Além disso, o container toma maior força nas décadas de 1970 e 1980, quando muitos países passaram a adotar projetos políticos liberalizantes, com redução de custos trabalhistas e privatizações. Neste contexto, os portos são pontos de destaque, pela alta mobilização dos trabalhadores, conseguida pelo processo de trabalho manual, que requeria um grande número de trabalhadores. Desta forma, o container contribui para a redução deste contingente e, consequentemente, para a implantação destas políticas.
Realmente o container é a caixa que mudou o mundo, entretanto, podemos dizer que apenas porque o mundo também permitiu que ele o mudasse.
Referência bibliográfica
LEVINSON, Marc. The Box: how the shipping container made the world smaller and the world economy bigger. Princeton/USA: Princeton University Press, 2006
Mais de metade dos portugueses não usa internet
por Ana Rita Guerra, Publicado em 08 de Julho de 2010
Apenas 44,6% dos inquiridos declarou aceder à rede. Desinteresse e falta de conhecimento são principais motivos para afastamento
Não chega a 45% o número de portugueses que usam a internet, apesar de todos os incentivos à aquisição de computadores e de banda larga que foram dados nos últimos anos. O indicador consta de um estudo feito pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do ISCTE, que foi apresentado ontem durante a 11ª conferência anual do World Internet Project, em Lisboa.
Segundo o estudo, 55,4% dos portugueses não usam a internet - e destes, mais de metade não tem qualquer intenção de um dia vir a utilizar. Mais: o principal motivo apresentado (44,4%) é falta de interesse e de utilidade da rede. O desconhecimento de como se usa afasta 26,3% dos portugueses, mas apenas 10,2% apresenta como razão não ter computador ou acesso. Isto significa que os esforços dos últimos executivos até deram frutos na generalização da tecnologia, só que muitos portugueses não estão para aí virados.
A idade desempenha, obviamente, um papel importante nestes dados. A maioria dos não utilizadores tem mais de 65 anos (25%), seguida da faixa etária entre 55 e 64 anos (12,8%) e dos 45 aos 54 anos (11,4%). E porquê? "Falta de literacia, de conhecimento e de formação", segundo comenta Gabriel Coimbra, analista da consultora IDC. Algo que não acontece noutros países, por exemplo os nórdicos, onde as populações séniores são fortes utilizadoras da internet. Além disso, salienta o especialista, os programas de incentivo do governo incidiram sobretudo nas camadas mais jovens, que têm aproveitado essa disponibilidade tecnológica. Ainda assim, a IDC tem uma estimativa mais elevada - entre 55% e 60% da população será utilizadora da net.
Um dos dados mais significativos deste estudo, que foi conduzido pela Metris GfK, refere-se aos hábitos dos portugueses nas redes sociais. O Hi5 continua a ser rei e senhor da internet, com 75,6% das preferências, mostrando uma capacidade notável de resistência aos ataques do Facebook (que conquista 70,2%). O Twitter, com 13,9%, o MySpace com 11,7% e o Orkut com 10,2% completam o top cinco.
Amigos nas redes Outro dado importante: perto de 50% dos utilizadores destas redes sociais tem mais de 100 contactos nas suas listas de amigos. Quase todos justificaram o seu registo com "a possibilidade de partilhar ideias, vídeos e fotos, fazer contactos com outras pessoas e reforçar os laços sociais já existentes no mundo offline".
Os dados também incluem o LinkedIn, uma rede social virada para os contactos profissionais. Embora tenha apenas 1,6% de preferências, o LinkedIn representa a maior discrepância nos utilizadores: 80% são do sexo masculino.
Apenas 44,6% dos inquiridos declarou aceder à rede. Desinteresse e falta de conhecimento são principais motivos para afastamento
Não chega a 45% o número de portugueses que usam a internet, apesar de todos os incentivos à aquisição de computadores e de banda larga que foram dados nos últimos anos. O indicador consta de um estudo feito pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do ISCTE, que foi apresentado ontem durante a 11ª conferência anual do World Internet Project, em Lisboa.
Segundo o estudo, 55,4% dos portugueses não usam a internet - e destes, mais de metade não tem qualquer intenção de um dia vir a utilizar. Mais: o principal motivo apresentado (44,4%) é falta de interesse e de utilidade da rede. O desconhecimento de como se usa afasta 26,3% dos portugueses, mas apenas 10,2% apresenta como razão não ter computador ou acesso. Isto significa que os esforços dos últimos executivos até deram frutos na generalização da tecnologia, só que muitos portugueses não estão para aí virados.
A idade desempenha, obviamente, um papel importante nestes dados. A maioria dos não utilizadores tem mais de 65 anos (25%), seguida da faixa etária entre 55 e 64 anos (12,8%) e dos 45 aos 54 anos (11,4%). E porquê? "Falta de literacia, de conhecimento e de formação", segundo comenta Gabriel Coimbra, analista da consultora IDC. Algo que não acontece noutros países, por exemplo os nórdicos, onde as populações séniores são fortes utilizadoras da internet. Além disso, salienta o especialista, os programas de incentivo do governo incidiram sobretudo nas camadas mais jovens, que têm aproveitado essa disponibilidade tecnológica. Ainda assim, a IDC tem uma estimativa mais elevada - entre 55% e 60% da população será utilizadora da net.
Um dos dados mais significativos deste estudo, que foi conduzido pela Metris GfK, refere-se aos hábitos dos portugueses nas redes sociais. O Hi5 continua a ser rei e senhor da internet, com 75,6% das preferências, mostrando uma capacidade notável de resistência aos ataques do Facebook (que conquista 70,2%). O Twitter, com 13,9%, o MySpace com 11,7% e o Orkut com 10,2% completam o top cinco.
Amigos nas redes Outro dado importante: perto de 50% dos utilizadores destas redes sociais tem mais de 100 contactos nas suas listas de amigos. Quase todos justificaram o seu registo com "a possibilidade de partilhar ideias, vídeos e fotos, fazer contactos com outras pessoas e reforçar os laços sociais já existentes no mundo offline".
Os dados também incluem o LinkedIn, uma rede social virada para os contactos profissionais. Embora tenha apenas 1,6% de preferências, o LinkedIn representa a maior discrepância nos utilizadores: 80% são do sexo masculino.
Olhar privilegiado
terça-feira, 6 de julho de 2010 7:00
Ângela Corrêa
O sociólogo José de Souza Martins, de São Caetano, expõe ao público a partir de hoje uma faceta menos conhecida de grande parte do público. Professor emérito da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, Martins costuma ser mencionado por sua capacidade como observador em livros (um deles é Sociologia da Fotografia e da Imagem) e estudos que dialogam com a fotografia. Pois na mostra "Câmera Nômade", em cartaz na Pinacoteca Municipal de São Caetano, ele exibe, literalmente, o olhar privilegiado que exercita desde a adolescência.
"Nesta exposição há algumas das primeiras fotos que fiz em épica e solitária viagem ferroviária através de São Paulo, Mato Grosso e Bolívia, até as ruínas da cidade pré-incaica de Tiahuanacu, perto do Lago Titicaca e da fronteira com o Peru. Praticamente atravessei a América do Sul, em janeiro de 1958", relembra.
Martins não dissimula em seus trabalhos seu papel como observador social. "Está presente em muitas de minhas fotografias. Mas cada vez mais interesso-me por detalhes, formas e texturas", pondera.
Um clima soturno está presente em várias das imagens, captadas à noite ou em dias chuvosos, de baixa claridade. "São fotografias da solidão e do vazio. Essa é a razão pela qual gosto de fotografar em Cambridge, Inglaterra, cidade onde vivi em várias ocasiões, de cuja universidade fui professor", lembra, destacando que na cidade medieval escurece cedo e chove muito, proporcionando sombras e pouca luminosidade.
A mostra tem 100 imagens em preto e branco feitas em diversas viagens pelo Brasil e Estados Unidos, além da América do Sul e da Europa, claro. As imagens foram produzidas com filme fotográfico, de 35 mm. Embora o filme seja a preferência do sociólogo, no cotidiano ele se utiliza de uma câmera digital, mais prática.
Na lista dos momentos captados, paisagens e detalhes belíssimos do centro paulistano, como a sombra do parapeito do viaduto Santa Efigênia refletida no chão.
Em visitas a Paranapiacaba, o sociólogo conseguiu brilhantes imagens de trilhos e ruínas cobertas pela famosa neblina da Vila.
Câmera Nômade - Exposição. Abertura hoje, às 19h30. Até 14 de agosto. Na Pinacoteca de São Caetano - Av. Dr. Augusto de Toledo, 255. Tel.: 4232-1237. Entrada franca
Ângela Corrêa
O sociólogo José de Souza Martins, de São Caetano, expõe ao público a partir de hoje uma faceta menos conhecida de grande parte do público. Professor emérito da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, Martins costuma ser mencionado por sua capacidade como observador em livros (um deles é Sociologia da Fotografia e da Imagem) e estudos que dialogam com a fotografia. Pois na mostra "Câmera Nômade", em cartaz na Pinacoteca Municipal de São Caetano, ele exibe, literalmente, o olhar privilegiado que exercita desde a adolescência.
"Nesta exposição há algumas das primeiras fotos que fiz em épica e solitária viagem ferroviária através de São Paulo, Mato Grosso e Bolívia, até as ruínas da cidade pré-incaica de Tiahuanacu, perto do Lago Titicaca e da fronteira com o Peru. Praticamente atravessei a América do Sul, em janeiro de 1958", relembra.
Martins não dissimula em seus trabalhos seu papel como observador social. "Está presente em muitas de minhas fotografias. Mas cada vez mais interesso-me por detalhes, formas e texturas", pondera.
Um clima soturno está presente em várias das imagens, captadas à noite ou em dias chuvosos, de baixa claridade. "São fotografias da solidão e do vazio. Essa é a razão pela qual gosto de fotografar em Cambridge, Inglaterra, cidade onde vivi em várias ocasiões, de cuja universidade fui professor", lembra, destacando que na cidade medieval escurece cedo e chove muito, proporcionando sombras e pouca luminosidade.
A mostra tem 100 imagens em preto e branco feitas em diversas viagens pelo Brasil e Estados Unidos, além da América do Sul e da Europa, claro. As imagens foram produzidas com filme fotográfico, de 35 mm. Embora o filme seja a preferência do sociólogo, no cotidiano ele se utiliza de uma câmera digital, mais prática.
Na lista dos momentos captados, paisagens e detalhes belíssimos do centro paulistano, como a sombra do parapeito do viaduto Santa Efigênia refletida no chão.
Em visitas a Paranapiacaba, o sociólogo conseguiu brilhantes imagens de trilhos e ruínas cobertas pela famosa neblina da Vila.
Câmera Nômade - Exposição. Abertura hoje, às 19h30. Até 14 de agosto. Na Pinacoteca de São Caetano - Av. Dr. Augusto de Toledo, 255. Tel.: 4232-1237. Entrada franca
A música de volta à escola
Depois de quase quatro décadas em extinção no currículo escolar, disciplina de musicalização volta ao ensino a partir do ano que vem
aria Gizele da Silva, da sucursal Ponta Grossa - Colaborou Pollianna Milan
A música não faz bem apenas para os ouvidos. Ajuda também a criança a desenvolver a coordenação motora, a expressão corporal, o raciocínio e a matemática. Esta nova visão sobre os benefícios da musicalização ajudou na aprovação de uma nova lei que vai entrar em vigor no ano que vem: todas as escolas terão de incluir a disciplina de Música no currículo escolar.
Quem já teve contato com a disciplina, como a estudante Nicolle Heep, 13 anos, percebe os benefícios. “Comecei tocando violino, passei para a flauta e o piano. Hoje consigo ter mais concentração e muita facilidade para aprender os conteúdos”, diz Nicolle. A mãe de Nicolle, Lirian Hepp, sempre incentivou os três filhos a tocar instrumentos. “Eles nunca precisaram de reforço escolar. Não sei se podemos dar o mérito apenas à música, mas acho que contribui bastante”, diz Lirian.
A Música existiu nas escolas até 1972. Depois disso, foi incluída timidamente nas disciplinas de Educação Artística e Arte. A velha visão polivalente da matéria agora será substituída pela lei 11.769, de 2008, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases e incluiu a música como ensino obrigatório em 2011.
A lei é sucinta. Não cita para quais séries é destinada nem o formato e o conteúdo das aulas. O Ministério da Educação (MEC) recomenda apenas que os alunos recebam noções básicas de música, dos hinos cívicos, dos sons de instrumentos de orquestras e os sons folclóricos e regionais. As diretrizes mais específicas serão traçadas pelos conselhos municipais e estaduais de Educação.
Para o professor, músico e escritor Guilherme Campos, do Colégio Dom Bosco, o ideal seria que a música fosse ensinada do primeiro ao nono ano do ensino fundamental. No ensino médio deveria ser uma disciplina optativa.
Como a disciplina de Musicalização existe há 20 anos no Dom Bosco, definiu-se um currículo em três etapas. Crianças até a 2.ª série trabalham com a sensibilização para os ritmos, instrumentos, melodias e sons mais intensos e outros mais fracos. A partir da 3.ª série tem contato com a flauta como instrumento e na 8.ª e 9.ª série trabalham o canto. “A flauta é ideal como instrumento musicalizador porque é fácil de tocar e de ser adquirida. Temos ainda uma sala com piano e os alunos podem trazer os instrumentos que quiserem”, explica Campos.
A presidente da Associação Brasileira de Educação Musical, Magali Oliveira Kleber, diz que é importante que a música seja tratada pela escola como produção de conhecimento e que as propostas pedagógicas levem em conta as raízes culturais regionais. Para Magali, a retomada da educação musical é fruto do trabalho de gerações de educadores e deve ser aproveitada ao máximo.
Trabalhar a música como meio de integração de grupo, respeitando as limitações de cada um, é outro aspecto que Campos defende. “É como no esporte, alguns alunos têm mais aptidão. Contudo, dá para trabalhar com todos.”
Com o retorno do ensino de música, os professores acreditam que a escola vai cumprir o objetivo da formação integral. O vice-coordenador do curso de Música da Universidade Federal de Ponta Grossa (UEPG), Rogério de Brito Pergolb, afirma que sem o ensino formal da música o aluno acaba aceitando pacificamente tudo o que a mídia lhe oferece.
O diretor do conservatório municipal de música de Ponta Grossa, Jairo Ferreira, acrescenta que o aprendizado da música oferece disciplina e concentração. “A música faz parte da formação do ser humano. Hoje o Brasil é carente de ética e disciplina e eu acho que o ensino da música tem muito a contribuir”, opina.
aria Gizele da Silva, da sucursal Ponta Grossa - Colaborou Pollianna Milan
A música não faz bem apenas para os ouvidos. Ajuda também a criança a desenvolver a coordenação motora, a expressão corporal, o raciocínio e a matemática. Esta nova visão sobre os benefícios da musicalização ajudou na aprovação de uma nova lei que vai entrar em vigor no ano que vem: todas as escolas terão de incluir a disciplina de Música no currículo escolar.
Quem já teve contato com a disciplina, como a estudante Nicolle Heep, 13 anos, percebe os benefícios. “Comecei tocando violino, passei para a flauta e o piano. Hoje consigo ter mais concentração e muita facilidade para aprender os conteúdos”, diz Nicolle. A mãe de Nicolle, Lirian Hepp, sempre incentivou os três filhos a tocar instrumentos. “Eles nunca precisaram de reforço escolar. Não sei se podemos dar o mérito apenas à música, mas acho que contribui bastante”, diz Lirian.
A Música existiu nas escolas até 1972. Depois disso, foi incluída timidamente nas disciplinas de Educação Artística e Arte. A velha visão polivalente da matéria agora será substituída pela lei 11.769, de 2008, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases e incluiu a música como ensino obrigatório em 2011.
A lei é sucinta. Não cita para quais séries é destinada nem o formato e o conteúdo das aulas. O Ministério da Educação (MEC) recomenda apenas que os alunos recebam noções básicas de música, dos hinos cívicos, dos sons de instrumentos de orquestras e os sons folclóricos e regionais. As diretrizes mais específicas serão traçadas pelos conselhos municipais e estaduais de Educação.
Para o professor, músico e escritor Guilherme Campos, do Colégio Dom Bosco, o ideal seria que a música fosse ensinada do primeiro ao nono ano do ensino fundamental. No ensino médio deveria ser uma disciplina optativa.
Como a disciplina de Musicalização existe há 20 anos no Dom Bosco, definiu-se um currículo em três etapas. Crianças até a 2.ª série trabalham com a sensibilização para os ritmos, instrumentos, melodias e sons mais intensos e outros mais fracos. A partir da 3.ª série tem contato com a flauta como instrumento e na 8.ª e 9.ª série trabalham o canto. “A flauta é ideal como instrumento musicalizador porque é fácil de tocar e de ser adquirida. Temos ainda uma sala com piano e os alunos podem trazer os instrumentos que quiserem”, explica Campos.
A presidente da Associação Brasileira de Educação Musical, Magali Oliveira Kleber, diz que é importante que a música seja tratada pela escola como produção de conhecimento e que as propostas pedagógicas levem em conta as raízes culturais regionais. Para Magali, a retomada da educação musical é fruto do trabalho de gerações de educadores e deve ser aproveitada ao máximo.
Trabalhar a música como meio de integração de grupo, respeitando as limitações de cada um, é outro aspecto que Campos defende. “É como no esporte, alguns alunos têm mais aptidão. Contudo, dá para trabalhar com todos.”
Com o retorno do ensino de música, os professores acreditam que a escola vai cumprir o objetivo da formação integral. O vice-coordenador do curso de Música da Universidade Federal de Ponta Grossa (UEPG), Rogério de Brito Pergolb, afirma que sem o ensino formal da música o aluno acaba aceitando pacificamente tudo o que a mídia lhe oferece.
O diretor do conservatório municipal de música de Ponta Grossa, Jairo Ferreira, acrescenta que o aprendizado da música oferece disciplina e concentração. “A música faz parte da formação do ser humano. Hoje o Brasil é carente de ética e disciplina e eu acho que o ensino da música tem muito a contribuir”, opina.
Entre os candidatos ao pleito de outubro no DF, 75% são homens e 47,9%
Juliana Boechat
Publicação: 11/07/2010 08:12 Atualização: 11/07/2010 09:11
Os candidatos que concorrerão aos cargos públicos do Distrito Federal nas eleições de outubro deste ano seguem um padrão. O levantamento feito pelo Correio mostra que grande parte das pessoas lançadas ao governo é homem, tem aproximadamente 45 anos, cursou a universidade e nasceu no DF. Especialistas em sociologia e em políticas públicas acreditam que o tipo comum de político é escolhido pelos partidos e lançados à vontade da população. Os eleitores, então, devem escolher entre as opções disponíveis em quem vão depositar o voto de confiança nas urnas. Apesar da regra de que 30% dos candidatos lançados pelas coligações devem ser mulheres, na corrida para a Câmara Legislativa apenas 24,9% são do sexo feminino. A esmagadora maioria (75,1%) é composto por homens. Significa dizer que, para cada candidata, há três homens na disputa.
O professor de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Eurico Santos acredita que a principal questão é descobrir porque os partidos estão apresentando esse tipo de político à população e, então, o motivo de os eleitores votarem nos candidatos padronizados. “Há uma oferta nesse sentido por parte das legendas. Em segundo plano, devemos entender que a demanda da população tem uma escolha a fazer sobre essa oferta que está aí”, acredita.
Segundo ele, os partidos escolhem os homens de aproximadamente 45 anos e graduados porque este tipo de gente domina as estruturas partidárias. E, de forma secundária, o professor ressalta a afinidade da população com os traços culturais desses rostos políticos. “Os homens estão nas famílias e as mulheres sofrem cada vez menos preconceitos tradicionais. O problema é que poucas mulheres ainda estão interessadas na política.” Um estudo citado por Santos mostra que não há grandes diferenças na atuação parlamentar de homens e mulheres.
O especialista em políticas públicas da Universidade Católica de Brasília (UCB) Emerson Masullo acredita que a participação da mulher na política é uma tendência. “A quantidade de mulheres ainda é pequena. Mas seria uma boa opção. A mulher tem facilidade de realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo e de ser mais reflexiva do que reativa”, defendeu.
Para ele, a maioria dos candidatos do Distrito Federal têm nível superior completo porque a população está inserida no serviço público. Masullo defende que a localidade também é um fato a ser considerado. “O candidato daqui da terra pelo menos cresceu e conhece de perto a sociedade em que vive. O risco da demagogia, em tese, seria menor. Esses candidatos que estão na faixa etária são filhos da terra”, considera.
Publicação: 11/07/2010 08:12 Atualização: 11/07/2010 09:11
Os candidatos que concorrerão aos cargos públicos do Distrito Federal nas eleições de outubro deste ano seguem um padrão. O levantamento feito pelo Correio mostra que grande parte das pessoas lançadas ao governo é homem, tem aproximadamente 45 anos, cursou a universidade e nasceu no DF. Especialistas em sociologia e em políticas públicas acreditam que o tipo comum de político é escolhido pelos partidos e lançados à vontade da população. Os eleitores, então, devem escolher entre as opções disponíveis em quem vão depositar o voto de confiança nas urnas. Apesar da regra de que 30% dos candidatos lançados pelas coligações devem ser mulheres, na corrida para a Câmara Legislativa apenas 24,9% são do sexo feminino. A esmagadora maioria (75,1%) é composto por homens. Significa dizer que, para cada candidata, há três homens na disputa.
O professor de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Eurico Santos acredita que a principal questão é descobrir porque os partidos estão apresentando esse tipo de político à população e, então, o motivo de os eleitores votarem nos candidatos padronizados. “Há uma oferta nesse sentido por parte das legendas. Em segundo plano, devemos entender que a demanda da população tem uma escolha a fazer sobre essa oferta que está aí”, acredita.
Segundo ele, os partidos escolhem os homens de aproximadamente 45 anos e graduados porque este tipo de gente domina as estruturas partidárias. E, de forma secundária, o professor ressalta a afinidade da população com os traços culturais desses rostos políticos. “Os homens estão nas famílias e as mulheres sofrem cada vez menos preconceitos tradicionais. O problema é que poucas mulheres ainda estão interessadas na política.” Um estudo citado por Santos mostra que não há grandes diferenças na atuação parlamentar de homens e mulheres.
O especialista em políticas públicas da Universidade Católica de Brasília (UCB) Emerson Masullo acredita que a participação da mulher na política é uma tendência. “A quantidade de mulheres ainda é pequena. Mas seria uma boa opção. A mulher tem facilidade de realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo e de ser mais reflexiva do que reativa”, defendeu.
Para ele, a maioria dos candidatos do Distrito Federal têm nível superior completo porque a população está inserida no serviço público. Masullo defende que a localidade também é um fato a ser considerado. “O candidato daqui da terra pelo menos cresceu e conhece de perto a sociedade em que vive. O risco da demagogia, em tese, seria menor. Esses candidatos que estão na faixa etária são filhos da terra”, considera.
Sociólogo Gilberto Freyre abre o livro de sua vida
Cristie Buchdid
Do Diário do Grande ABC
A sinceridade na revelação de cada momento difícil, de preocupações, de suas dores e amores, constrói ambiente íntimo entre o leitor e o autor, Gilberto Freyre (1900 - 1987), em sua obra autobiográfica De Menino a Homem - De Mais de Trinta e de Quarenta, de Sessenta e Mais Anos (Global, 256 págs., R$ 59).
Nos relatos, muitos deles em primeira pessoa, tem-se a impressão de que o ícone da sociologia que dedicou a vida a entender o que era o Brasil mantém conversa confidencial com o leitor.
Os manuscritos localizados no Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre, em Recife, cidade onde nasceu e morreu, oferecem reflexão intimista de sua vida pessoal, acadêmica e política nas décadas de 1930 a 1980. Pode ser considerado continuação de Tempo Morto e Outros Tempos, diário publicado em 1975 que conta sua adolescência e primeira fase da vida adulta, de 1915 a 1930.
Boa parte da obra De Menino a Homem é dedicada aos anos 1930, década que começou com um ‘golpe'' para o clã Freyre. "A Revolução de 1930 alterou o cenário político em Pernambuco. Acusado pela Aliança Liberal de envolvimento no assassinato de João Pessoa (...), o governador Estácio Coimbra foi forçado a exilar-se na Europa. Gilberto Freyre, que desde 1927 assumira o cargo de oficial de gabinete de Estácio Coimbra, seguiu com ele num navio para Lisboa", cita o historiador Gustavo Henrique Tuna em nota no livro. No mesmo 1930, a casa dos pais de Freyre, no Recife, foi assaltada e queimada por integrantes da Aliança. No exílio amargo, conheceu até mesmo a fome.
O recomeço de vida veio com o convite inesperado para ser professor na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. "Minha recuperação pessoal tendo começado no estrangeiro em 31 - em Stanford - veio confirmar-se dez anos depois, com o casamento com Magdalena (Guedes Pereira)", cita o autor, que após a união aumentou a atividade intelectual e acentuou contatos internacionais. Outro momento marcante bem abordado é o lançamento de sua obra-mestra Casa-Grande & Senzala. Seu êxito imediato surpreendeu o autor, que às vezes distancia-se das histórias, relatando conquistas em terceira pessoa, como se buscasse tom humilde.
De Menino a Homem também traz caderno iconográfico em estilo álbum de família e anexos com artigos de Freyre publicados em jornais, revistas e outros livros.
Do Diário do Grande ABC
A sinceridade na revelação de cada momento difícil, de preocupações, de suas dores e amores, constrói ambiente íntimo entre o leitor e o autor, Gilberto Freyre (1900 - 1987), em sua obra autobiográfica De Menino a Homem - De Mais de Trinta e de Quarenta, de Sessenta e Mais Anos (Global, 256 págs., R$ 59).
Nos relatos, muitos deles em primeira pessoa, tem-se a impressão de que o ícone da sociologia que dedicou a vida a entender o que era o Brasil mantém conversa confidencial com o leitor.
Os manuscritos localizados no Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre, em Recife, cidade onde nasceu e morreu, oferecem reflexão intimista de sua vida pessoal, acadêmica e política nas décadas de 1930 a 1980. Pode ser considerado continuação de Tempo Morto e Outros Tempos, diário publicado em 1975 que conta sua adolescência e primeira fase da vida adulta, de 1915 a 1930.
Boa parte da obra De Menino a Homem é dedicada aos anos 1930, década que começou com um ‘golpe'' para o clã Freyre. "A Revolução de 1930 alterou o cenário político em Pernambuco. Acusado pela Aliança Liberal de envolvimento no assassinato de João Pessoa (...), o governador Estácio Coimbra foi forçado a exilar-se na Europa. Gilberto Freyre, que desde 1927 assumira o cargo de oficial de gabinete de Estácio Coimbra, seguiu com ele num navio para Lisboa", cita o historiador Gustavo Henrique Tuna em nota no livro. No mesmo 1930, a casa dos pais de Freyre, no Recife, foi assaltada e queimada por integrantes da Aliança. No exílio amargo, conheceu até mesmo a fome.
O recomeço de vida veio com o convite inesperado para ser professor na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. "Minha recuperação pessoal tendo começado no estrangeiro em 31 - em Stanford - veio confirmar-se dez anos depois, com o casamento com Magdalena (Guedes Pereira)", cita o autor, que após a união aumentou a atividade intelectual e acentuou contatos internacionais. Outro momento marcante bem abordado é o lançamento de sua obra-mestra Casa-Grande & Senzala. Seu êxito imediato surpreendeu o autor, que às vezes distancia-se das histórias, relatando conquistas em terceira pessoa, como se buscasse tom humilde.
De Menino a Homem também traz caderno iconográfico em estilo álbum de família e anexos com artigos de Freyre publicados em jornais, revistas e outros livros.
Mulheres à procura do seu par ideal
Christiana Martins (www.expresso.pt)
11:56 Quinta feira, 15 de Julho de 2010
Era uma vez uma princesa linda, que passou por poucas e boas, até que apareceu um príncipe, bonito, bem educado e rico, que a sentou no seu cavalo. Juntos, partiram em direção ao infinito. Ah! E foram felizes para sempre. Por mais que o tempo passe, por mais que os brinquedos mudem, as primeiras histórias que muitas meninas ouvem ainda remetem para a mitologia de uma relação conjugal perfeita e sem atritos.
Mas as meninas crescem, não se transformam em princesas, e os príncipes, que não abundam, não andam a cavalo e não as levam numa viagem infinita. E, sobretudo, o casal não acaba por ser feliz para sempre. Mas o eco da história continua a ressoar em muitas cabeças, complicando a vida real. O tema pode parecer um conto da Carochinha, mas o assunto é muito sério. Capaz de gerar frustrações, porque as mulheres continuam a procurar um parceiro ideal. A sua cara-metade, o que falta para a plenitude. Esta questão transformou-se num sério tema de pesquisa sociológica.
Quem casa com quem, por exemplo, é um assunto resolvido. Em geral, as escolhas são feitas dentro do universo conhecido pelos pares. Ou seja, como explica a socióloga Anália Torres - especializada nos temas da família, género e casamento -, "os critérios de proximidade são fundamentais, e os locais de encontro surgem dentro dos mesmos grupos, como as vizinhanças, os círculos de amizade, os locais de estudo dos membros do casal". O que nos permite concluir também que as relações são a causa e a consequência do perpetuar de uma certa estratificação social.
A Internet está a provocar mudanças, porque o sítio de encontros alargou-se para o mundo todo, mas, como explica a investigadora, "há pesquisas que já demonstram que, para passar do mundo virtual aos encontros presenciais, eles e elas pedem identificações reais do potencial parceiro".
11:56 Quinta feira, 15 de Julho de 2010
Era uma vez uma princesa linda, que passou por poucas e boas, até que apareceu um príncipe, bonito, bem educado e rico, que a sentou no seu cavalo. Juntos, partiram em direção ao infinito. Ah! E foram felizes para sempre. Por mais que o tempo passe, por mais que os brinquedos mudem, as primeiras histórias que muitas meninas ouvem ainda remetem para a mitologia de uma relação conjugal perfeita e sem atritos.
Mas as meninas crescem, não se transformam em princesas, e os príncipes, que não abundam, não andam a cavalo e não as levam numa viagem infinita. E, sobretudo, o casal não acaba por ser feliz para sempre. Mas o eco da história continua a ressoar em muitas cabeças, complicando a vida real. O tema pode parecer um conto da Carochinha, mas o assunto é muito sério. Capaz de gerar frustrações, porque as mulheres continuam a procurar um parceiro ideal. A sua cara-metade, o que falta para a plenitude. Esta questão transformou-se num sério tema de pesquisa sociológica.
Quem casa com quem, por exemplo, é um assunto resolvido. Em geral, as escolhas são feitas dentro do universo conhecido pelos pares. Ou seja, como explica a socióloga Anália Torres - especializada nos temas da família, género e casamento -, "os critérios de proximidade são fundamentais, e os locais de encontro surgem dentro dos mesmos grupos, como as vizinhanças, os círculos de amizade, os locais de estudo dos membros do casal". O que nos permite concluir também que as relações são a causa e a consequência do perpetuar de uma certa estratificação social.
A Internet está a provocar mudanças, porque o sítio de encontros alargou-se para o mundo todo, mas, como explica a investigadora, "há pesquisas que já demonstram que, para passar do mundo virtual aos encontros presenciais, eles e elas pedem identificações reais do potencial parceiro".
Lançada Revista Angolana de Sociologia
16-07-2010 / 12:44 / TPA
Uma Revista Angolana de Sociologia, RAS, foi lançada em Luanda, e vai publicar textos de autores angolanos e estrangeiros, que reflictam o pensamento dos sociólogos sobre as mudanças sócio – políticas e económicas do país.
A publicação pretende trazer a debate fenómenos da actualidade social angolana, a fim de contribuir para o desafio diário dos sociólogos que se propõem em apoiar na resolução dos problemas que afligem o dia – dia, dos cidadãos.
Segundo o Director da RAS, Victor Kajibanga, pretende-se desta forma fomentar o debate de ideias, bem como a produção e reprodução de saberes, que se apresentam como fragilidades da academia angolana.
De notar que, a revista que vai custar 3 mil Kwanzas, terá periodicidade semestral e conta já com três volumes publicados.
Uma Revista Angolana de Sociologia, RAS, foi lançada em Luanda, e vai publicar textos de autores angolanos e estrangeiros, que reflictam o pensamento dos sociólogos sobre as mudanças sócio – políticas e económicas do país.
A publicação pretende trazer a debate fenómenos da actualidade social angolana, a fim de contribuir para o desafio diário dos sociólogos que se propõem em apoiar na resolução dos problemas que afligem o dia – dia, dos cidadãos.
Segundo o Director da RAS, Victor Kajibanga, pretende-se desta forma fomentar o debate de ideias, bem como a produção e reprodução de saberes, que se apresentam como fragilidades da academia angolana.
De notar que, a revista que vai custar 3 mil Kwanzas, terá periodicidade semestral e conta já com três volumes publicados.
Médicos apóiam fim das palmadas
Psicólogos e pediatras defendem projeto de lei que proíbe qualquer tipo de castigo físico em crianças, e dizem que palmadas ou beliscões atrapalham o desenvolvimento mental, acabam com a autoestima e não servem como medida para educar os filhos.
Políticos guardam R$ 17 mi no colchão
O hábito de ter dinheiro em espécie está espalhado entre políticos de todos o país. Dos 1.126 candidatos (à Presidência, aos governos e ao Senado, incluindo os suplentes) que já tiveram o registro divulgado pela Justiça Eleitoral, 63 informaram ter R$ 17 milhões em espécie. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), declarou ter 90% do seu patrimônio "em espécie": de R$ 607 mil que informou à Justiça, R$ 545 mil estão "em poder do declarante."
O restante se resume a um terreno na praia (R$ 4.000), ações de companhia telefônica (R$ 31 mil) e saldo em conta corrente (R$ 27.856). Por meio da assessoria, Jucá disse que o valor está declarado e que não há ilegalidade. A prática não é ilegal, mas, na avaliação de especialistas em finanças domésticas, "não tem lógica" guardar dinheiro em espécie porque o dinheiro perde valor. O rendimento médio mensal da poupança, um dos investimentos mais conservadores do mercado, é de 0,5%.
O restante se resume a um terreno na praia (R$ 4.000), ações de companhia telefônica (R$ 31 mil) e saldo em conta corrente (R$ 27.856). Por meio da assessoria, Jucá disse que o valor está declarado e que não há ilegalidade. A prática não é ilegal, mas, na avaliação de especialistas em finanças domésticas, "não tem lógica" guardar dinheiro em espécie porque o dinheiro perde valor. O rendimento médio mensal da poupança, um dos investimentos mais conservadores do mercado, é de 0,5%.
20 candidatos mais ricos acumulam R$ 1,4 bilhão
candidatos a presidente nas eleições de 2006. Seria suficiente para, mantidos os custos, bancar campanhas presidenciais até 2054. A Folha pesquisou declarações de bens de mais de 6.800 candidatos a governador, vice-governador, senador e deputado federal registradas no site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). São R$ 4,1 bilhões nos cofres de 20 brasileiros. A soma do patrimônio de pessoa física declarado à Receita inclui propriedades rurais, participação em centenas de empresas, além de 45 carros, 78 casas e apartamentos.
Quem encabeça a lista é o neopolítico Guilherme Leal, um dos controladores da Natura, gigante dos cosméticos, que tenta sua primeira eleição como candidato a vice-presidente da República pelo PV, na chapa de Marina Silva. É o único acima da marca do bilhão na lista. O menos aquinhoado no clube dos super-ricos é o ex-ministro das Comunicações Eunício Oliveira (PMDB-CE), que tenta o Senado, com patrimônio de R$ 36,7 milhões.
Quem encabeça a lista é o neopolítico Guilherme Leal, um dos controladores da Natura, gigante dos cosméticos, que tenta sua primeira eleição como candidato a vice-presidente da República pelo PV, na chapa de Marina Silva. É o único acima da marca do bilhão na lista. O menos aquinhoado no clube dos super-ricos é o ex-ministro das Comunicações Eunício Oliveira (PMDB-CE), que tenta o Senado, com patrimônio de R$ 36,7 milhões.
Por onde andará o controle operário dos portuários?
Texto publicado em 20 de Julho de 2010 -
por Carla Diéguez
Aqueles que acompanham esta coluna sabem que estou cursando o doutorado, no qual realizo uma pesquisa sobre os trabalhadores portuários. Desta forma, venho me dedicando a leituras sobre trabalho e trabalhadores, aprendendo inúmeros conceitos necessários para a compreensão e entendimento do mundo do trabalho, entre os quais está o conceito de controle operário.
Dois autores se destacam na conformação deste conceito: Jonathan Brown e David Montgomery. Para o primeiro, controle operário refere-se tanto ao controle dos trabalhadores sobre os meios de produção, como ao controle do trabalhador sobre a sua vida de trabalho, dando-o poder para controlar não apenas a sua vida no ambiente de trabalho, mas também fora dele.
Já para David Montgomery, autor que consagrou este conceito, o controle operário está fundamentado em 3 elementos: a autonomia do trabalhador no processo de trabalho, normas sindicais que regulam o mercado de trabalho e o exercício do trabalho e o apoio mútuo entre os trabalhadores.
A partir destas leituras realizei uma breve análise sobre os trabalhadores portuários e percebi que antes da modernização, estes trabalhadores foram detentores do controle operário, com seu domínio sobre o processo de trabalho, o controle do mercado pelo sistema de closed-shop e a solidariedade característica desta profissão. Entretanto, ao tentar identificar estes elementos na atualidade, não consegui encontrar. Desta forma, não busco respostas, apenas pergunto: este controle se esvaiu ou ainda vive em algum lugar? Se ele se foi, a quem cabe a sua perda: a lei, a automação ou as entidades sindicais? Coloco estas questões para que possamos refletir o que fomos, o que somos e o que queremos.
por Carla Diéguez
Aqueles que acompanham esta coluna sabem que estou cursando o doutorado, no qual realizo uma pesquisa sobre os trabalhadores portuários. Desta forma, venho me dedicando a leituras sobre trabalho e trabalhadores, aprendendo inúmeros conceitos necessários para a compreensão e entendimento do mundo do trabalho, entre os quais está o conceito de controle operário.
Dois autores se destacam na conformação deste conceito: Jonathan Brown e David Montgomery. Para o primeiro, controle operário refere-se tanto ao controle dos trabalhadores sobre os meios de produção, como ao controle do trabalhador sobre a sua vida de trabalho, dando-o poder para controlar não apenas a sua vida no ambiente de trabalho, mas também fora dele.
Já para David Montgomery, autor que consagrou este conceito, o controle operário está fundamentado em 3 elementos: a autonomia do trabalhador no processo de trabalho, normas sindicais que regulam o mercado de trabalho e o exercício do trabalho e o apoio mútuo entre os trabalhadores.
A partir destas leituras realizei uma breve análise sobre os trabalhadores portuários e percebi que antes da modernização, estes trabalhadores foram detentores do controle operário, com seu domínio sobre o processo de trabalho, o controle do mercado pelo sistema de closed-shop e a solidariedade característica desta profissão. Entretanto, ao tentar identificar estes elementos na atualidade, não consegui encontrar. Desta forma, não busco respostas, apenas pergunto: este controle se esvaiu ou ainda vive em algum lugar? Se ele se foi, a quem cabe a sua perda: a lei, a automação ou as entidades sindicais? Coloco estas questões para que possamos refletir o que fomos, o que somos e o que queremos.
Chacina de Acari prescreve neste domingo, após 20 anos
Publicada em 24/07/2010 às 23h10m Gustavo Goulart
Números inéditos que estão sendo usados numa tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelam que, de 1991 até maio deste ano, 75.183 pessoas desapareceram no estado. Fábio Araújo, mestre em sociologia e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, sustenta que, desse total, cerca de 10% (7.518 pessoas) foram vítimas de homicídios. Em sua pesquisa, iniciada em 2008, Araújo mostra o perfil dos desaparecidos e se debruça num caso rumoroso, a chamada Chacina de Acari, que completará 20 anos nesta segunda-feira e prescreverá.
Vítimas são homens jovens, moradores de favelas
A série histórica de desaparecidos foi elaborada pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) e mostra variações para mais e para menos ao longo dos anos. Com base nos dados, Araújo elabora um ensaio etnográfico dos desaparecidos.
- Geralmente, são homens, jovens, na faixa etária de 18 a 24 anos, e moradores de favelas. Os autores são policiais, milicianos ou traficantes. As mães de Acari (como ficaram conhecidas as mães dos 11 desaparecidos em 26 de julho de 1990) fizeram um trabalho de limpeza moral para provar que seus filhos não eram criminosos. E mesmo que fossem, não deveriam sumir ou ser executados. Há uma ideologia de que, no Brasil, bandido pode ser morto - analisa Araújo, que entrevistou 22 famílias de desaparecidos para sua tese, entre elas, mães dos jovens de Acari e também de oito sumidos de Vigário Geral em 2005.
Às 23h30m de amanhã, chegará a um fim infrutífero um dos mais intrincados inquéritos de que se tem notícia na polícia e no Ministério Público do Rio de Janeiro. Os crimes a que responderiam os responsáveis pela Chacina de Acari prescrevem nesta segunda-feira, após 20 anos. Na sexta-feira, através de e-mail enviado ao GLOBO, o MP praticamente se despediu do caso.
- Lamentável episódio, que não deve ser esquecido, para que não se repitam outros tão cruéis - disse a promotora Cláudia das Graças Mattos de Oliveira Portocarrero, coordenadora da 3 Central de Inquéritos do Ministério Público, onde está o inquérito.
Números inéditos que estão sendo usados numa tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelam que, de 1991 até maio deste ano, 75.183 pessoas desapareceram no estado. Fábio Araújo, mestre em sociologia e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, sustenta que, desse total, cerca de 10% (7.518 pessoas) foram vítimas de homicídios. Em sua pesquisa, iniciada em 2008, Araújo mostra o perfil dos desaparecidos e se debruça num caso rumoroso, a chamada Chacina de Acari, que completará 20 anos nesta segunda-feira e prescreverá.
Vítimas são homens jovens, moradores de favelas
A série histórica de desaparecidos foi elaborada pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) e mostra variações para mais e para menos ao longo dos anos. Com base nos dados, Araújo elabora um ensaio etnográfico dos desaparecidos.
- Geralmente, são homens, jovens, na faixa etária de 18 a 24 anos, e moradores de favelas. Os autores são policiais, milicianos ou traficantes. As mães de Acari (como ficaram conhecidas as mães dos 11 desaparecidos em 26 de julho de 1990) fizeram um trabalho de limpeza moral para provar que seus filhos não eram criminosos. E mesmo que fossem, não deveriam sumir ou ser executados. Há uma ideologia de que, no Brasil, bandido pode ser morto - analisa Araújo, que entrevistou 22 famílias de desaparecidos para sua tese, entre elas, mães dos jovens de Acari e também de oito sumidos de Vigário Geral em 2005.
Às 23h30m de amanhã, chegará a um fim infrutífero um dos mais intrincados inquéritos de que se tem notícia na polícia e no Ministério Público do Rio de Janeiro. Os crimes a que responderiam os responsáveis pela Chacina de Acari prescrevem nesta segunda-feira, após 20 anos. Na sexta-feira, através de e-mail enviado ao GLOBO, o MP praticamente se despediu do caso.
- Lamentável episódio, que não deve ser esquecido, para que não se repitam outros tão cruéis - disse a promotora Cláudia das Graças Mattos de Oliveira Portocarrero, coordenadora da 3 Central de Inquéritos do Ministério Público, onde está o inquérito.
Número de professores com licenciatura é cada vez menor na rede de ensino de Joinville
Educação | 27/07/2010 | 07h58min
Dez a cada 30 professores de química, física e sociologia do ensino médio das escolas estaduais de Joinville não passaram por um curso de licenciatura nestas áreas, assim como 10% dos professores das demais disciplinas.
Estes números revelam um problema nacional que atinge também a cidade: a escassez de profissionais especializados para dar aulas em matérias como geografia, inglês e artes.
O problema é mais evidente na rede pública, onde os salários e as condições de trabalho fazem da sala de aula um campo de trabalho pouco atrativo.
Dez a cada 30 professores de química, física e sociologia do ensino médio das escolas estaduais de Joinville não passaram por um curso de licenciatura nestas áreas, assim como 10% dos professores das demais disciplinas.
Estes números revelam um problema nacional que atinge também a cidade: a escassez de profissionais especializados para dar aulas em matérias como geografia, inglês e artes.
O problema é mais evidente na rede pública, onde os salários e as condições de trabalho fazem da sala de aula um campo de trabalho pouco atrativo.
Sociologia do Rock
28/07/2010
UNIPAMPA Campus São Borja oferece DCG de Sociologia do Rock
A meta da disciplina complementar de graduação é fazer os estudantes pensarem de que formas a sociedade configura o rock e vice-versa. Para isso, as aulas relacionam momentos e episódios históricos às origens e desdobramentos do gênero musical. "É possível entender e estudar as alterações no mundo de 1950 para cá compreendendo o rock'n roll", afirma Beras.
Um conceito importante que vai ser usado na DCG é o de intercessor - que pode ser uma pessoa, um fato, um produto cultural - responsável por deflagrar uma mudança nas relações entre as pessoas e delas com as instituições. No caso do rock, as principais mudanças no mundo ocidental dos últimos 60 anos têm ligações com as ideias ventiladas para os jovens através das mais diversas bandas e propostas musicais - da Guerra Fria ao advento da cibercultura.
Aulas de sociologia do rock são comuns nos EUA por motivos óbvios, diz o professor, mas uma disciplina desse ramo de estudos sociais ainda não existia no Brasil - embora pesquisas em diversas áreas das Ciências Sociais abordem o gênero musical em suas ligações com a sociedade. Por isso, a DCG vai ser aperfeiçoada com a experiência obtida na versão intensiva. A dinâmica das aulas também busca inovar: além das exposições tradicionais, cinco palestras (batizadas de "Papo Rock"), ministradas pelos professores dos diferentes cursos do Campus São Borja, devem abordar as relações entre diferentes temas de estudo, como literatura e cinema, com o rock.
Outros cinco momentos especiais serão as audições críticas ("Áudio Rock"), com direito a toca-discos e clássicos do gênero musical no vinil. "Tem gente que, por incrível que pareça, não conhece de perto um disco 'bolachão'", conta o professor Beras. Finalmente, um dentre cinco filmes vai ser objeto de análise no "Cine Rock" que vai acontecer uma única vez durante a disciplina, de acordo com o plano de aulas atual.
Fonte: Assessoria de Comunicação da Universidade Federal do Pampa
UNIPAMPA Campus São Borja oferece DCG de Sociologia do Rock
A meta da disciplina complementar de graduação é fazer os estudantes pensarem de que formas a sociedade configura o rock e vice-versa. Para isso, as aulas relacionam momentos e episódios históricos às origens e desdobramentos do gênero musical. "É possível entender e estudar as alterações no mundo de 1950 para cá compreendendo o rock'n roll", afirma Beras.
Um conceito importante que vai ser usado na DCG é o de intercessor - que pode ser uma pessoa, um fato, um produto cultural - responsável por deflagrar uma mudança nas relações entre as pessoas e delas com as instituições. No caso do rock, as principais mudanças no mundo ocidental dos últimos 60 anos têm ligações com as ideias ventiladas para os jovens através das mais diversas bandas e propostas musicais - da Guerra Fria ao advento da cibercultura.
Aulas de sociologia do rock são comuns nos EUA por motivos óbvios, diz o professor, mas uma disciplina desse ramo de estudos sociais ainda não existia no Brasil - embora pesquisas em diversas áreas das Ciências Sociais abordem o gênero musical em suas ligações com a sociedade. Por isso, a DCG vai ser aperfeiçoada com a experiência obtida na versão intensiva. A dinâmica das aulas também busca inovar: além das exposições tradicionais, cinco palestras (batizadas de "Papo Rock"), ministradas pelos professores dos diferentes cursos do Campus São Borja, devem abordar as relações entre diferentes temas de estudo, como literatura e cinema, com o rock.
Outros cinco momentos especiais serão as audições críticas ("Áudio Rock"), com direito a toca-discos e clássicos do gênero musical no vinil. "Tem gente que, por incrível que pareça, não conhece de perto um disco 'bolachão'", conta o professor Beras. Finalmente, um dentre cinco filmes vai ser objeto de análise no "Cine Rock" que vai acontecer uma única vez durante a disciplina, de acordo com o plano de aulas atual.
Fonte: Assessoria de Comunicação da Universidade Federal do Pampa
Imazon diz que desmatamento na Amazônia aumentou 15% em junho
Imazon diz que desmatamento na Amazônia aumentou 15% em junho
Publicada em 27/07/2010 às 10h27m
Agência Brasil
BRASÍLIA - O desmatamento na Amazônia voltou a subir em junho, de acordo com levantamento da organização não governamental Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os satélites registraram 172 quilômetros quadrados (km²) de desmate, aumento de 15% em relação a junho de 2009.
O Pará liderou o desmatamento no mês, com 115 km² de floresta derrubada (67% do total de junho), seguido pelo Amazonas, com 22 km² de desmate, e por Mato Grosso, que perdeu 18 km² de vegetação nativa.
Segundo o Imazon, em junho, o desmatamento ocorreu principalmente na região da BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), nos trechos entre os municípios paraenses de Itaituba, Novo Progresso e Altamira. A derrubada também se concentrou na rodovia Transamazônica, entre os municípios de Apuí e Humaitá, no Amazonas.
Publicada em 27/07/2010 às 10h27m
Agência Brasil
BRASÍLIA - O desmatamento na Amazônia voltou a subir em junho, de acordo com levantamento da organização não governamental Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os satélites registraram 172 quilômetros quadrados (km²) de desmate, aumento de 15% em relação a junho de 2009.
O Pará liderou o desmatamento no mês, com 115 km² de floresta derrubada (67% do total de junho), seguido pelo Amazonas, com 22 km² de desmate, e por Mato Grosso, que perdeu 18 km² de vegetação nativa.
Segundo o Imazon, em junho, o desmatamento ocorreu principalmente na região da BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), nos trechos entre os municípios paraenses de Itaituba, Novo Progresso e Altamira. A derrubada também se concentrou na rodovia Transamazônica, entre os municípios de Apuí e Humaitá, no Amazonas.
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